Capítulo 36 – Os judeus que moravam em Alexandria, vendo que os sicários cada vez mais consolidavam a sua posição na revolta, entregam aos romanos os que se haviam refugiado naquele país, para evitar que eles fossem causa de sua ruína. Incrível constância com que os dessa seita sofrem os maiores tormentos. Fecha-se por ordem de Vespasiano o templo construído por Onias no Egito, e não se permite mais aos judeus lá ir adorar a Deus.

Depois da queda de Massada, Silva deixou uma guarnição e retirou-se para Cesaréia porque não havia mais inimigos em todo o país. Mas os judeus que moravam na Judéia não foram os únicos oprimidos por sua ruína; os que estavam espalhados pelas províncias afastadas ressentiram-se também de todos os seus efeitos, e vários dos que se haviam estabelecido nos arredores da cidade de Alexandria, no Egito, foram massacrados; creio dever dizer qual a causa disso.

Os do partido dos sicários que escaparam para aquela parte do país, não se contentaram de lá ficar em segurança, mas conservando sempre o mesmo espírito de revolta, para se manterem em liberdade, diziam que os romanos não eram mais valentes do que eles e que só reconheciam a Deus por Senhor. Os mais ilustres dos judeus não eram da sua opinião e eles, então, mataram a vários destes e esforçaram-se por persuadir os outros a se revoltarem. Os mais importantes da nossa nação, fiéis aos romanos, vendo sua obstinação, e que não poderiam sem grave perigo atacá-los abertamente, reuniram os outros judeus, disseram-lhes até onde ia a loucura e o furor daqueles sediciosos, que eram a causa de todos os seus males e que se eles se contentassem de obrigá-los a fugir, não ficariam nem por isso em segurança, porque os romanos não teriam sabido de seus perversos intentos e vingar-se-iam sobre eles, fazendo morrer os inocentes com os culpados. E assim o único meio de prover à sua salvação era entregá-los aos romanos, para que os castigassem conforme mereciam.

A grandeza do perigo persuadiu toda a assembléia a aceitar este conselho; atiraram-se sobre os sicários e prenderam uns seiscentos. Os demais fugiram para Tebas e para os lugares do Egito, onde foram também presos e trazidos para Alexandria. Não poderíamos ver, sem espanto, sua incrível firmeza, à qual não sei se deva chamar de loucura ou de fortaleza de alma, ou mesmo de furor; pois, no meio dos tormentos mais horríveis que se pode imaginar, não foi possível convencer a um só deles a dar ao imperador o nome de senhor. Todos permaneceram inflexíveis na sua determinação de recusá-lo; suas almas pareciam insensíveis à dor que os corpos sofriam e eles pareciam sentir prazer em ver o ferro fazê-los em pedaços e o fogo, consumi-los. Mas nesse horrível espetáculo nada era mais extra­ordinário do que a obstinação incrível das crianças, em recusar-se a dar ao impera­dor o nome de senhor, tanto a impressão que as máximas de tão fanática seita tinham feito em seu espírito, as elevava acima da fraqueza de sua idade.

Lupo, que então era governador de Alexandria, avisou imediatamente o imperador, dessa perturbação entre os judeus; o soberano considerando como o povo era inclinado à revolta e o motivo que tinha de temer, que eles se reunissem sempre mais e que outros a eles se juntassem, ordenou a esse governador que des­truísse o templo que eles tinham na cidade de Oniom, que começara a ser construído e que assim fora denominado pelo motivo que passo a expor: Onias, filho de Simão, um dos sumo sacerdotes, fugira de Jerusalém, quando Antíoco, rei da Síria, fazia guerra aos judeus e retirou-se para Alexandria. Ptolomeu, que então reinava no Egito, recebeu-o mui favoravelmente, pelo ódio que tinha de Antíoco, e com promessa de Onias de atrair os de sua nação ao seu partido, se ele lhes concedesse um favor, o príncipe prometeu-lho, se fosse algo que ele pudesse cumprir. Onias então pediu-lhe que lhe permitisse construir um templo no seu reino, onde os judeus pudessem servir a Deus, segundo os preceitos de sua religião e garantiu-lhe, que aquela graça os teria presos ao seu serviço, aumentaria ainda o ódio que eles tinham de Antíoco, porque ele tinha destruído o templo de Jerusalém e faria várias deles passar para o Egito, a fim de gozar da liberdade de viver segundo suas leis. Ptolomeu aprovou essa proposta e deu-lhe um terreno na região de Heliópolis, a cento e oitenta estádi­os de Mênfis. Onias mandou construir um templo e um castelo, que não era seme­lhante ao de Jerusalém, mas tinha uma torre parecida, cuja altura era de sessenta côvados e tinha sido construída com pedras enormes. Lá mandou fazer também um altar à imitação do de Jerusalém, colocou ornamentos semelhantes, exceto o grande candelabro, no lugar do qual havia uma lâmpada de ouro que brilhava como uma luz, inferior à estrela da manhã e estava pendurada a uma corrente. As portas desse templo eram de pedra e a torre de tijolos. Obteve também da liberalidade do sobe­rano uma grande quantidade de terras e uma renda em dinheiro, a fim de que os sacerdotes pudessem prover às despesas necessárias ao culto de Deus. Onias não resolveu tentar esse empreendimento, pelo afeto aos mais ilustres dos judeus, que moravam em Jerusalém, contra os quais, ao contrário, a lembrança de sua fuga o animava; mas seu fim era levar o povo a abandoná-los para vir para junto dele e havia mais de seiscentos anos que o profeta Isaías tinha predito que aquele templo construído no Egito, por um judeu, seria destruído.

Logo depois da ordem recebida do imperador o governador foi ao templo, tirou-lhe uma parte dos ornamentos e mandou fechá-lo. Depois de sua morte Paulino, seu sucessor no governo, obrigou os sacerdotes com graves ameaças a entregar-lhe todos os ornamentos que existiam, tomou-os, mandou fechar o Templo, e proibiu a quem quer que fosse lá ir adorar a Deus; aboliu assim até os menores sinais do culto divino. Fazia então trezentos e quarenta e três anos que aquele Templo tinha sido construído.

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