Capítulo 8 – Nada é mais ridículo que essa pluralidade de deuses dos pagãos, nem tão horrível como os vícios de que eles estão de acordo, essas pretensas divindades são capazes. Os poetas, os oradores e os excelentes artistas contribuíram principalmente para estabelecer essa falsa crença no espírito dos povos;porém os mais sensatos e sábios entre os filósofos não a tinham.

Não quero examinar as leis dos outros povos; nós nos contentamos em ob­servar as nossas, sem censurar as dos outros; e nem tampouco zombamos delas, nem maldizemos aquilo que essas nações consideram como deuses, porque nos­so legislador no-lo proibiu, pelo respeito devido a tudo o que traz o nome de Deus. Mas eu não poderia não responder às coisas de que nos acusam tão falsa­mente, embora pareça que este escrito não seja necessário para refutá-las, porque já o foram por tantas outras. Quem são os mais estimados entre os gregos por sua sabedoria, que não tenham repreendido os poetas mais célebres e parti­cularmente os legisladores, por terem feito os povos crer nessa pluralidade de deuses, nascidos uns dos outros, em tantas maneiras diferentes e que faziam chegar a tal número como bem lhes parecia e lhes davam, como aos animais, diversos lugares para morada, uns sobre a terra, outros no mar e queriam que os mais antigos estivessem acorrentados no inferno. Quanto aos que eles diziam habitar no céu davam-lhes um pai de nome, mas um tirano de fato, contra o qual sua mulher, o irmão e a filha nascida do cérebro, tinham conspirado para expulsá-lo do trono como ele tinha expulsado o pai. Assim os gregos que sobre­pujavam aos outros em sabedoria não podiam zombar dessas extravagantes e de que os que as apregoavam tão ousadamente queriam fazer crer que esses deu­ses, uns eram jovens, outros na flor da idade, e outros, velhos; que havia toda a espécie de ofícios e profissões entre eles; um era ferreiro, outro era tecelão, ou­tro, guerreiro, que combatia contra os homens, outro tocador de harpa, outro, que era hábil no manejo do arco, interessando-se pelas questões dos homens, vinha combater com eles, recebia ferimentos, que suportava com impaciência. Mas, o que é ainda horrível, eles atribuem a esses pretensos deuses e deusas amores e licenciosidades, coisas ridículas de se imaginar, de que as divindades sejam capazes. Admitem que aquele deus, que eles representam, tão poderoso, senhor de todos os outros, depois de ter abusado de mulheres, não teve o poder de impedir que elas ficassem prisioneiras e que fossem afogadas com os filhos que tivera delas, embora sua morte o fizesse derramar lágrimas, porque ele era obrigado a ceder às imposições do destino. Eis ações certamente muito louváveis para deuses, cometer com tanta imprudência adultérios no céu, que demonstra­vam invejar eles os que eram surpreendidos em ações tão infames: e que não podiam fazer os deuses menores, vendo que esse Júpiter que eles reverenciavam como rei era tão arrebatado por essa brutal paixão? Que direi também do que eles demonstravam crer, que alguns desses deuses conduziam os rebanhos dos homens e os serviam com outras coisas, para disso tirar proveito; outros estavam encerrados numa prisão como criminosos e amarrados com correntes de ferro? Outros não têm receio de representar essas falsas divindades como capazes de temor, de furor, de fraude e de todas as outras paixões mais condenáveis. Embo­ra representando-os tão imperfeitos, eles tinham persuadido os povos a lhes ofe­recerem sacrifícios; julgavam a uns benfeitores, a outros, malfeitores, e procediam para com eles como o fariam com os homens, pois procuravam torná-los favoráveis por meio de presentes, na persuasão de que de outro modo ter-lhes-iam feito muito mal.

Poderemos ser sensatos e não sentir indignação contra os que envenenaram os espíritos com tão grande impiedade, e não nos admiramos da loucura daque­les que foram tão simples deixando-se persuadir? Não posso atribuir-lhes a causa senão ao afeto de legisladores terem tão grande ignorância da natureza e da grandeza de Deus, que não podendo daí tirar alguma luz para o governo das repúblicas, eles permitiam aos poetas fazer passar por deuses sujeitos às paixões dos homens, todos os que eles queriam, e aos oradores escreverem tratados referentes ao governo das repúblicas, apoiando suas idéias com a autoridade dos deuses estrangeiros. Os pintores e os escultores muito também contribuíram para isso entre os gregos, representando essas divindades segundo seu capricho e, particularmente, os mais hábeis dos artifícios que para isso empregavam o ouro e o marfim. Aconteceu mesmo que deixaram de adorar as mais antigas dessas divindades para adorarem novas. Restabeleceram em sua honra os anti­gos Templos, e construíram-se outros novos, segundo a inclinação dos homens a isso os levavam; ao passo que o culto do verdadeiro Deus deve ser perpétuo e imutável.

Podemos com razão colocar Molom no número desses insensatos, que se perdem por seu orgulho no desgarramento de suas idéias, mas os verdadeiros filósofos gregos não ignoravam o que eu disse sobre a essência e a natureza de Deus. Eles estão de acordo conosco e zombaram dessas ridículas ficções. Por isso Platão não admite poeta na sua república e exclui o mesmo Homero, com quem depois reconcilia, presta-lhe honra, coroando-o de louros, aspergindo-o com perfumes para que não destrua, por meio de suas fábulas, a idéia que se deve ter de Deus e lhe não arrebate a glória que lhe é devida. Esse grande personagem também imitou a Moisés, ordenando expressamente aos cidadãos da república, dos quais formou a imagem, que aprendessem com grande cuidado as leis que lhes dá, de medo que a elas se misture algo de estrangeiro, que lhe corrompa a pureza e lhes impeça a duração.

Molom não considera nenhuma dessas razões. Ele nos acusa ousadamente de não recebermos os que têm opinião e maneira de viver completamente contrári­as às nossas, embora nada façamos do que os gregos fazem, e mais que nenhum outro dos que passam entre eles pelos mais prudentes. Os lacedemônios não recebiam estrangeiros e proibiam aos seus cidadãos viajar, de medo que suas relações com outros povos enfraquecessem em seu espírito o vigor da disciplina. Nisso poderíamos com justiça acusá-los de serem demasiado severos e podemos passar, parece-me, por mais bondosos e humanos, pois ainda que não tenhamos motivo de invejar leis e costumes de outras nações, não fazemos dificuldade em receber os que querem se instruir nos nossos.

Mas, deixando os lacedemônios, Molom mostra ignorar os sentimentos dos atenienses, que ao contrário dos lacedemônios, se vangloriam de que a entrada em suas cidade está aberta a todos e castigam com a morte os que ousam dizer, com relação aos deuses, a mínima palavra, a mais do que está exarado em suas leis. Não foi por esse motivo que eles fizeram Sócrates morrer? Tinha ele conspi­ração com os inimigos contra a pátria, ou querido profanar os Templos? Seu único crime foi ter usado de um novo juramento e ter dito iradamente ou por gracejo, que uma divindade lhe havia revelado o que ele devia fazer. Julga-se que o acusaram também de ter corrompido o espírito da juventude, inspirando-lhes o desprezo pelas leis e pelos costumes de seu país e cidadão de Atenas, como ele era, uma dessas coisas ou todas as duas, ao mesmo tempo, custaram-lhe a vida, sendo obrigado a beber cicuta.

Esses mesmos atenienses não condenaram também à morte Anaxágoras de Clazomende, porque ele julgava que o sol era um deus, da forma de uma pedra redonda, toda inflamada, que rodava sem cessar? Prometeram também um ta­lento a quem lhes trouxesse a cabeça de Diágoras Meliano, porque ele fora acu­sado de ter zombado de seus mistérios; teriam feito morrer Pitágoras se ele não tivesse fugido, porque julgava-se que ele era autor de um escrito em que punha dúvidas sobre seus deuses. Mas admirar-nos-emos de que eles tenham tratado tão cruelmente os homens, quando fizeram morrer uma sacerdotisa, acusada de adorar deuses estrangeiros e ordenaram por meio de um édito a mesma pena contra os que tentassem introduzir uma nova crença? Está claro que eles não reconhecem por seus deuses os que as outras nações adoram, pois que do con­trário não teriam querido se privar do auxílio que deles teriam podido esperar.

Os citas mesmos, tão cruéis que não sentem maior prazer do que derramar sangue humano e não diferem quase nada dos animais selvagens, os mais fero­zes, não deixam de ser tão ciosos da observância de seus mistérios, que mataram Anacárcis, tão admirado pelos gregos pela sua grande sabedoria, porque ao seu regresso ele parecia compenetrado de respeito pelos deuses que lá são adorados.

Não vemos também que entre os persas muitos sofreram grandes tormentos pelo mesmo motivo? Ora, todos sabem que Molom aprecia muito as leis dos persas e admira, como os gregos, a uniformidade de seus sentimentos com relação aos deuses e a constância invencível que eles demonstraram quando lhes queimaram os Templos. Mas ele não os estima somente, ele os imita, ultrajando as mulheres dos outros e fazendo em pedaços seus filhos, crimes que entre nós mereceriam a pena de morte, se os cometêssemos, ainda mesmo contra os irracionais.

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