Capítulo 5 – Caio manda matar Marco Silano, seu sogro, porque lhe dava sábios conselhos. Esse assassínio é seguido de muitos outros.
Depois que esse pérfido príncipe se desfez do seu competidor ao império e de um homem ao qual ele devia o favor de ter sido elevado ao trono e mesmo a quem devia a própria vida, restava-lhe ainda um terceiro projeto a executar, e para isso ele empregou toda a sua habilidade. Marco Silano, seu sogro, que era muito generoso e deu mui ilustre descendência, tinha, depois da perda da filha, que falecera muito jovem, continuado a mostrar a Caio a afeição, não somente de um sogro, mas de um verdadeiro pai, na persuasão de que, por ter a princesa falecido há pouco, também Caio conservaria para com ele os mesmos sentimentos. Assim, falava-lhe ele com grande liberdade, do procedimento que ele devia ter para corresponder por suas ações às esperanças que dele haviam concebido. Mas Caio era muito presunçoso, e em vez de reconhecer seus defeitos, gabava-se de ser exímio em todas as virtudes; considerava como inimigos os que lhe davam bons conselhos e tinha como injúrias os sábios avisos de Silano; este tornou-se-lhe insuportável e ele não pôde tolerá-lo por mais tempo, como um empecilho para as suas paixões desregradas. Afastou em seguida de sua memória, bem como do coração, a lembrança de sua esposa, e por uma crueldade mais que bárbara, mandou matar, à traição, aquele de quem ela tinha recebido a vida e que ele devia considerar como pai. A notícia desse assassínio, que foi seguido de muitos outros, de pessoas as mais ilustres do império, espalhou-se por toda parte e disso se falava com horror, mas em segredo, porque o temor não deixava os sentimentos manifestarem-se. Entretanto, como o povo é muito fácil de se deixar enganar e tinha dificuldade em crer que um príncipe, que parecera tão bom e tão afável, se tivesse de tal modo mudado num momento, dizia para desculpá-lo: quanto à morte do jovem Tibério, o soberano poder não pode tolerar divisão; que ele tinha sido precedido por Caio, pois se sua idade lhe tivesse permitido, ele teria feito o mesmo que ele lhe fizera; que fora talvez por uma providência de Deus e para utilidade de toda a terra, que ele tinha perdido a vida, a fim de preservar o império de guerras civis e estrangeiras, que o teriam dividido pelas facções dos que abraçariam o partido desses dois príncipes: que nada é mais desejável do que a paz; e esta não subsiste senão pelo bom governo dos Estados, e um Estado só poderia ser bem governado por um único soberano, cuja autoridade mantém todas as coisas na tranqüilidade e na calma. Com relação a Macrom, ele se tinha tornado tão orgulho, que bem parecia ter-se esquecido daquelas belas palavras do oráculo de Delfos: Conhece-te a ti mesmo, o que é tão necessário que não podemos com esse conhecimento deixar de ser felizes, nem evitar sermos infelizes, quando não o temos; que era uma coisa intolerável, que Macrom se quisesse colocar acima do imperador, como se não tocasse aos príncipes governar e aos súditos, obedecer. Era assim que esses homens rudes interpretavam, por ignorância ou por bajulação, os salutares conselhos de Macrom. Com relação a Silano, eles diziam que era ridículo que ele pretendesse tanto poder sobre o genro, como um pai tem sobre o filho, visto mesmo que os pais, apenas cidadãos, são inferiores aos filhos quando elevados aos cargos e que tinha sido bem ingênuo, imaginando que, sendo apenas sogro, ele tinha o direito de imiscuir-se em coisas que não lhe competiam, sem considerar que a aliança que o unia com o imperador tinha terminado pela morte da filha, pois os casamentos são como ligações externas, que unem as famílias e terminam com a morte de uma da pessoas que os contrai.
Tais eram as palavras que se diziam nas assembléias, para não se acusar o imperador de crueldade, porque tendo-se tido antes, somente motivo de se conceber dele uma opinião de grande bondade, não se podia, no momento, pensar como eu já disse, que ele se tivesse mudado de um instante para outro.
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