Capítulo 2 – Alegria dos israelitas pelo retorno da arca. Samuel exorta-os a recobrar a liberdade. Vitória milagrosa sobre os filisteus, aos quais continuam a fazer guerra.

1 Samuel 6. As vacas tomaram o caminho que levava aos israelitas, como se para lá fossem levadas, e os principais dos filisteus seguiram-nas, para ver aonde iam parar. Quando chegaram a uma aldeia da tribo de Judá, de nome Bete-Semes, para­ram, embora diante delas se abrisse bela e vasta planície. Era o tempo da ceifa, e todos estavam ocupados em cortar o trigo. Mas logo que os habitantes da aldeia viram a arca, a sua alegria fê-los deixar tudo e correr ao carro. Tomaram a arca e a caixa, colocaram-na sobre uma pedra e fizeram sacrifícios, oferecendo a Deus em holocaustos as vacas e o carro e mostrando com festas públicas o seu regozijo, do qual foram testemunhas os filisteus de que acabamos de falar. Estes levaram a notícia aos outros.

Os habitantes de Bete-Semes, porém, sofreram os efeitos da cólera de Deus, que fez morrer setenta deles, porque, não sendo sacerdotes, ousaram tocar na arca. O pesar foi tanto maior quanto essa morte não era tributo à natureza, e sim castigo. Assim, sabendo que não eram dignos de ter junto de si tão sagrado e precioso depósito, mandaram avisar a todas as tribos de que os filisteus haviam restituído a arca. Elas deram logo ordem de levá-la a Quiriate-Jearim, que é cida­de próxima de Bete-Semes. Colocaram-na em casa de um levita de nome Abinadabe, ilustre por sua piedade, na certeza de que a casa de um homem de bem era lugar próprio para recebê-la. Esse santo homem colocou-a sob o cuida­do dos filhos e nada se pode acrescentar ao que eles obtiveram durante os vinte anos em que ela aí permaneceu. Os filisteus a conservaram apenas sete meses.

1 Samuel 7. Durante os vinte anos em que a arca ficou em Quiriate-Jearim, os israelitas viveram de modo muito religioso e ofereceram a Deus, com fervor, votos e sacrifícios. Assim, o profeta Samuel julgou que o tempo era próprio para exortá-los a reconquistar a liberdade e desfrutar os bens que ela produz. E, para harmonizar os sentimentos, falou-lhes nestes termos: “Os nos­sos inimigos não deixam de nos oprimir, e Deus mostra que nos é favorável. Não basta fazer votos pela nossa liberdade, é necessário empreender tudo para reconquistá-la. Cuidai, porém, para não vos tomardes indignos pela corrupção dos vossos costumes, tendo, ao contrário, amor à justiça e horror ao pecado e convertendo-vos a Deus com tal pureza de coração que nada jamais vos impe­ça de prestar-lhe a honra que lhe deveis. Se assim procederdes, não haverá felicidade que não possais esperar: sereis libertos da escravidão e triunfareis sobre os vossos inimigos, porque somente por intermédio de Deus, e não pela força, coragem e número dos combatentes, poderemos obter todas essas van­tagens, as quais somente a justiça e a probidade podem conceder. Ponde, pois, toda a vossa confiança nEle, e eu vos asseguro que Ele não frustrará as vossas esperanças”.

Essas palavras animaram de tal modo o povo que eles, depois de manifestar a sua alegria por aclamações, declararam estar prontos para fazer o que Deus lhes ordenasse. Samuel ordenou que se reunissem na cidade de Mispa (isto é, “visí­vel”). Lá tiraram água, ofereceram sacrifícios a Deus, jejuaram durante um dia e fizeram orações públicas. Os filisteus, avisados dessa reunião, vieram imediata­mente contra eles com poderoso exército, convictos de que, surpreendendo-os, poderiam dizimá-los facilmente.

Os israelitas, assustados com o perigo, recorreram a Samuel e confessaram-lhe que temiam combater inimigos tão temíveis. Embora fosse verdade que estavam ali reunidos para fazer orações e sacrifícios e que se haviam comprometido com juramento a fazer a guerra, não tinham nenhuma esperança de vencer os filisteus, os quais iriam atacá-los antes que tivessem tempo de apanhar as armas e de se preparar para resistir-lhes o ataque, a menos que Deus se deixasse vencer pelas suas orações e se declarasse seu protetor. O profeta exortou-os a nada temer e garantiu-lhes o auxílio de Deus. Em seguida, ofereceu a Deus, em nome de todo o povo, o sacrifício de um cordeiro de leite, rogando-lhe que não abandonasse aqueles que confiavam somente nEle e não permitisse que caíssem em poder dos inimigos. Deus aceitou aquela vítima tão agradavelmente que prometeu combater por eles e dar-lhes a vitória.

Antes de concluído o sacrifício e de a vítima ser inteiramente consumida pelo fogo sagrado, os filisteus deixaram o seu acampamento para iniciar o combate e, como surpreendiam os israelitas, sem lhes dar ocasião de preparar a defesa, não punham em dúvida o resultado favorável da luta. Mas o desfecho foi tal que eles jamais poderiam imaginá-lo, ainda que alguém o tivesse predito. Por efeito da onipotência de Deus, sentiram a terra tremer de tal modo sob os pés que mal podiam equilibrar-se e viram-na abrir-se em alguns lugares e tragar os que ali se encontravam. Estrugiu nos ares um trovão tão espantoso e acompanhado de raios tão fortes que os olhos deles se ofuscaram e as mãos, semiqueimadas, não podiam segurar as armas. Assim foram obrigados a lançá-las por terra e buscar a salvação na fuga.

Os israelitas mataram grande número deles, perseguiram o resto até o lugar chamado Bete-Car, onde Samuel mandou fixar uma pedra como sinal da vitó­ria e chamou ao lugar Ebenézer, para dar a conhecer que tudo o que haviam conseguido de força naquela célebre jornada deviam a Deus somente. Fato tão maravilhoso lançou tal terror no espírito dos filisteus que eles não ousaram mais atacar os israelitas, e a ousadia que antes manifestavam passou, por estra­nha modificação, ao coração dos vitoriosos. Samuel continuou a fazer-lhes guer­ra, matou muitos em diversos combates, domou-lhes o orgulho, reconquistou um país situado entre as cidade de Gate e Ecrom que eles haviam, pelas armas, conquistado aos israelitas. Estes, enquanto estavam ocupados com essa guerra, viveram em paz com os cananeus.

Comentários

Tão vazio aqui... deixe um comentário!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Barra lateral