Capítulo 42 – Depois que os romanos ergueram aqueles cavaletes, derrubaram com os aríetes um pedaço do muro e fizeram brecha em algumas torres; Simão e joão e os outros revoltosos são tomados de tal terror que abandonam, para fugir, as torres de Hípicos, de Fazael e de Mariana, que só seriam tomadas pela fome, e então os romanos, tornando-se senhores de tudo, fazem uma horrível matança e incendeiam a cidade.

Dez dias depois que os cavaletes haviam sido iniciados, foram acaba­dos, a sete de setembro e os romanos colocaram suas máquinas sobre eles.

Então, os revoltosos perderam toda esperança de poder por mais tempo defen­der a cidade. Vários abandonaram os muros para se refugiar no monte Acra ou nos esgotos, porém os mais corajosos atacaram os que faziam os aríetes avan­çar. Os romanos não somente lhes eram superiores em número e em força, mas sua prosperidade animava-lhes a coragem, ao passo que os judeus estavam abatidos, sob o peso de tantos males. Os aríetes derribaram um bom pedaço de muro e fizeram brecha em algumas torres; os que as defendiam, fugiram; Simão e Judas foram tomados de tal horror, que imaginando o mal muito mai­or que na verdade era, só pensaram em fugir, antes mesmo que os romanos tivessem chegado até aquele muro. O horrível orgulho daqueles ímpios con­verteu-se de repente em tal espanto que por mais malvados que eles fossem, não se poderia deixar de sentir compaixão de tão estranha mudança. Queriam, para se salvar, atacar os que defendiam o muro feito pelos romanos em redor da cidade, mas vendo-se abandonados por aqueles mesmos que antes lhes eram os mais fiéis, cada qual fugiu, como pôde; e como o medo perturba o juízo e faz que se vejam coisas que não existem, uns vinham dizer-lhes que todo o muro do lado do ocidente tinha sido derribado, outros, que os romanos já haviam entrado, outros, que eles se tinham apoderado das torres. Tantos boatos falsos aumentaram de tal modo o seu terror, que, atirando-se de rosto por terra, eles recriminavam sua loucura e, como se tivessem sido feridos por um raio, ficavam imóveis, sem saber que deliberação tomar.

Viu-se então claramente um efeito do poder de Deus e a boa sorte dos romanos; pois a perturbação em que se encontravam aqueles tiranos, fez que se privassem por si mesmos da maior vantagem que lhes restava, abandonando as torres, onde nada tinham a temer, senão a fome. Assim, os romanos que tanto tinham se esforçado para derribar os muros mais fracos foram tão felizes, que se tornaram senhores, sem dificuldade, das três admiráveis torres de Hípicos, de Fazael e de Mariana, de que falamos há pouco e cuja resistência era tão extraor­dinária, que teriam atacado inutilmente, com todas as suas máquinas. Depois que Simão e João as abandonaram, ou melhor, que Deus os expulsou de lá, eles fugiram para o vale de Siloé, onde depois de ter retomado ânimo e se terem recuperado um tanto de seu terror, atacaram o novo muro, não, porém, com tanta força para dele se apoderar, porque o cansaço, o medo e tantos males que suportaram, tinham diminuído muito suas energias. Assim foram rechaçados e retiraram-se uns para um lado, uns para outro.

Os romanos vendo-se então senhores dessas torres, hastearam suas bandei­ras, bem no alto delas, com grandes gritos de alegria, porque os últimos esforços que haviam feito naquela guerra, os faziam desfrutar com mais prazer a felici­dade de a ter gloriosamente terminado. Mas tendo assim conquistado sem resis­tência este último muro, eles não podiam imaginar que não restasse ainda outro para vencer, e custavam crer no que viam com seus próprios olhos.

Os soldados, espalhados por toda a cidade, matavam sem distinção os que encontravam e incendiavam todas as casas com as pessoas que lá estavam escondidas. Os que nelas entravam, para saqueá-las, encontravam-nas cheias de cadáveres de toda a família, que a fome havia feito perecer; o horror de tal espetáculo os fazia sair de mãos vazias. Mas embora sentissem alguma compai­xão pelos mortos, não eram mais humanos com os vivos, pois matavam a todos os que encontravam; o número dos corpos amontoados uns sobre os outros era tão grande que entupia as ruas e o sangue em que nadavam apagava o fogo em vários lugares. A matança terminava à noite, o incêndio, porém, aumentava.

Foi a oito de setembro que Jerusalém, depois de ter sofrido tantos males, por fim, desapareceu sob o violento incêndio. Durante o assédio, mil sofrimentos a atormentaram, fazendo que sua felicidade e seu esplendor, que desde a funda­ção haviam sido enormes, se eclipsassem, depois de a terem tornado digna de inveja. Mas em tal conjuntura, depois de tantos males, essa infeliz cidade não é digna de lástima, a não ser por ter agasalhado em seu seio aquela multidão de víboras, que a devoraram e foram a causa de sua ruína.

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