Capítulo 9 – Como os judeus são obrigados a preferir suas leis a todas as outras. Diversos povos não somente as autorizavam com sua aprovação, mas os imitaram.

Não houve poder, por maior que fosse, nem consideração qualquer, que ja­mais nos pudesse afastar da observância de nossas leis. O único desejo de as conservar e não o de nos engrandecemos nos fez empreender generosamente grandes guerras. Nós sofremos com paciência todos os outros males, mas quan­do quiseram tocar nessas santas leis, para defendê-las, praticamos atos de valor que parecem superiores às nossas forças, sem que o extremo a que nos vimos reduzidos tivesse podido afrouxar nosso ardor e enfraquecer nossa coragem. Como então poderíamos preferir a nossas leis às dos outros povos, vendo que elas não são observadas, nem mesmo por aqueles que as criaram? Como pode­ríamos não censurar os lacedemônios por sua pouca humanidade para com os estrangeiros e por sua negligência com relação aos casamentos? Como podería­mos não sentir horror pela abominação dos elídios, dos tebanos e de outros povos da Grécia, que se vangloriam de cometer pecados que causam vergonha à natureza? Que os misturaram às suas leis, que os atribuíram mesmo aos seus deuses e que soltando o freio de suas brutais paixões, não fazem caso de despo-sar suas próprias irmãs? Que direi dos meios de que vários desses legisladores de que eles se gabam, aqueles deram aos maus, para evitar o castigo de seus crimes, ordenando como pena de um adultério apenas uma multa pecuniária? Ou ainda depois de ter violado uma virgem ficar-se livre de desposá-la? Eu não o teria feito, se quisesse examinar particularmente todas as ocasiões que eles dão de renunciar à virtude e à piedade, e quantos pretextos eles acharam para calcar aos pés todas as leis. É o que não se dá entre nós; nós observamos inviolavelmente as nossas leis até à morte; por não querer abandoná-las, fomos expulsos de nossas cidades e despojados de nossos bens. Não encontrará um só judeu, por mais afastado que ele esteja do seu país e por mais rudes e temíveis que sejam os príncipes sob a dominação dos quais eles vivem, que faça, por temor, algo con­trário às suas leis. Se a pureza dessas leis nos torna tão afeiçoados à sua conserva­ção, devemos estar de acordo em que elas são muito boas. E se dissermos que são más, e que é por teimosia que a ela nos apegamos, que castigo não merecem os que, julgando as suas mui perfeitas, não as observam?

Ora, como uma longa seqüência de séculos é a melhor de todas as provas, disso me servirei para mostrar as virtudes de nosso admirável legislador, e que nada se pode acrescentar à santidade das regras que ele nos deu, com relação ao culto que somos obrigados a prestar a Deus. devemos apenas computar os anos para vermos que Moisés precedeu de muito a todos os outros legisladores. Foi, portanto, de nós que vieram as leis que tantos outros abraçaram, e embora os mais sábios dos gregos observem aparentemente as de seu país, eles seguem na verdade as nossas, têm as mesmas idéias sobre Deus e ensinam a viver do mesmo modo.

Vários outros povos também há muito tempo ficaram tão impressionados pela nossa piedade, que não há cidade grega, nem bárbaros, onde não se deixe de trabalhar no sétimo dia, onde não se acendam lâmpadas e onde não se façam jejuns. Muitos mesmo se abstêm, como nós, de comer certas carnes e iguarias e procuram imitar a união em que nós vivemos, a comunicação que fazemos de nossos bens, nossa indústria nas artes e nossa constância no sofrimento, para observar nossas leis.

O que é, porém, muito mais admirável ainda é que, assim como Deus gover­na o mundo com sua sabedoria e com seu poder, nossa lei age por si, mesmo nos espíritos e nos corações, sem que seja necessário, para fazê-la observar, que se obrigue a quem quer que seja, e aqueles que refletirem no que se passa em seu país e em suas casas não terão dificuldade em prestar fé ao que estou dizendo. Poderemos então não admirar assaz a malícia dos que querem que abandone­mos leis tão santas, para tomarmos outras más? Se eles não o querem, que dei­xem então de nos atacar com calúnias. Protesto sinceramente que não me em­penhei por ódio algum a defender esta causa. Meu único fim é sustentar a honra de nosso legislador e do que ele nos alegou, por ordem de Deus. Quando não compreendêssemos por nós mesmos a santidade dessas leis, o grande número dos que as observam e que as admiram nos deveria causar respeito para com elas. Já falei muito difusamente delas, bem como também da antigüidade de nossa nação e da forma de nossa república na minha história dos judeus; foi somente por necessidade que voltei a fazê-lo agora aqui, sem intenção de censu­rar os outros, nem de nos louvar, mas somente para mostrar a malícia dos que nos atacam e nos atribuem tantas coisas contrárias à verdade.

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