Capítulo 2 – Resposta ao que Ápio diz em desabono dos judeus com relação à cidade de Alexandria, como também ao que ele diz, fazendo crer que de lá é originário e ao que ele afirma para justificar a rainha Cleópatra.
Vejamos agora os erros insuportáveis que os de Alexandria atribuem aos judeus. “Quando — diz Ápio — os judeus vieram da Síria, eles se estabeleceram ao longo da orla marítima num lugar sem portos e batido pelas ondas.” Não faz ele, falando desse modo, uma grave injustiça a essa cidade, que ele falsamente diz ser sua pátria, pois que todos sabem que ela está situada à beira-mar e sua posição é muito cômoda? Se os judeus a ocuparam pela força, sem ter podido depois de lá ser expulsos, isso é uma prova de seu valor. Mas na verdade é que Alexandre, o Grande, ali os instalou e quis que eles gozassem das mesmas honras que os macedônios. Que teria então dito Ápio, se em vez de se ter estabelecido nessa cidade real tivessem eles sido postos em Necrópolis e se não os chamássemos ainda hoje de macedônios? Ou ele leu sobre isso nas cartas de Alexandre, o Grande, de Ptolomeu Lago e dos reis do Egito, seus sucessores, e o que o grande César fez gravar em Alexandria sobre uma coluna, para conservar a memória dos privilégios que ele concedeu aos judeus; nesse caso não se pode sem negra malícia ter escrito o contrário. Ou se ele não o viu, é preciso eu confesse que jamais houve tão grande ignorância do que a dele, se não há outra menor, em se dizer que ele se admira de que os judeus tomem o nome dos seus antigos habitantes, embora sejam diferentes deles em muitas coisas? Que exemplo não poderia eu alegar sobre isso? Não se chama de antioquenses os judeus que moram em Antioquia, porque o rei Seleuco lhes deu direito de burguesia? Não se chamam efésios os que moram em Efeso e jônios os que moram na Jônia, como tendo esse privilégio dos outros reis? A bondade dos romanos não concedeu a mesma graça, não somente aos particulares, mas a províncias inteiras, o que faz que os antigos espanhóis, os toscanos e os sabinos tenham o nome de romanos? Se Ápio quer fazê-los perder esse privilégio, que ele deixe também de se chamar de alexandrino; pois, tendo nascido no fundo do Egito como poderia ele pretendê-lo, se o privássemos desse direito como ele quer que nós sejamos privados, pois somente os egípcios, aos quais os romanos, que são hoje os senhores do mundo, recusam concedê-lo? Assim, esse raro personagem, achando-se fora da condição de poder esperar essa garça, esforça-se por caluniar os que tão justamente a obtiveram. Eu digo tão justamente, pois não foi pela dificuldade de povoar essa cidade que Alexandre construiu com tanto afeto, que ele ali reuniu um grande número de judeus, mas foi pelo conhecimento que tinha de seu valor e de sua fidelidade, que quis honrá-los com esse favor. Ele tinha tanta estima por nossa nação, que lemos em Hecateu que esse grande príncipe estava tão satisfeito com o afeto e a fidelidade dos judeus, que ele acrescentou Samaria à Judéia e a isentou de tributos; que Ptolomeu Lago, um de seus sucessores, demonstrou não menos estima e boa vontade pelos judeus que moravam em Alexandria, que ele confiou à coragem e fidelidade deles a guarda das praças mais fortes do Egito e que, para conservar Cirene e as outras cidades da Líbia, de que tinha se apoderado, para lá mandou colônias de judeus: que Ptolomeu Filadelfo, um de seus sucessores, não somente pôs em liberdade todos os da nossa nação que estavam escravos no seu país, mas lhes deu diversas vezes grandes somas; e, o que é mais importante, teve tal desejo de ser informado sobre nossas leis e nossas santas escrituras, que ele mandou buscar pessoas capazes de interpretá-las e traduzi-las e não entregou o cuidado de lhas levar a pessoas comuns, mas a Demétrio Falereo, que era tido como o homem mais sábio do seu tempo e a André e Aristeu, oficiais da sua guarda. Ora, esse príncipe teria podido desejar com tanto ardor ser instruído em nossas leis e nos nossos costumes, se ele desprezasse os que as observavam e se, ao contrário, não os tivesse em grande estima?
Ápio ignorou, então, ou quis ignorar que esses sucessores dos reis da Macedônia sempre nos foram muito afeiçoados? Ptolomeu III, cognominado Evergetes, isto é, benfeitor, depois de ter submetido toda a Síria, não deu graças por sua vitória aos deuses dos fenícios, mas veio a Jerusalém oferecer a Deus um grande número de vítimas do modo como nós costumamos fazer e fez ricos presentes ao seu Templo. Ptolomeu Fílonmetor e a rainha Cleópatra, sua esposa, confiaram aos judeus o governo do seu reino e deram a Dociteu, também judeu de nascimento, o comando de seus exércitos, do que Apio não tem receio de zombar, quando, querendo passar por cidadão de Alexandria, ele deveria admirar-lhes as ações e sentir prazer em ter conservado aquela grande cidade, quando a revolta contra a rainha Cleópatra fê-la correr risco de ser totalmente destruída. Ele contentou-se de dizer que Onias para lá levou algumas tropas, quando Termo, embaixador dos romanos, lá já estava. Mas por que não acrescenta ele pelo menos que Onias tinha para isso grandes razões? Ptolomeu Fisco, depois da morte do rei Ptolomeu Fílonmetor, seu irmão, tendo vindo de Cirene com o fim de usurpar o reino da rainha Cleópatra, sua viúva,* e deu seus filhos. Onias marchou contra ele e deu nessa ocasião provas de sua inviolável fidelidade para com os legítimos príncipes. Os exércitos avançaram para combater e Deus então fez conhecer claramente que ele sustentaria a justiça da causa que Onias defendia. Fisco fizera expor, atados e nus, aos seus elefantes, todos os judeus que moravam em Alexandria com suas mulheres e filhos, a fim de que os pisassem, e tinham mesmo mandado embebedar esses animais para lhes aumentar o furor, mas aconteceu justamente o contrário. Os elefantes afastaram-se dos judeus e lançaram-se sobre seus amigos, matando a muitos deles. Nesse mesmo tempo o soberano viu um espírito terrível, que lhe proibiu fazer mal aos judeus, e sua concubina, a quem mais ele queria, chamada Itaca, ou segundo outros Hirene, rogou-lhe que não tratasse tão cruelmente aquele povo. Ele fê-lo não somente mas ainda, demonstrou arrependimento por ter usado de tanta crueldade, o que é tão verdadeiro que todos sabem que os judeus de Alexandria celebram todos os anos o dia em que Deus lhes concedeu tão visível favor. Assim, Apio mostra que jamais houve um caluniador maior do que ele, pois ele ousa censurar os judeus sobre o motivo de uma guerra que os fez merecer tantos elogios.
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* No texto grego, não se encontra mais o que está compreendido desde este sinal até outro semelhante, e isso foi traduzido de um texto grego antes que se perdesse.
Quando ele fala também da última Cleópatra, que reinou em Alexandria, ele nos dá toda a culpa, em vez de condenar sua ingratidão para conosco e de reconhecer que não há males que aquela princesa não tenha feito aos seus maridos, de quem tinha sido tão amada, aos seus parentes e a todos os romanos em geral e em particular aos imperadores, aos quais devia inúmeros favores. Sua impiedade e sua crueldade chegaram a mandar matar num Templo a Arsinoé, sua própria irmã, de quem jamais recebera a menor ofensa, e a mandar assassinar seu irmão. Sua horrível ambição levou-a a saquear os Templos de seus deuses e os sepulcros de seus antepassados. Sua ingratidão a tornou inimiga de Augusto, sucessor e filho por adoção do grande César, ao qual ela era devedora da coroa. Ela corrompeu de tal modo o espírito de Antônio por meio de todos os artifícios que o amor lhe podia dar, que o tornou inimigo da sua própria pátria. E foi tão infiel aos amigos que despojou a alguns do que pertencia à sua origem real e tornou os outros cúmplices de seus crimes.
Se sua ingratidão, sua impiedade e sua ambição chegaram a tão grande excesso, que direi de sua covardia, que na célebre batalha naval fê-la abandonar Antônio, de quem queria passar por mulher, e de quem tinha filhos, obrigou-o a deixar seu exército para segui-la na fuga e fê-lo perder a glória que o elevando acima dos reis, fazia-o participante do império, com Augusto? Por fim, seu ódio e sua desumanidade para com os judeus eram tão grandes que ela se teria alegrado de que César tomasse Alexandria, se com isso ela tivesse podido matar, com suas próprias mãos, todos os que lá moravam. Não temos, pois, motivo de nos vangloriarmos de que Apio nos censure, de que durante tão grande carestia ela recusou vender trigo aos judeus? Mas foi ela castigada conforme merecia e o grande César mesmo quis dar testemunho de nossa fidelidade e do auxílio que lhe havíamos dado na guerra que ele travara no Egito. Nós podemos também mostrar por meio de decretos do Senado e por cartas de Augusto qual sua estima por nós e sua satisfação pelos nossos serviços.
Eram estes os trechos e os títulos que Apio devia examinar. Ele devia ver tudo o que se passou sob Alexandre, o Grande, sob os Ptolomeus, seus sucessores, os decretos do Senado e os dos grandes imperadores romanos. Germânico não pôde mandar entregar trigo a todos os que moravam em Alexandria, por causa da esterilidade que assolava toda a região, e não é isso um motivo de acusação contra os judeus, pois que eles não foram tratados diferentemente de todos os outros habitantes e parece que os reis do Egito não somente não os distinguiram deles, mas tiveram tal confiança em sua fidelidade que lhes confiaram a guarda do rio e das principais praças.
“Mas — diz Apio — se os judeus são cidadãos de Alexandria, por que eles não adoram os mesmos deuses que os alexandrinos?”Respondo: Se vós todos sois egípcios, por que discutis continuamente, mesmo entre vós, sobre a vossa religião? não poderia eu, para me servir de vossas mesmas armas contra vós, dizer que nem todos vós sois egípcios e mesmo acrescentar que não sois homens como os outros, pois que adorais e alimentais com tanto cuidado a animais inimigos dos homens; ao passo que não há entre os judeus como entre vós opiniões diferentes? Que motivo tendes então de vos admirardes de que os judeus, que estão em Alexandria, continuem a observar as mesmas leis que sempre e em todos os tempos observaram?
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