Capítulo 2 – Martírio do santo sumo sacerdote Eleazar.

Para executar esse desígnio tão tirânico, o cruel príncipe subiu a um lugar elevado, acompanhado pelos mais importantes da sua corte e por todos os soldados, com armas. Em seguida, mandou reunir os judeus e ordenou-lhes que comessem a carne dos porcos que ele tinha imolado aos seus ídolos, em sacrifíci­os abomináveis, sob pena de morte nas rodas, caso recusassem a obedecer-lhe. Eleazar foi um dos que se lhe apresentaram. Ele era de família sacerdotal, muito instruído nas nossas leis e nos nossos costumes, venerável por sua idade e conhe­cido de todos por suas virtudes. Antíoco, depois de o ter observado, disse-lhe: “Não espereis que os tormentos vos obriguem a fazer o que eu ordeno, mas procureis salvar a vossa vida, obedecendo-me. A compaixão que tenho de vossa idade, vendo que ainda não estais desiludido de vossa falsa religião, faz-me dar-vos este conselho. Poder-se-á sem extravagância sentir horror por uma carne que é muito boa e não desprezar somente por uma ridícula superstição o favor que a natureza vos faz de vo-la dar, mas desprezar a mim e correr assim volunta­riamente ao suplício?

“Desiludi-vos dessa vã sabedoria, obedecei ao que eu vos ordeno e dai-me assim o meio de vos fazer sentir os efeitos de minha bondade. Quando mesmo com isso viésseis a desobedecer a vossa lei, ela vo-lo perdoará, se é tão justa como a julgais, pois que não o fazeis voluntariamente, mas à força”.

Antíoco assim falou e permitiu a Eleazar que lhe respondesse deste modo: “Estando certo, majestade, como eu estou da veracidade de minha religião, não há violência nem tormento que me levem a fazer algo que lhe seja contrário. Vós estais persuadido de que ela está cheia de erros e eu creio firmemente no contrá­rio, isto é, que ela é santa e divina. Como ser-me-ia então permitido renunciar a ela? Vossa majestade não deve imaginar que é pecado leve comer carnes que entre nós são consideradas como impuras. Não devemos fazer distinção entre coisas pequenas e grandes quando são proibidas, pois é desprezar igualmente a lei, não observá-la tanto numa como nas outras. Vós considerais uma loucura a sabedoria que temos em tão grande estima: é ela que nos ensina a abraçar a temperança, a amar a justiça, a desprezar a voluptuosidade e a vencer de tal modo as nossas paixões por uma generosa resolução de agradar a Deus, que não há tormento que não soframos com alegria para demonstrar-lhe a fidelidade que lhe devemos, como único Deus, Eterno e Todo-poderoso. Como então podería­mos comer carnes que nós cremos impuras, porque Ele nos proibiu, e sua vonta­de, sendo nossa lei suprema, não devemos considerar os sentimentos da nature­za, quando lhe são opostos? Ele nos permite comer o que sabe que nos é pró­prio, proíbe-nos comer o que sabe nos ser prejudicial, e não se pode, sem exercer sobre nós uma injusta violência, obrigar-nos a desobedecer-lhe. Censurai, pois, majestade, o meu proceder quanto quiserdes; eu não deixarei de observar as leis dadas por Deus a nossos antepassados e a conservar inviolavelmente o nosso juramento. Quando me arrancásseis os olhos, quando me rasgásseis as entranhas, minha velhice não impedirá que, para cumprir o que eu devo a Deus, encontreis em mim todo o entusiasmo da mais corajosa e da mais vigorosa ju­ventude. Preparai, pois, corajosamente as rodas, acendei os fogos e vereis se minha idade é capaz de algo fazer de contrário ao que nossos pais tão religiosa­mente observaram. Santas leis, de onde tirei a minha instrução, jamais eu vos hei de desobedecer. Cara continência, que tornais pura a minha alma e meu corpo, casto, jamais hei de renunciar a vós. Sábia resolução que fortificais meu coração, jamais me envergonharei de vos haver tomado. Veneravel sacrificadura, que dais a compreensão da lei, jamais deixarei de vos homenagear e reunir-me-ei aos meus antepassados no céu, porque desprezarei até à morte todos os tormentos com que me querem atemorizar”.

Depois que Eleazar respondeu deste modo, Antíoco fez seus guardas despoja­rem-no de suas vestes, atacarem-no e vergastá-lo até fazer sangue; um arauto clamava ao mesmo tempo que ele obedecesse ao rei. Embora, porém, seu san­gue corresse de todos os lados e seus ossos estivessem a descoberto, nada foi capaz de quebrar a sua constância e firmeza e ele estava tão tranqüilo como se dormisse profundo sono. Ele somente levantava os olhos para o céu; seu corpo não podia mais resistir à violência de tantas dores; caiu então por terra, sem que sua alma se abatesse. Um daqueles cruéis soldados pisou-lhe o ventre, para obrigá-lo a se levantar, mas o santo velho, desprezando tudo o que lhe podiam fazer sofrer, venceu pela sua constância a crueldade daqueles ímpios e os obrigou a admirar-lhe a resolução e coragem.

Sua velhice causou compaixão aos que acompanhavam o rei e alguns grita­ram-lhe: “Que imprudência vos leva, Eleazar, a sofrer tantos tormentos, quando poderíeis evitá-los? Só tendes, para vos salvardes, que comer a carne que vos é apresentada”. Então esse verdadeiro servo de Deus, que se havia calado nas maiores dores, disse: “Eu seria muito indigno de ser descendente de Abraão, se quisesse seguir tão mau conselho, como o que vós me dais. Não seria loucura ter vivido até agora no amor da verdade e ter posto toda a minha glória em observar nossas santas leis, para abandoná-las na velhice, comendo de uma iguaria que eu não poderia saborear, sem cometer um sacrilégio? Deus me livre de comprar com um tão grande crime a prolongação desse pouco de tempo que me resta de vida e de me expor, com essa covardia, à zombaria de todo o mundo”.

Depois de terem feito tudo para persuadir ao bom velho, viram que sua cons­tância era invencível; atiraram-no ao fogo, aproximando-lhe do nariz os cheiros mais nauseabundos. Quando o fogo o queimou até os ossos, e ele estava prestes a exalar o último suspiro, ainda dirigiu a Deus uma oração nestes termos: “Se­nhor, em quem ponho todas as minhas esperanças e toda a minha salvação, e que vedes o que eu sofro, vós sabeis que eu padeço tantos tormentos unicamen­te para não desobedecer à vossa santa lei. Tende compaixão do vosso povo, contentai-vos de satisfazer sobre mim a vossa justiça, purificai-o por meu sangue e salvei a vida a todos os outros, tomando a minha”. Terminando esta oração, ele morreu e mostrou como tudo o que dissemos é verdadeiro, isto é, que a razão domina as paixões, pois se fosse por elas vencida, com esse generoso ancião teria podido decidir-se a sofrer tantos tormentos? Devemos, pois, confessar que é a razão que nos torna capazes de desprezar as dores e de triunfar sobre a voluptuosidade.

No meio da tempestade que as ameaças do tirano e a crueldade de tantos e tão diversos suplícios excitaram nos sentidos desse admirável mártir, sua razão, como um excelente piloto, conservou sempre tão firmemente o leme, que o furor dos ventos e das vagas não puderam afastá-lo da verdadeira rota e ele levou, com rara felicidade, seu barco ao porto de uma vida gloriosa e imortal. Essa mesma força invencível da razão pode-se ainda comparar a uma fortaleza, cuja resistência vence todos os esforços e todas as máquinas, que o furor de um grande rei empregou inutilmente para delas se apoderar. Oh! bem-aventurado ancião, verdadeiramente digno de honra do sacerdócio, não manchastes vossos lábios com essas carnes abomináveis de que não se poderia comer sem impieda-de. Oh! verdadeiro observante da lei! Oh! espírito cheio daquela sabedoria celes­te, que só se conquista pela meditação contínua da Palavra de Deus, é assim que aqueles que são chamados ao ministério do altar devem, derramando seu san­gue, dar testemunho da própria fé; é assim que eles devem combater até a mor­te, para defendê-la. Vós nos ensinais, por vossa constância, a tudo sofrer para merecer a mesma glória. Nada foi capaz de abalar vossa santidade e confirmais com vossas ações a verdade das palavras que vos inspirava uma sabedoria toda divina. Ilustre ancião, vós vos colocastes acima dos tormentos mais temíveis, o fogo, assaz poderoso como é, foi obrigado a vos ceder. Do mesmo modo que Aarão, correndo com o turíbulo na mão, deteve o anjo que estava prestes a exterminar todo o povo, assim, esse digno sucessor desse soberano sumo sacer­dote, ainda que estivesse no meio das chamas, não mudou de sentimentos; sua velhice nada diminuiu de sua energia e tendo seu corpo já destruído, os nervos descobertos, ele elevou-se com o pensamento à pátria celeste. Oh! velhice, como sois ilustre! Oh! cabelos brancos, como sois venerados! Oh! vida, passada toda numa fiel observância da lei do Senhor, como sois feliz de ter até o último suspiro tão generosamente desprezado todos os males da terra e mostrado com vossa morte a pureza de vossa fé.

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