Capítulo 34 – Eleazar, vendo que Massada não podia deixar de ser tomada de assalto pelos romanos, exorta a todos os que defendiam o castelo com ele, a incendiá-lo e a se matarem, para evitar a escravidão.
Mas Eleazar estava muito longe de querer fugir e de permitir a quem quer que fosse tal idéia. A única coisa que lhe veio à mente, quando viu o segundo muro reduzido a cinzas e que não restava mais nenhuma esperança de salvação, foi livrarem-se todos, com suas mulheres e filhos, dos ultrajes e dos males que poderiam esperar dos romanos, depois que eles se tivessem apoderado da fortaleza. Assim, julgando nada poder fazer de mais corajoso, em tal extremo, reuniu à noite os mais valentes de seus companheiros e para exortá-los àquela ação, assim lhes falou: “Generosos judeus, que resolvestes depois de tanto tempo não suportar nem a dominação dos romanos, nem a de qualquer outra nação, mas obedecer somente a Deus, que é o único que tem o direito de governar todos os homens, eis chegado o tempo de manifestardes por meio de obras, que verdadeiramente tendes esses sentimentos no coração. Até agora nós nos livramos da escravidão. Não nos desonremos agora, submetendo-nos à mais cruel, que poderíamos imaginar, se cairmos vivos nas mãos dos romanos, depois de termos sido os primeiros a sacudir-lhes o jugo e os últimos que tiveram a coragem de lhes opor resistência. Não nos tornemos indignos da graça que Deus nos faz de poder morrer voluntária e gloriosamente e ainda livres, o que é uma felicidade que não tiveram aqueles que se iludiram com a esperança de não poderem ser vencidos. Nossos inimigos só desejam aprisionar-nos vivos e por maior que seja a nossa resistência, não poderíamos amanhã evitar sermos atacados com violência; mas eles não nos podem impedir que nos antecipemos por uma morte generosa e terminemos nossos dias todos juntos, com as pessoas que nos são mais caras. Depois que empreendemos esta guerra, para defender nossa liberdade, não devemos julgar, pelos males que nos causaram nossas dissensões e ainda mais pelos que os romanos nos fizeram sofrer, com os felizes êxitos de suas armas, que Deus que tinha outrora amado tanto nossa nação tenha então decretado sua ruína, pois que, se Ele nos tivesse então sido favorável ou menos irritado contra nós, Ele jamais teria derramado o sangue de um número tão grande de pessoas e aquela santa cidade — onde Ele era adorado por peregrinos que vinham de todas as partes do mundo — teria sido destruída e reduzida a cinzas. Nós somos os únicos de todos os judeus que imaginamos poder conservar nossa liberdade e quisemos disso persuadir aos outros, como se não tivéssemos parte nas ofensas que atraíram a cólera de Deus e fôssemos nós os únicos inocentes. Mas vedes de que modo, para confundir nossa loucura, Ele nos oprime com males ainda mais extraordinários, que nossas esperanças ridículas e extravagantes. Pois, de que nos serviram a força desta praça, que a arte e a natureza pareciam ter tomado inexpugnável e a quantidade de armas e de todas as outras coisas necessárias para se sustentar um grande assédio? Podemos duvidar de que Deus não queira que pereçamos depois de termos visto o fogo que o vento levava contra nossos inimigos, voltar-se de repente contra nós, para queimar o muro em que estava toda nossa defesa? Esses sinais da cólera de Deus não podem ser atribuídos senão aos crimes horríveis que nós cometemos com tanto furor, contra os da nossa própria nação e como não poderemos deixar de ser castigados, não é melhor satisfazermos à justiça por uma morte voluntária, do que esperarmos que os romanos lhe sejam os executores, depois de nos terem vencido? Esse castigo que exercemos sobre nós mesmos será muito menor que o que nós merecemos porque morreremos com a consolação de termos livrado nossas esposas, da perda da honra, nossos filhos, de sua liberdade e, apesar de nossa má sorte, dado a nós mesmos uma sepultura honrosa, morrendo sob as ruínas de nossa pátria, antes que nos expormos a sofrer uma vergonhosa escravidão. Mas, a fim de que os romanos tenham o desprazer de achar apenas como despojos os nossos cadáveres, sou de opinião que queimemos o castelo, com tudo o que ele tem de preciosidades e dinheiro, conservando apenas os víveres, para lhes mostrarmos que não foi por necessidade, mas por generosidade que nós nos conservamos inquebrantáveis na resolução de preferir a morte à escravidão”.
Estas palavras de Eleazar não foram recebidas do mesmo modo pelos que as escutaram: uns, ficaram tão impressionados, que ardiam de desejo de terminar seus dias com uma morte que lhes parecia tão gloriosa. Mas outros, levados pela compaixão que sentiam de suas esposas e filhos, e deles mesmos, entreo-Ihavam-se e mostravam bem com suas lágrimas que não eram da mesma opinião. Eleazar, temendo que sua fraqueza viesse a diminuir a coragem dos que mostravam com tanta coragem aprovar suas idéias, retomou a palavra, com mais veemência ainda, para comovê-los, na consideração da imortalidade da alma; começou fixando com firmeza aqueles que choravam e disse: “Enganei-me, então, quando vos tomei por homens de coragem, que combatendo pela liberdade preferíeis morrer gloriosamente a viver com infâmia, pois que quando deveríeis, sem que ninguém a isso vos incitasse, vós mesmos tomar a iniciativa de vos livrardes de tantos males que vos são inevitáveis se vivêsseis mais, o temor que vos causa a morte mostra-me que nenhuma covardia é comparável à vossa. As Sagradas Escrituras, que são os mesmos oráculos de Deus, as lições que temos recebido, desde nossos primeiros anos, de nossos pais, seus exemplos, não nos ensinam que não é na vida, mas na morte, que consiste nossa felicidade, pois que ela põe nossas almas em liberdade e dá-lhes o meio de voltar àquela pátria celeste onde tiveram sua origem?
“Somente lá elas nada mais têm a temer, mas enquanto estiverem presas no cárcere deste corpo, podemos dizer que os males que Ele lhes comunica, torna-as mais mortas, que não vivas, pois não há proporção entre duas coisas, das quais uma é toda divina e outra, mortal. É verdade que enquanto a alma está no corpo, ela o faz mover-se invisivelmente e operar, por meio de ações que estão acima da sua natureza, que a faz sempre inclinar-se para a terra; mas apenas livre do peso, ela regressa ao seu ponto de origem, onde goza de uma feliz liberdade e de uma força sempre incorruptível em si mesma, produz no mesmo grandes mudanças. Assim, dá-lhes pleno vigor, que o anima; ele enlanguesce e morre logo que ela o abandona, sem que ela deixe de ser imortal. O sono é uma prova que basta para mostrar que a felicidade da alma está nela mesma, pois não estando, então, preocupada com o corpo, ela goza de um descanso mui agradável e tem mesmo conhecimento de várias coisas futuras, pela sua comunicação com Deus. Por que então amando o sono como o amamos, nós tememos a morte? E como, fazendo o caso que fazemos de uma vida tão breve, poderíamos sem loucura invejar a felicidade de possuir uma que é eterna? Devemos conhecer tão bem essas verdades que os outros aprendem de nós a desprezar a morte. Se fosse necessário procurarmos exemplos entre as nações estrangeiras, não vemos que entre os indianos os que fazem uma profissão particular de sabedoria e que vivem mui virtuosamente levam a vida com pesar, porque a consideram um fardo que a natureza os obriga a carregar e de que têm pressa em se desfazer, pela separação do corpo, de suas almas? Assim, embora gozem de plena saúde, o desejo de possuir uma imortalidade bem-aventurada fá-los despedir-se das pessoas mais caras, para passar desta vida a uma outra, sem que alguém lhes procure impedir. Todos, ao contrário, julgam-nos felizes e estão tão persuadidos de que a morte não quebrará o liame que os une, que eles lhes rogam dar suas notícias aos amigos que já passaram ao outro mundo. Então esses homens generosos, para purificar suas almas e separá-las do corpo, lançam-se no fogo, que eles mesmos fizeram preparar e sua morte é seguida de louvores de todos aqueles que as presenciam. Seus mais caros amigos os acompanham mais de boa mente nessa ação, que os outros homens acompanham os seus, quando eles vão partir para uma viagem demorada, e em vez de chorar, eles invejam-lhes a felicidade de ir gozar da imortalidade e só derramam lágrimas para lamentar a si mesmos. Que vergonha então para nós sermos inferiores em sabedoria aos indianos e calcarmos aos pés, por nossa fraqueza, as leis de nossos antepassados, que toda a terra venera. Mas, quando mesmo tivéssemos sido educados na crença de que a vida é um grande bem e que a morte é um grande mal, o estado em que nos encontramos reduzidos não nos obrigaria a no-la darmos generosamente, pois que a vontade de Deus e a necessidade a isso nos obrigam? Quem pode duvidar de que há muito tempo, Deus, para nos castigar, por termos feito um uso tão mau da vida, não resolveu dela nos privar e que assim, não é, nem às nossas forças, nem a clemência dos romanos que devemos não termos morrido nessa guerra? Uma causa superior ao poder desses conquistadores lhes deu sobre nós as vantagens que os fazem parecer vitoriosos. Quando os judeus que moravam em Cesaréia e que não somente não haviam tido o pensamento de se revoltar, foram mortos, com suas esposas e filhos, sem se defender quando se ocupavam unicamente em celebrar o sábado, foram talvez os romanos que os massacraram, tão cruelmente, eles, que nos trataram como inimigos somente depois que tomamos as armas? Se dissermos que os habitantes de Cesaréia foram obrigados a degolar os judeus, pelo antigo ódio que lhes votavam, que diremos dos de Citópolis, que poupando aos romanos, não temem fazer-nos guerra, para agradar aos gregos e assassinando os nossos, com todas as suas famílias, assim nos recompensaram o auxílio que lhes havíamos dado e nos fizeram sofrer o que nós mesmos havíamos impedido que eles sofressem? Eu seria demasiado longo se quisesse referir todos os exemplo semelhantes. Não sabeis que não há uma só cidade da Síria que nos não tenha tratado do mesmo modo e que não nos odeie ainda mais do que os romanos? Os de Damasco, sem poder alegar pretexto algum, não mataram dezoito mil dos nossos, com suas mulheres e filhos e não se nos garante que mais de sessenta mil foram de diferentes maneiras torturados no Egito? A isto, se se responder que foi, porque eles não puderam num país estrangeiro encontrar auxílio algum, contra seus perseguidores, que diremos dos nossos que fizeram guerra aos romanos, no nosso próprio país? Que nos faltava para esperarmos vencê-los? Não tínhamos armas, cidades mui fortificadas, castelos e fortalezas, que pareciam inexpugnáveis, uma resolução decidida de não temer perigo algum, para conservarmos nossa liberdade e enfim, tudo o que nos podia pôr em condições de resistir? Mas, durante quanto tempo isso nos valeu? Aquelas praças, nas quais depositávamos nossa principal confiança, não foram todas elas tomadas e em vez de servir de refúgio seguro para aqueles que tanto tinham trabalhado em construí-las e fortificá-las, não parece que o foram apenas para tornar a vitória dos romanos ainda mais brilhante? Não devemos então julgar felizes os que morreram com armas na mão combatendo generosamente pela liberdade de sua pátria e não podemos, ao contrário, lastimar bastante o grande número daqueles que são escravos dos romanos? Quanto à morte, deveria parecer-lhes suave, para evitar, dando-a a si mesmos, os horríveis males que eles sofrem? Uns morrem sob os golpes, outros, depois de terem experimentado toda espécie de tormentos, terminam a vida no fogo, outros, semidevorados pelas feras, são reservados para servir outra vez de alimento a esses cruéis animais e os mais infelizes, de todos, são os que vivem ainda, sem poder encontrar a morte que tão ardentemente desejam a cada instante. Que foi feito daquela poderosa cidade, a soberba capital da nossa nação, que tantos muros, tantas torres, tantas fortalezas pareciam tornar inexpugnável, que mal podia conter todas as munições de guerra e de boca necessárias para se sustentar um grande assédio, e que era defendida por uma multidão incrível de homens, onde se pensava que Deus mesmo se dignava habitar? Não foi ela destruída até os alicerces e não lhe restam somente ruínas, sobre as quais os vencedores ergueram seus acampamentos? Que resta também daquele grande povo? Apenas alguns míseros anciãos que regam com suas lágrimas as cinzas do santo Templo, que era antigamente nossa principal felicidade e nossa maior glória, e algumas mulheres, que os vencedores reservam para fazê-las sofrer ultrajes mil vezes piores do que a mesma morte? Quem poderia imaginando tão horríveis misérias querer ainda ver a luz do sol, quando mesmo lhe fosse garantido poder viver sem nada mais ter a temer? Ou melhor, quem pode ser tão inimigo de sua pátria e tão fraco em não considerar como um grande mal e uma grande desgraça estar ainda vivo, e não invejar a felicidade daqueles que morreram antes de ter visto essa santa cidade destruída completamente e nosso sagrado Templo inteiramente destruído pelo fogo sacrílego? Se a esperança de podermos, resistindo corajosamente, vingarmo-nos de algum modo de nossos inimigos, nos sustentou até agora, neste instante, em que essa esperança desvaneceu-se, que esperamos para correr ao encontro da morte, todos, quando ainda está em nosso poder dá-la também às nossas mulheres e filhos, pois seria a maior graça que nós lhes poderíamos fazer; nascemos para morrer, é uma lei indispensável da natureza à qual os homens mais robustos e felizes estão também sujeitos. Mas a natureza não nos obriga a suportar os ultrajes e a servidão e a ver por vossa covardia, arrebatar às vossas esposas a honra, e aos vossos filhos, a liberdade, quando está em nosso poder tudo assegurar-lhes pela morte. Depois de ter tão generosamente tomado as armas contra os romanos e desprezado as ofertas que eles nos fizeram, de nos salvarmos, se quiséssemos nos submeter a eles, que tratamento devemos esperar de seu ressentimento, se viermos a cair vivos em suas mãos? A força e o vigor dos nossos mais robustos só serviriam para nos tornar mais capazes ainda de sofrer por mais tempo os maiores tormentos; os que são mais idosos, não seria menos de se lamentar porque teriam mais dificuldade em suportá-los; nós veríamos levarem-se nossas esposas a uma infeliz escravidão e ouviríamos nossos filhos, com cadeias aos pés, implorando em vão o nosso auxílio. Mas enquanto temos ainda agora pleno e livre uso de nossos braços e de nossas espadas, que nos impede, livrarmo-nos da escravidão? Morramos com as pessoas que nos são mais caras, antes que vivermos escravos. Elas no-lo pedem nossas leis no-lo ordenam, Deus no-lo impõe, e os romanos nada temem mais do que isso. Apressemo-nos então em fazê-los perder a esperança de triunfar sobre nós e o espanto de apenas poder desencadear a sua raiva sobre cadáveres force-os a admirar a nossa generosidade.”
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