Capítulo 1 – A arca da aliança causa tão grandes males aos filisteus que eles são obrigados a restituí-la.

7 Samuel 5. Os filisteus, como vimos, tendo vencido os israelitas e tomado a arca da aliança, levaram-na como troféu à cidade de Asdode e a colocaram no Templo de Dagom, seu deus, com os outros despojos que lhe ofereceram. No dia seguinte, pela manhã, quando vieram prestar as suas ho­menagens a essa falsa divindade, viram com desprazer não menor que a sua admiração a estátua caída de cima do pedestal que a sustentava. Ela estava no chão, diante da arca. Recolocaram-na em seu lugar, e a mesma coisa aconte­ceu diversas vezes: eles sempre encontravam a estátua aos pés da arca, como se estivesse prostrada para adorá-la.

Deus, porém, não se contentou em vê-los apenas confusos e aflitos: man­dou à cidade e a toda a região disenteria tão cruel que as vísceras lhes pareci­am roídas, e eles morriam com dores insuportáveis. E todo o país, ao mesmo tempo, foi assolado por ratos, que tudo estragavam e não poupavam nem o trigo nem os outros frutos. Os habitantes de Asdode, vendo-se reduzidos a tal miséria, imaginaram que fora a arca que tornara aquela vitória tão funesta. Assim, para livrar-se dela, rogaram aos de Asquelom que permitissem enviá-la para a sua cidade.

Eles concordaram de boa vontade, porém, mal ela chegou, o povo também foi atingido por idênticos males, pois a arca levava consigo a toda parte a maldi­ção de Deus contra os que não eram dignos de recebê-la. Os ascalonitas, para se livrar de tanta calamidade, mandaram-na a outra cidade, mas lá igualmente não ficou, porque causou-lhe os mesmos males que às outras. Passou assim por cinco cidades da Palestina e exigiu de cada uma delas, como uma espécie de tributo, o castigo que merecia o sacrilégio de se conservar coisa consagrada a Deus.

1 Samuel 6. O exemplo desse povo cansado de sofrer fazia com que também outros temessem os mesmos castigos. Deliberaram então, como melhor conse­lho, que o mais sensato seria desfazer-se da arca, e os principais das cidades de Gate, Acarom, Asquelom, Gaza e Asdode reuniram-se para resolver o que deve­riam fazer.

Uns propuseram restituí-la aos israelitas, pois Deus, para mostrar a sua cólera por se terem apoderado dela e também para vingar-se, castigava com muitos flagelos os que a recebiam em suas cidades. Outros foram de parecer contrário, dizendo que não se deviam atribuir aqueles males à tomada da arca, pois, se ela possuísse tão grande virtude ou fosse tão querida por Deus, Ele não a teria deixado cair nas mãos deles, que eram de religião diferente. Era necessário, isto sim, suportar aqueles sofrimentos com paciência e atri­buí-los unicamente à natureza, que na revolução dos tempos produz mudan­ças nos corpos, na terra, nas plantas e em todas as coisas sobre as quais o seu poder se estende.

Outros, porém, mais prudentes e hábeis, propuseram um terceiro alvitre: não restituiriam nem conservariam a arca, mas ofereceriam a Deus, em nome das cinco cidades, cinco estátuas de ouro, para agradecer-lhe o favor de tê-los livrado daquela espantosa doença que os remédios humanos tinham sido incapazes de curar, e também outros tantos ratos, também de ouro, seme­lhantes aos que haviam devastado o país. Seria tudo colocado numa caixa, e a caixa, na arca. Esta, por sua vez, seria posta num carro novo. Feito isso, atrelar-se-iam ao carro duas vacas veladas, cujos bezerros seriam presos, a fim de não as retardarem, e a impaciência que elas sentiriam para encontrá-los as obrigaria a andar.

Depois de as atrelar ao carro, levá-las-iam a uma estrada, onde seriam deixa­das em plena liberdade, para seguir o caminho que quisessem. Se escolhessem o que leva aos israelitas, ter-se-ia motivo para crer que a arca fora a causa de todos os males, mas se tomassem outro, era porque não havia nela virtude alguma. Todos aprovaram essa proposta e executaram-na imediatamente. Preparadas todas as coisas, colocaram o carro, com as vacas atreladas do modo mencionado, no meio de um caminho.

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