Capítulo 3 – Resposta ao que Ápio quer insinuar de que a diversidade de religião foi causa das sedições acontecidas em Alexandria; censura ele os judeus por não terem, como os outros povos, estátuas e figuras dos seus imperadores.

Apio quer também fazer crer que essa diversidade de religião entre nós e os antigos habitantes de Alexandria tenha sido a causa das rebeliões que lá se suce­deram. Mas se isso fosse verdade, teriam acontecido também outras semelhan­tes em todos os outros lugares onde os judeus estão estabelecidos, pois que todos estão de acordo em que têm os mesmos sentimentos e idéias na fé e que se quisermos fazer uma indagação exata dos autores das sedições que acontece­ram em Alexandria, veremos que não foram promovidas por judeus, mas por cidadãos, como Ápio. Enquanto havia naquela cidade somente gregos e macedônios não surgiram sedições; eles não se rebelaram contra nós e não nos perturbaram, no exercício da nossa religião. Mas a confusão dos tempos lá intro­duziu um grande número de egípcios e começaram as perturbações, sem que se possa dar disso a culpa aos judeus que não mudaram de crença nem de proce­der. É, portanto, a esses egípcios, que não têm nem a firmeza dos macedônios, nem a prudência dos gregos, mas, cujos costumes são corrompidos e que nos odeiam há muito tempo, que devemos atribuir essas funestas divisões: é sobre eles que deve cair a censura que Ápio nos faz, quando nos chama de estrangei­ros, embora gozemos com justo título do direito de burguesia, em Alexandria, ao passo que vários dentre eles não o obtiveram a não ser por fraude, pois não parece que rei algum ou imperador lhos tenha concedido. Mas o mesmo Alexan­dre, o Grande, no-lo deu: os reis do Egito, seus sucessores, no-lo confirmaram e os romanos no-lo mantiveram.

Ápio toma também motivo de nos censurar por não termos estátuas e figu­ras dos imperadores, como se esses príncipes pudessem ignorá-lo e tivessem necessidade de ser avisados disso. Não deveria ele, ao invés, admirar sua bon­dade e sua moderação, em não querer obrigar os que lhes são sujeitos a violar as leis de seus antepassados, mas contentar-se de receber deles as honras que julgam lhes poder prestar em consciência, porque eles sabem que são verda­deiras aquelas que são voluntárias? Há motivo de nos admirarmos de que os gregos e os outros povos que guardam com prazer as imagens de seus paren­tes e mesmo das pessoas que não lhes têm parentesco algum e de seus servido­res prestem essa homenagem aos seus príncipes? Quando Moisés, nosso admi­rável legislador, proibiu fazer estátuas não somente de animais, mas mesmo de coisas inanimadas, sem ter podido então ter em vista o Império Romano, ele visava não permitir que se fizessem estátuas do próprio Deus, que é puro Espí­rito, porque ele sabia o mal que daí poderia advir: mas não proibiu que se prestassem outras honras aos que depois de Deus merecem recebê-las como nós as prestamos aos imperadores e ao povo romano. Por isso é que não se passa um só dia sem que não ofereçamos sacrifícios por eles, às custas do povo, o que nós fazemos somente por eles.

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