Capítulo 7 – Continuação do capítulo anterior, onde também falamos dos sentimentos que os judeus têm da grandeza de Deus e do que eles sofreram para não faltar à observância de suas leis.

Entre outros preceitos de nossa religião e que todos nós conhecemos, ela nos obriga a crer que Deus compreende tudo em si; que nada falta à sua perfeição, nem à sua felicidade, que Ele é bastante a si mesmo e a todas as criaturas, que Ele é o princípio, o meio e o fim de todas as coisas, que Ele opera em todas as nossas ações e nossas boas obras, que nada é mais visível do que seu poder, mas sua forma e sua grandeza são incompreensíveis; que tudo o que há de mais rico, e de mais excelente no mundo é incapaz de o representar e é desprezível em comparação à sua glória; que não somente nossos olhos nada podem ver que lhe seja semelhante, mas nosso espírito nada pode imaginar que se lhe aproxime e nós o conhecemos apenas por meio de suas obras, quando consideramos a luz, o céu, o sol, a lua, a terra, o mar, os rios, os animais e as plantas, que são obra de suas mãos, sem que Ele tenha tido necessidade para criá-los, nem de trabalhar, nem de ser ajudado por quem quer que seja, sendo sua única vontade suficiente para lhes dar o ser, no momento em que Ele assim quis. É, pois, a Ele que todos os homens são obrigados a adorar e a servir, praticando a virtude, que é o único meio de agradá-lo.

Como há somente um Deus e um mundo conhecido a todos os homens, nós não temos senão um único templo e essa conformidade é-lhe agradável. E nesse templo que nossos sacerdotes adoram sua Eterna Majestade. Aquele que ocupa entre eles o primeiro lugar oferecer-lhe, antes de todos os outros, sacrifícios, vigia pela observân­cia de suas leis, castiga os que são culpados de sua violação, julga as questões e todo aquele que desobedece é castigado como se tivesse desobedecido ao mesmo Deus.

Comemos a carne das vítimas que imolamos, não para que nos façam provei­to e tenhamos prazer, o que atrairia sobre nós a cólera de Deus, que ama a sobriedade e a temperança.

Começamos nossos sacrifícios por pedir o bem geral do mundo e depois, por nós mesmos, como fazem parte desse todo, sabendo que nada agrada mais a Deus que o liame de um afeto mútuo que nos une a todos.

Os votos e as orações que lhes oferecemos não têm por objetivo pedir-lhe bens; Ele o faz voluntariamente a todos; e a terra está cheia de seus benefícios, mas é para rogar-lhe a graça de bem usarmos de todos eles.

Antes de oferecermos os sacrifícios a lei nos obriga a nos purificarmos, sepa-rando-nos por alguns dias da companhia de nossas esposas, e observando outras coisas que seria mui longo enumerar.

Foi assim que Moisés ordenou vivermos para nos tornarmos agradáveis a Deus, que é Ele mesmo a nossa lei. Quanto ao que se refere ao casamento, dele pode­mos usar para ter filhos, mas todo comércio que viola as leis da natureza nos é proibido, sob pena de morte.

A lei quer também que no casamento nossa intenção seja tão pura que consideremos o bem e que longe de mantermos mulheres, não usemos do menor artifício para persuadi-las a nos desposar. Devemos recebê-las das mãos daqueles que têm o poder de no-las dar e com o consentimento dos pais. A mulher deve estar sujeita, em todas as coisas, ao seu marido, embora ela seja mais virtuosa do que ele, porque Deus lhe deu esse poder sobre ela, mas ele disso não deve abusar. A mulher só deve ter relações com seu marido e se a isso faltar, será castigada com a pena de morte.* A lei proíbe também, sob pena de morte, fazer violência a uma jovem prometida a outro e cometer adultério com uma mulher casada e com aquela que amamenta filhos, e proíbe às mulheres, sob o mesmo castigo, suprimir os filhos, que traem ao mundo ou fazê-los mor­rer em seu seio, porque é matar uma alma, sacrificando um corpo e diminuir o número dos homens.

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* O intérprete latino e Genebrad tomaram mal esta passagem, atribuindo ao homem o que se diz da mulher.

 

Por menor que seja a impureza em que se tenha caído, não se poderia ofere­cer o sacrifício e as mulheres são mesmo obrigadas a se lavar depois de terem tido a companhia de seus maridos, por causa da comunicação que a alma tem com o corpo.

A lei não permite mesmo no dia em que se soleniza o nascimento das crianças fazer festas, de receio de se dar motivo a embriaguez e para ensiná-las desde então a serem sóbrias. Ela quer que sejam instruídas, desde tenra idade, nas letras e no conhecimento de nossas leis e que lhes ensinemos os grandes feitos dos nossos antepassados, a fim de animá-los à sua imitação e tirar-lhes todo pretexto de faltar, por ignorância.

A sabedoria dessa lei tão santa chega a se interessar até mesmo pelos funerais dos defuntos; ela lhes modera a suntuosidade, como também a dos sepulcros, mas ordena aos domésticos que cuidem das homenagens de seus amos, com ordem de se purificarem depois de se terem aproximado de seus corpos mortos e permite aos parentes dos falecidos chorá-los e lamentá-los, porque isso é um dever de piedade, que não se poderia com justiça negar à natureza.

Se alguém cometeu um assassínio, voluntária ou involuntariamente, a mesma lei ordena-lhe o castigo.

Ela manda dar, depois de Deus, toda espécie de honra aos pais e às mães; determina que aqueles que a isso faltarem sejam apedrejados; que os moços respeitem os velhos, porque nada é tão antigo como Deus. Quer também que os amigos, juntos, vivam com grande sinceridade de coração, porque não pode haver amizade onde não há confiança. Mas se acontecer que sua amizade se desfizer ela proíbe expressamente revelar os segredos que haviam sido revelados durante a amizade. Se um árbitro recebe presentes, ela o condena à morte, por­que ele calcou aos pés a justiça.

Trata como culpados os que podendo ajudar o próximo não o fazem; proíbe tomar o que pertence a outrem e emprestar com usura.

A sabedoria que reluz em todas essas leis e em outras semelhantes conserva a união entre nós e creio dever também referir com que prudência nosso excelen­te legislador nos ordena como proceder para com os estrangeiros, para que se veja que nada se pode acrescentar às suas determinações, para nos impedir de afrouxarmos na observância de nossas leis, pelas nossa relações com eles ou de faltar à caridade, invejando-lhes a felicidade de segui-las se eles o desejarem. Ele nos manda então que, no caso de eles desejarem aceitá-la, nós os recebamos de braços abertos, porque a união entre os homens não consiste tanto em ser de uma mesma nação, do que em haver conformidade nos sentimentos e na manei­ra de viver. Quanto aos estrangeiros que estão somente, Ele não permite comu-nicarmos-lhes algo de nossos costumes, mas quer que nos contentemos em ajudá-los no que lhes é necessário. Acrescenta que não devemos recusar a ninguém o fogo, a água, o alimento, a sepultura e o conhecimento do caminho que ele deve seguir. Sua bondade estende-se até aos inimigos, pois proíbe-nos de incen­diar seu país, cortar-lhes as árvores frutíferas, despojar os que morrem na luta e maltratar os prisioneiros, particularmente as mulheres.

Ele teve tanto cuidado em nos inspirar a humanidade e a doçura, que quer que a pratiquemos até mesmo com os irracionais. Permite-nos deles usarmos de maneira legítima, mas proíbe-nos matar os que, sendo domésticos, nascem em nossas casas, bem como matar os filhotes com as mães dos que nos é permitido comer. Quer ainda que poupemos aos animais que nos são inimigos e proíbe matar os que nos ajudam em nossos trabalhos.

Assim vemos que a tudo o que nos pode ser útil a sua sabedoria se estende; Ele determinou penas contra os transgressores destas leis, mas penas que em vários casos não são menores que a mesma morte. A elas condena os que come­tem adultério, os que violentam uma moça ou que caem, com uma pessoa do mesmo sexo, num crime que causa vergonha à natureza, sem exceção alguma, quer seja livre quer escravo.

Ele determinou também penas contra os que vendem com peso e medidas falsas, os que usam de fraude de qualquer outro modo e essas penas são muito maiores que nas outras nações.

Quanto aos que cometerem alguma impiedade para com Deus ou que ofen­dem aos próprios genitores, fazem imediatamente. Porém aqueles que obser­vam religiosamente todas estas leis recebem como recompensa de sua virtude não somente ouro, prata, ou coroas adornadas de pedrarias, mas também o que é incomparavelmente mais precioso: o testemunho da própria consciência e a felicidade de serem amados por Deus, que confirma o que Moisés, seu servo, predisse, não poder deixar de acontecer; e de tal modo fortifica-lhes tanto a fé que eles se expõem com alegria à morte para a defesa dessas santas leis, com a firme esperança de gozar de uma felicidade eterna na outra vida.

Eu não teria dito o que acabo de dizer se não fosse de todos sabido, que muitos de nossa nação sofreram tantas e tão grandes perseguições, e com uma coragem invencível toda sorte de tormentos e a mesma morte, antes que proferir a mínima palavra contra nossa lei. Mas, quando mesmo isso não fosse coisa de todos conhe­cida e que nunca se tivesse ouvido falar de nós, se alguém dissesse ter lido numa história ou visto num país longínquo, afastado de todo comércio, um povo que tinha sentimentos religiosos para com Deus e que observava há muitos séculos tais leis, sem jamais delas se ter afastado, poderia deixar de se admirar? Não seria o espanto ainda maior, se visse continuamente em seu país mudanças na religião e nos costumes? Não sabemos que os gregos, que deliberaram há pouco escrever sobre o governo da república foram tratados de ridículos, por que propuseram coisas cuja prática é impossível? Não falamos dos filósofos dessa nação que escre­veram sobre esse assunto, antes de Platão, que tanto eles admiram, como sobre­pujando a todos os outros pela pureza dos costumes pela eloqüência e pela força do raciocínio; não foi ele criticado mesmo nas suas comédias, por aqueles que afirmavam que o que ele tinha escrito de política não se podia praticar; entretanto, se considerarmos suas obras encontraremos que há várias coisas que se referem aos costumes dos outros povos e ele mesmo confessa que por causa da ignorância do vulgo, ele não se atreveu a escrever tudo o que sabia da grandeza e da glória de Deus, porque não o teria podido fazer sem perigo. Mas outros zombam dessas leis propostas por Platão, como sendo novidades e feitas apenas por passatempo e julgam de tal modo as de Licurgo, que têm os lacedemônios por felizes por observá-las há tanto tempo. É, pois, por seu próprio testemunho um sinal de virtude perse-verar na prática das mesmas leis; e se eles admiram nisso aos lacedemônios, não deveriam muito mais nos admirar, comparando o pouco de tempo que esse povo teve de observá-las, com os mais de dois mil anos que nós observamos as nossas? Podemos ainda acrescentar que eles só praticaram quando se tomaram livres e depois mesmo, as abandonaram quando a fortuna os abandonou. Nós, ao contrá­rio, embora ela nos tenha de tal modo perseguido nas diversas vicissitudes dos dominadores da Ásia e embora oprimidos por males, jamais delas nos afastamos sem que nos possam acusar de ter considerado nisso nosso descanso ou prazer, e embora as dificuldades e trabalhos que nos impuseram tenham sido muito maio­res que os dos lacedemônios: pois eles apenas trabalhavam a terra e desempenha­vam diversos ofícios e viviam à vontade nas aldeias e cidades, bem alimentados e bem vestidos, sem que outra coisa deles se exigisse que ir à guerra contra os inimi­gos daqueles que os haviam sujeitado. Não me detenho, porém, em fazer notar que eles não lhes permaneceram fiéis, como suas leis os obrigavam, pois tomaram as armas e passaram para os inimigos. Poder-se-á dizer a mesma coisa de nós? Sei apenas de duas ou três pessoas que renunciaram às nossas leis, de medo da morte; não falo da morte no campo da luta, que é fácil de se suportar, mas da morte cruel, no meio dos tormentos, tão horrível que eu não poderia crer, seja por um movi­mento de ódio, que aqueles aos quais estamos sujeitos tenham feito sofrer a mui­tos de nossa nação. Estou persuadido de que a isso foram levados, para ver se havia homens tão apegados à observância de suas leis, que considerassem como o mai­or de todos os males fazer ou dizer a mínima coisa que lhes fosse contrária.

Não há, entretanto, motivo de admiração de que nenhum outro povo se exponha tão corajosamente como nós à morte, para a defesa de suas leis, pois não se podem resolver a observar somente coisas que nos parecem leves, como a simplicidade na bebida e na comida, nos hábitos, a continência e a observância dos dias de descanso. Devemos perguntar-lhes se no ardor da peleja, quando eles põem em fuga os inimigos, eles se poderiam resolver a praticar aquela abs­tinência de certas carnes, que a lei determina, mas nós sentimos prazer em pres­tar essa obediência às nossa leis com firmeza invencível.

Que Lisímaco, Molom e esses outros filósofos que só escrevem calúnias e enganam a juventude cessem de nos querer fazer passar pelos piores de todos os homens.

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