Capítulo 5 – Resposta ao que Ápio diz, que os judeus fazem juramento de jamais fazer bem aos estrangeiros e particularmente aos gregos; que suas leis não são boas, pois eles não são livres; que eles não tiveram grandes homens, excelentes nas artes e nas ciências, e que os censura porque não comem carne de porco e porque se fazem circuncidar.
Ápio não é mais verdadeiro, quando afirma tão ousadamente que nós juramos por Deus, Criador do céu, do mar e da terra, jamais fazer bem aos estrangeiros, e particularmente aos gregos. Ele devia, ao invés, dizer aos egípcios a fim de concordar essas mentiras com as que havia dito antes, com relação a esse juramento, atribuindo-lhe a causa ao ressentimento que nossos pais tinham porque os egípcios os haviam expulsado de seu país, sem que para isso tivessem dado motivo, mas somente porque tinham contraído enfermidades corporais. Quanto aos gregos, estando mais afastados deles pela distância dos lugares do que pela nossa maneira de viver, não temos por eles nem ódio nem inveja. Ao contrário, vários deles abraçaram nossas leis, que alguns continuaram a observar e outros as deixaram, porque as achavam muito severas. Mas haverá um só desses que possa dizer que tenha sido obrigado a fazer algum juramento? Toca a Ápio revelar esse mistério. Ele deve ter disso conhecimento, pois foi ele que o inventou.
Eis algo que dará muito melhor a conhecer seu admirável juízo. Ele diz que parece que nossas leis não são justas, nem nosso culto para com Deus, como deveria ser, visto que em vez de mandar, nós obedecemos a diversas nações e somos maltratados em diversos lugares e que mesmo nossa capital, outrora tão livre e tão poderosa, está sujeita aos romanos. Sobre isso, pergunto qual a nação que pôde resistir ao ímpeto de suas armas, e que outro senão Ápio é capaz de falar dessa maneira? Quem não sabe que é uma felicidade, que quase não tocou a povo algum, poder conservar-se numa dominação constante e não ser obrigado a obedecer depois de ter governado? Os egípcios são os únicos, se neles quisermos crer, que jamais experimentaram essa mudança, porque, dizem eles, que os deuses expulsos de outros países refugiaram-se no deles e lá se esconderam, transformando-se em animais e que para recompensá-los, os preservaram das conquistas e das dominações dos conquistadores da Ásia e da Europa, houve jamais vaidade mais extravagante? Não sabemos, que desde todos os tempos eles não foram livres, nem mesmo sob o reinado de seus próprios soberanos? Que os persas por várias vezes saquearam-lhes as cidades, destruíram-lhes os Templos e mataram esses animais que eles põem no número dos deuses? Não pretendo, entretanto, fazer-lhes censuras e imitar a loucura de Ápio, que, quando manchou sua pena no fel e no veneno para escrever contra nós, não considerou as desgraças que aconteceram aos atenienses e aos lacedemônios, dos quais uns passam sem contestação pelos mais valentes e outros, pelos mais religiosos de toda a Grécia. Não direi também quantos reis célebres por sua piedade e Creso, entre outros, experimentaram a inconstância da sorte. Não referirei outros-sim de que modo essa poderosa cidade de Atenas, esse soberbo Templo de Efeso e o de Delfos foram reduzidos a cinzas, sem que ninguém tenha censurado os autores desses deploráveis incêndios.
Somente Apio foi capaz de forjar contra nós semelhantes acusações, sem se lembrar de tantos males que o Egito, sua pátria, sofreu, porque Sesóstris, que ele falsamente supõe ter sido rei do Egito, sem dúvida cegou-o. Não direi também quantos povos foram submissos aos nossos reis Davi e Salomão. Mas, para falar somente dos egípcios, é possível que Ápio desconheça o que todos sabem, que eles estiveram sob a dominação dos persas, e dos outros povos da Ásia, e dos macedônios, que os trataram como escravos? Nós, ao contrário, continuamos livres e tivemos durante cento e vinte anos as cidades vizinhas sob nossa dominação até Pompeu, o Grande; e os romanos submetendo os outros reis, nossos antepassados, trataram-nos como amigos e como aliados, pelo seu valor e pela sua fidelidade.
Ápio diz também que não possuímos grandes homens, que tenham sido excelentes nas artes e nas ciências, como Sócrates, Cleanto e outros, no número dos quais nos não devemos admirar muito de que ele tenha tido a vaidade de se colocar, e de dizer que Alexandria só é feliz por ter sido a pátria de um cidadão como ele. Entretanto, era de mister que, querendo passar por um homem tão importante, ele desse esse testemunho de si mesmo, pois sendo conhecido por todos como um homem mau, tão corrompido em seus costumes quão extravagante em suas palavras, devemos lamentar Alexandria, se ela se orgulha de possuir tal cidadão. Quanto aos homens de nossa nação que foram excelentes nas artes e nas ciências, poderíamos, lendo as nossas histórias antigas, constatar que ela os teve e não inferiores aos gregos.
As outras censuras desse ridículo autor são tão desprezíveis, pois recaem sobre ele mesmo e sobre os egípcios, que seria talvez mais conveniente não responder a nenhuma delas. Ele lamenta-se de que, sacrificando animais, nós não queremos comer a carne de porco e zomba da nossa circuncisão. A isso respondo que, quanto a matar animais, isso nos é comum com todos os outros povos, e quanto aos nossos sacrifícios, a aversão que ele por isso demonstra prova muito bem que ele é egípcio. Os gregos e os macedônios não se preocupam com isso e nada têm a recriminar, porque eles oferecem aos seus deuses* hecatombes e comem com seus sacerdotes a carne dos animais sacrificados, sem temor de que isso venha a eliminar da terra tal espécie de animais, como Ápio mostra recear, ao passo que, se todos os outros países se conformassem com os costumes dos povos de que são originários, não restaria bem depressa um homem sobre a terra, tanto estaria ela cheia desses cruéis animais, que os egípcios adoram como divindades e que alimentam com tanto cuidado.
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* Hecatombe é um sacrifício de cem bois.
Se lhe perguntarmos quais os negócios que ele julga mais sábios e mais religiosos, ele responderá, sem dúvida, que são os sacerdotes, pois ele disse que a eles os primeiros reis do Egito ordenaram reverenciar os deuses e fazer profissão particular de sabedoria. Ora, todos esses sacerdotes fazem-se circun-cidar e se abstêm de comer carne de porco e nenhum outro dos egípcios faz sacrifícios com eles.
Ápio não teria perdido o juízo quando, nos caluniando para favorecer aos egípcios, ele não percebeu que é sobre eles mesmos que recaem as censuras que nos faz, pois que eles não somente fazem o que ele condena, mas ensinaram os outros povos a se fazem circuncidar, como o afirma Heródoto. Depois disso, nos não admiraremos de que Ápio, não tendo tido receio de falar tão ultrajosamente contra as leis do seu país, tenha sido castigado como merecia, porque não pôde evitar fazer-se circuncidar e sua ferida tornou-se tão grave que ele expirou, com sofrimentos e dores inauditas, para mostrar ao mundo, com que piedade e respeito devemos observar as leis que estamos obrigados a seguir, e de como não devemos censurar as dos outros. Tal o fim de Ápio, por ter feito o contrário; este deveria ser também o fim deste livro que eu determinei escrever, para lhe dar as convenientes respostas.
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