Capítulo 38 – Horrível maldade de Catulo, governador da Líbia Pentapolitana, que para se enriquecer com os bens dos judeus, acusa-os falsamente, e entre os outros, também afosefo, autor desta história, de terem levado Jônatas, chefe dos sicarios que tinham sido presos, afazer o que ele tinha feito. Vespasiano depois de se ter informado bem no assunto, manda queimar Jônatas vivo. Tendo sido demasiado clemente com Catulo, vê esse homem morrer de uma maneira espantosa.

Jônatas, chefe dessa pobre gente, que se tinha deixado enganar por ele, escapou; mas procuraram-no com tanto cuidado que ele foi aprisionado e levado a Catulo. Para retardar o seu suplício ele propôs-lhe um meio fácil para se enrique­cer, servindo-se dele para acusar os mais ilustres dos judeus de Cirene de tê-lo levado a fazer o que ele havia feito. Esse ambicioso governador prestanteu facil­mente ouvidos a tão grande calúnia e a fim de parecer de algum modo ter termi­nado a guerra aos judeus, para cúmulo de maldade, incitou aqueles celerados sicários a renovar as acusações para perderem àqueles inocentes. Ordenou-lhes particularmente que acusassem a um judeu de nome Alexandre, que todos sabiam que ele odiava há muito tempo e fê-lo morrer com Berenice, sua esposa, que ele envolveu na mesma acusação. Mandou em seguida matar também três mil outros judeus cujo único crime era serem ricos, pensando que nada tinha a temer, porque contentava-se de lhes tomar o dinheiro, confiscando suas terras para o império; para lhes tirar os meios de acusá-lo, a todos os que moravam em outras províncias, bem como provar seus crimes, ele se serviu do mesmo Jônatas e de alguns outros do seu partido, prisioneiros com ele, para denunciar, como culpados, os homens de bem daquela nação, que moravam em Alexandria e em Roma, no número dos quais estava Josefo, autor desta história. Depois de ter combinado tão grande maldade, não tendo dúvidas de conseguir o seu detestável desígnio, ele foi a Roma, levou Jônatas acorrentado e aqueles outros caluniadores. Mas foi enganado em suas esperanças, pois Vespasiano desconfiou e quis conhecer a verdade; e vindo a sabê-la declarou inocentes, por solicitação de Tito, Josefo e os outros que tinham sido falsamente acusados, e para castigar Jônatas, como ele merecia, mandou queimá-lo vivo, depois de tê-lo feito açoitar com varas.

Quanto a Catulo, a clemência desses dois príncipes salvou-o. Mas logo depois ele foi atacado de uma doença incurável e tão horrível, que por mais extraordi­nárias e insuportáveis que fossem as dores, que ele sentia por todo o corpo, as que lhe feriam a alma ainda as sobrepujavam de muito. Ele era agitado sem cessar por um terror espantoso; dizia que via diante dos olhos os espectros es­pantosos daqueles que tinha tão cruelmente feito morrer e não podendo ficar quieto lançava-se do leito, como o teria feito da roda do suplício ou do meio de um braseiro ardente. Seus males quase inacreditáveis aumentaram, cada vez mais e por fim, com as entranhas devoradas pelo fogo, que o consumia, ele acabou sua vida criminosa, por uma morte que provava como Deus queria mostrar com um exemplo tão notável, a ferocidade dos castigos que os maus devem esperar de sua justiça. Terminarei aqui a história da guerra dos judeus contra os romanos, que eu havia determinado a dar ao público, para prazer das pessoas que desejas­sem conhecê-la. Deixo, porém, o juízo, aos que a lerem e contento-me de afir­mar que nada acrescentei à verdade, a qual é o único objetivo, que me propus, em tudo o que escrevi.

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