Capítulo 30 – Silva, que, depois da morte de Basso, governava a judéia, decide-se a atacar Massada, onde Eleazar, chefe dos sicários, se havia refugiado. Horríveis atos de crueldade e de impiedade cometidos pelos dessa seita, porfoão, por Simão e pelos idumeus.
Basso morreu na Judéia e foi substituído por Flávio Silva e como Massada era a única praça que lhe restava tomar, ele reuniu todas as tropas para atacá-la. Eleazar, chefe dos sicários ou assassinos, comandava-os, nessa praça; ele era da família de Judas, que tinha outrora persuadido a vários judeus, a não se submeterem ao recenseamento, que Cirênio queria fazer. Estes revoltosos não podiam tolerar que se obedecesse aos romanos e tratavam os que o faziam, como inimigos, saqueavam-lhes os bens, levavam seu gado, queimavam-lhes as casas e diziam que não se devia fazer diferença entre eles e os estrangeiros, pois eles tinham por sua covardia traído a pátria, preferindo a escravidão à liberdade para cuja conservação tudo devemos fazer. Mas os efeitos fizeram ver que isso era apenas um pretexto para disfarçar-lhes a crueldade e a ambição porque, quando os que eles acusavam de covardes e pérfidos se uniram a eles, para fazer guerra aos romanos, eles os trataram ainda mais cruelmente do que o haviam feito antes e principalmente àqueles que lhes censuravam a malícia. Jamais tempo algum foi mais fecundo em crimes do que esse, entre os judeus. Cada qual procurava sobrepujar seu companheiro, em toda espécie de crueldade e de maldade, bem como de impiedade. Em geral e em particular, só havia corrupção. Os ricos tiranizavam o povo; o povo procurava prejudicar os ricos. Uns queriam dominar, outros queriam saquear, e estes sicários foram os primeiros que, sem poupar aos de sua nação, se distinguiram por violências e assassínios. De sua boca só saíam palavras ofensivas, seu coração só desejava traições e sua inteligência só encontrava prazer em excogitar instrumentos de maldade.
Por mais detestáveis e violentos que eles fossem, porém, podiam passar por moderados, em comparação com João. Este não se contentava de tratar como inimigos e de mandar matar os que propunham coisas úteis para o bem comum, mas não havia males que ele não causasse à sua pátria. Seria para nos admirarmos, de que um homem que calcava aos pés o respeito devido às leis de nossos antepassados, que havia renunciado à pureza de que os judeus faziam profissão, que não tinha dificuldade em comer carnes proibidas e cujo furor chegava a cometer mil atos de impiedade contra Deus, tivesse renunciado a todos os sentimentos de humanidade?
Que crimes não cometeu também Simão, filho de Gioras? De que espantosa maneira não tratou ele aos mesmos que o haviam recebido em Jerusalém? Eram livres e tornaram-se escravos, submetendo-se à sua tirania? O parentesco, a amizade e todos os outros laços que unem mais fortemente os homens, puderam talvez impedir-lhe manchar continuamente suas mãos no sangue? Em vez de se acalmar e tornar-se mais benigno, não o tornaram e aos do seu partido, ainda mais cruéis? Não maltratar e não ofender pessoas indiferentes, era para eles uma maldade covarde e tímida; nada, ao contrário, lhes parecia tão belo, como calcar aos pés todos os deveres da natureza e da sociedade civil, para fazer sentir os efeitos do seu furor, àqueles que eram mais obrigados a amar.
Os idumeus, por seu lado, foram-lhes talvez inferiores em toda sorte de crimes? Esses malvados, depois de terem massacrado os sacerdotes, não se contentaram de abolir todos os sinais de piedade, que podiam ainda restar; destruíram também tudo o que tinha alguma aparência de justiça humana e de política e puseram a injustiça sobre o trono. Mostraram que eram verdadeiramente zelotes, não pelo amor das coisas justas e santas, as quais os haviam feito tomar esse nome, que eles se atribuíam tão falsamente e com que entusiasmavam os ignorantes, mas por um zelo verdadeiro e pela ardente paixão que tinham de sobrepujar, em toda espécie de crimes, os maiores criminosos, que jamais existiram sobre a face da terra.
Se eles mostraram, até que excesso pode chegar a impiedade, Deus mostrou quanto sua justiça deve ser temível aos maus, pois, de todos os tormentos e suplícios que os homens são capazes de experimentar, não houve um sequer que eles não sofressem durante a vida e que não sofrerão, sem dúvida, depois da morte. Eu sei que alguns dirão que esse castigo, por maior que seja, não corresponde à magnitude das ofensas e que se poderia desejar ainda mais, pois não há castigos que os possam igualar. Quanto aos que foram tão infelizes, de ficar expostos ao furor dessas feras, não é este o lugar de eu me estender em deplorar sua desdita; devo retomar minha narração, que fui, quase obrigado, a interromper.
Comentários
Tão vazio aqui... deixe um comentário!