Capítulo 3 – O imperador Caio entrega-se a toda sorte de devassidão e de crimes, e por uma horrível ingratidão e uma espantosa crueldade obriga o jovem Tibério, neto do imperador Tibério, a se matar.
Mas mui depressa se viu como o espírito humano é cego, como ele ignora o que lhe é útil e toma as sombras pela verdade. O soberano, que era considerado como um admirável benfeitor, cujas graças e favores se derramavam por toda a Europa e toda a Ásia, tornou-se um monstro de crueldade, ou melhor, manifestou a que tinha nascido com ele e que tinha até então dissimulado.
O imperador Tibério tivera de Druso, seu filho, que morrera antes dele, o jovem Tibério, e tivera de Germânico, seu sobrinho, Caio Calígula, que preferira a Tibério, na sucessão ao trono, com a condição de reconhecer um tão grande benefício, pela maneira como viveria com seu neto. Mas Caio, em vez de se comover por ter recebido com essa adoção o que pertencia ao jovem Tibério, por nascimento, levou sua ingratidão a tal excesso de desumanidade, que depois de ter sido causa de que ele perdesse o império, fê-lo também perder a vida, sob o pretexto de que tinha tentado contra a dele, como se uma pessoa de sua idade fosse capaz de tal ação; muitos julgam que se ele tivesse tido alguns anos mais, seu avô tê-lo-ia sem dúvida escolhido para seu sucessor e ter-se-ia desfeito de Caio, de quem já começava a suspeitar.
Eis como Caio procedeu para executar uma resolução tão detestável contra aquele, com o qual a justiça obrigava a dividir a suprema autoridade. Mandou vir o jovem Tibério, reuniu seus amigos e disse-lhes falando dele: “Eu não o amo somente como meu primo, mas como se ele fosse meu próprio irmão, e desejaria, de todo meu coração, poder agora associá-lo ao governo, para satisfazer à última vontade de Tibério, mas vedes que, sendo tão jovem, ele tem mais necessidade de governante do que de ser governador. Se não fosse isso, quanta alegria não sentiria eu de poder dividir com ele uma parte tão grande do peso, como o de governar tantos povos! Como meu afeto por ele a isso me obriga, eu vos declaro que estou disposto a servir-lhe não somente de preceptor, mas de pai; quero que assim ele me chame, e eu o chamarei, daqui por diante, de meu filho”.
Depois que Caio com este ardil enganou a todos os seus ouvintes e com essa fingida adoção, tirou, em vez de dar ao pobre príncipe, a parte que lhe tocava no império, não encontrou mais obstáculo para fazê-lo cair na armadilha preparada, porque as leis romanas dão aos pais um poder absoluto sobre os filhos, e esse supremo grau de autoridade em que ele se achava não deixava a ninguém a liberdade de lhe perguntar a razão do que ele fazia. Assim, considerando o jovem príncipe como inimigo, tratou-o como tal, sem se deixar comover nem pela idade, nem por ter sido educado com ele, na esperança de poder suceder ao avô, ao qual, depois da morte de seu pai, ele tinha o lugar de filho e não somente o de neto.
Diz-se que para executar o seu projeto ele ordenou-lhe que se matasse na presença dos tribunos e dos oficiais, proibindo-lhes que o ajudassem nessa ação, porque os descendentes dos imperadores só podem morrer por suas próprias mãos, pois ele ainda queria passar por um grande observante das leis, violando-as; por religioso, cometendo um grande crime, não temia zombar da verdade, com tão estranha hipocrisia. Então o pobre moço, que jamais havia presenciado qualquer gênero de morte e nunca tomara parte naqueles combates falsos nos quais os moços e os jovens príncipes em tempo de paz se exercitam, apresentou a garganta ao primeiro que encontrou e todos recusaram-se matá-lo; ele então tomou um punhal e perguntou em que lugar devia ferir. Concederam-lhe o favor de lho mostrar e assim instruído por aqueles caridosos mestres, ele feriu-se com tantos golpes, que, por uma deplorável imposição, foi assassino de si mesmo.
Comentários
Tão vazio aqui... deixe um comentário!