Capítulo 3 – Os que escreveram sobre a guerra dos judeus contra os romanos não tinham nenhum conhecimento dela, por si mesmos, e nada se pode acrescentar ao que Josefo escreveu sobre esse mesmo assunto, nem ao seu cuidado de nada referir contra a verdade.
Quanto a esta última guerra, que nos foi tão funesta, não é estranho que alguns, tendo-a escrito ante à relação de certas coisas, que lhes foram reveladas, sem ter jamais visto os lugares onde ela se travou, nem mesmo deles se aproximaram, tiveram, entretanto, a ousadia de querer passar por historiadores? Não se pode dizer o mesmo de mim. Tudo o que escrevi é segundo a verdade; eu estive presente a tudo; eu combati com o exército sob meu comando, na Galiléia, durante todo o tempo em que ela estava em condições de resistir e quando foi tomada pelos romanos, Vespasiano e Tito conservaram-me prisioneiro, fizeram-me ver todas as coisas, embora no começo eu ainda estivesse preso, como escravo, e quando me tiraram as cadeias fui mandado com Tito para sitiar Jerusalém. Nada se fez durante esse tempo que eu não viesse a conhecer; eu via e considerava com extremo cuidado tudo o que se passava no exército romano; escrevi muito exatamente e indagava até mesmo dos menores particulares, sobre o que se fazia em Jerusalém, daqueles que se vinham entregar como prisioneiros. Assim, tendo o material para minha história, trabalhei em escrevê-la, com o auxílio de alguns meus amigos, com relação ao que se referia à língua grega e tenho tanta certeza de só ter relatado a verdade, que não tenho receio de tomar como testemunhas do que eu escrevi ao mesmo Vespasiano e a Tito, que tinham o supremo comando dessa guerra. Eles foram os primeiros aos quais mostrei meu trabalho; mostrei-o depois a vários outros romanos, que haviam combatido sob suas ordens e depois que o publiquei, vários de nossa nação que conheciam a língua grega viram-no também, particularmente Júlio Arquelau, Herodes, tão recomendável por sua virtude, e mesmo o rei Agripa, esse excelente príncipe. Todos eles testemunharam o cuidado que eu tive de relatar fielmente a verdade; o que eles não teriam o cuidado de fazer, se eu a ela tivesse faltado por negligência ou por ignorância ou por bajulação. Alguns, entretanto, tiveram a malícia de me censurar, por observações tão ridículas como se fossem crianças de escola. Eles devem saber que para se escrever fielmente uma história é necessário saber, com certeza, por si mesmo, as coisas que se relatam, ou tê-las sabido daqueles que delas tiveram um perfeito conhecimento. Foi o que fiz em minha obra, pois hauri dos livros santos o que eu disse sobre a antigüidade, como sendo de família sacerdotal e educado nessa santa ciência. Quanto a esta última guerra, tomei parte em grande número dos fatos que refiro; a muitas presenciarei com meus próprios olhos e nada disse a esse respeito, de que não tivesse plena certeza. Poder-se-iam, então, considerar como impostores aqueles que me acusam de não ser verídico, e que ainda que eles se gloriem de ter visto os comentários de Vespasiano e de Tito, não tiveram conhecimento algum do que se passou do lado dos judeus, que sustentaram essa guerra?
Sinto-me obrigado a fazer esta digressão para mostrar quais os conhecimentos que devem ter os que tomam a deliberação de escrever uma história, e penso ter feito ver claramente que os de nossa nação são mais capazes que os bárbaros e que os gregos, de escrever coisas cuja memória está tão longe de nosso século.
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