Capítulo 2 – Os egípcios e os babilônios em todos os tempos sempre foram muito cuidadosos em escrever a história. Nenhum outro povo jamais o fez com tanta exatidão e verdade como os judeus.
Como ninguém duvida de que os egípcios e os babilônios não tenham, em todos os tempos, tido grande cuidado em escrever as suas crônicas, os primeiros dos quais davam esse encargo aos sacerdotes, que o cumpriam com muita competência e dignamente; os caldeus faziam o mesmo, entre os babilônios; os fenícios misturando-se com os gregos ensinaram-lhes as letras, deram-lhes regras para seu proceder e ensinaram-lhes também a registrar seus atos em arquivos públicos; disso, porém, nada direi aqui; contentar-me-ei em mostrar brevemente que nossos antepassados tiveram o mesmo cuidado, e talvez, ainda maior: encarregaram os sumos sacerdotes e os profetas de fazê-lo e isso continuou com a mesma exatidão até os nossos tempos e continuará sempre, como eu espero, porque não se escolhem somente, para esse fim, homens de grande virtude e piedade, mas, a fim de que a descendência dessas pessoas consagradas ao serviço de Deus permaneça sempre pura, ela não se mistura com as outras. Assim, aqueles que exercem o sacerdócio não se podem casar, senão com mulheres de sua mesma tribo, e sem considerar outros bens nem vantagens materiais e temporais, é preciso ter uma prova, constante, de diversas testemunhas, de que elas são descendentes de uma dessas antigas famílias da tribo de Levi; essa ordem é observada não somente na Judéia, mas também em todos os lugares onde a nossa nação está espalhada, como no Egito, em Babilônia e em todos os outros lugares. Eles mandam a Jerusalém o nome do pai daquela que eles querem desposar, com um relato de sua genealogia, garantida por testemunhas. Se sobrevier alguma guerra, como já aconteceu várias vezes no tempo de Antíoco Epifânio, de Pompeu, o Grande, de Qualio Varo, e particularmente em nosso tempo, os sacerdotes fazem nos antigos registros novos registros de todas as mulheres da família sacerdotal, que ainda restam e não se desposam as que já foram escravas, de receio de que já tenham tido alguma relação com estrangeiros. Pode haver algo de mais exato para isentar as raças de toda mistura, pois que nossos sacerdotes podem por argumentos tão autênticos provar a sua descendência de pais e filhos, há dois mil anos? Se alguém deixar de observar essa ordem, será afastado do altar e não lhe será permitido jamais exercer alguma das funções sacerdotais. Não pode haver, de resto, nada de mais certo do que os escritores autorizados entre nós, pios que eles não poderiam estar sujeitos a controvérsia alguma, porque só se aprova o que os profetas escreveram há vários séculos, segundo a verdade pura, por inspiração e por movimento do Espírito de Deus. Não temos, pois, receio de ver entre nós um grande número de livros que se contradizem. Temos somente vinte e dois que compreendem tudo o que se passou, e que se referem a nós, desde o começo do mundo até agora, e aos quais somos obrigados a prestar fé. Cinco são de Moisés, que refere tudo o que aconteceu até sua morte, durante perto de três mil anos e a seqüência dos descendentes de Adão. Os profetas que sucederam a esse admirável legislador escreveram, em treze outros livros, tudo o que se passou depois de sua morte até o reinado de Artaxerxes, filho de Xerxes, rei dos persas, e os quatro outros livros contêm hinos e cânticos feitos em louvor de Deus e preceitos para os costumes. Escreveu-se também tudo o que se passou desde Artaxerxes até os nossos dias, mas como não se teve, como antes, uma seqüência de profetas não se lhes dá o mesmo crédito, que aos outros livros, de que acabo de falar e pelos quais temos tal respeito, que ninguém jamais foi tão atrevido para tentar tirar ou acrescentar, ou mesmo modificar-lhes a mínima coisa. Nós os consideramos como divinos, chamamo-los assim; fazemos profissão de observá-los inviolavelmente e morrer com alegria, se for necessário, para prová-lo. Foi isso que fez morrer um tão grande número de escravos de nossa nação em espetáculos dados ao povo, tantos tormentos e tantas mortes diferentes, sem que jamais se pudesse arrancar de sua boca uma única palavra contra o respeito devido às nossas leis e às tradições de nossos antepassados. Qual dos gregos jamais fez algo de semelhante? Eles, que não sofreriam a mínima coisa para sustentar todos os seus livros, porque sabem que são apenas palavras nascidas do capricho dos que as escreveram; como poderiam julgar de outro modo de seus antigos autores, quando eles vêem que os novos escreveram ousadamente sobre coisas que não viram ou apenas souberam-nas daqueles que as viram?
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