Capítulo 34 – Simão volta seu furor contra os idumeus e persegue até à portas de Jerusalém os que fugiam. Crueldade horrível e abominação dos galileus que estavam com João de Giscala. Os idumeus, que haviam abraçado o seu partido, insurgem-se contra ele, saqueiam o palácio que ele tinha ocupado e obrigam-no a se encerrar no Templo. Esses idumeus e o povo chamam Simão em seu auxílio contra ele e o sitiam.

Depois que Simão reconquistou sua mulher voltou seu furor contra o que restava de idumeus. Perseguiu-os de tal modo, que estando reduzidos ao desespero, vários fugiram para Jerusalém. Ele os perseguiu até às muralhas e lá matou os que voltavam do campo, quando pretendiam entrar na cidade. Assim, Simão era, no exterior, mais temível aos habitantes do que os romanos, e os zelotes eram-no, no interior, muito mais que os romanos e Simão.

Por mais horrível que fosse sua desumanidade e seu furor, os galileus as aumentavam ainda mais e João inspirava-lhes novos meios de a praticar, pois nada havia que ele não lhes permitisse, como gratidão pelo favor que lhe haviam feito, tendo-o elevado a tão grande poder. Tudo o que se encontrava de mais precioso nas casas dos ricos não era suficiente para contentar à sua insaciável ambição. Matar os homens e ultrajar as mulheres era para eles um divertimento e um grace­jo. Eles borrifavam suas presas com sangue e encontravam prazer na multiplicação dos crimes. Depois de se terem abandonado aos que são praticados pelos maus, eles se aborreciam com os mesmos, como muito ordinários e comuns; para satisfa­zer à sua abominável brutalidade, não tinham vergonha de procurar outros, que causavam horror à mesma natureza. Vestiam-se de mulheres, penteavam os cabe­los, adornavam-se como elas e não as imitavam somente em suas vestes e adere­ços, mas até na impudência mais desavergonhada, superavam-nas ainda com ações de uma impudicícia abominável. Assim encheram Jerusalém de crimes execráveis, de tal modo que aquela grande cidade parecia um lugar público de prostituição, a mais detestável e a mais horrível de todas as infâmias. Mas ainda que esses mons­tros de impudicícia, de crueldade e de ambição tivessem rosto tão efeminado, suas mãos não estavam menos prontas a cometer assassínios. Ao mesmo tempo que andavam devagar e afetadamente eram vistos puxar de suas espadas de sob as vestes de diversas cores e assassinar os que encontravam. Os que podiam escapar das mãos de João, caíam nas de Simão e achavam que ele ainda os superava em crueldade; depois de ter evitado o furor desse tirano doméstico, o outro que cerca­va a cidade fazia-os também perder a vida ,e os que desejavam fugir para os roma­nos não podiam fazê-lo.

Entretanto, os idumeus que tinham abraçado o partido de João, inve­jando seu poder e não podendo tolerar sua crueldade, insurgiram-se contra ele. Travou-se um combate, mataram a muitos dos dele, impeliram-no até quase o palácio, construído por Grapta, primo de Izate, rei dos adiabenianos, que João havia escolhido para sua residência e onde ele guardava todo seu dinheiro, como produto dos roubos e saques, que eram efeito de sua tirania; entraram lá com ele e o obrigaram a se retirar ao Templo; voltaram depois para saquear o palácio. Os zelotes então que estavam dispersos pela cidade, foram juntar-se aos que estavam no Templo e João preparava-se para dar um ataque ao povo e aos idumeus. Não era isso que eles temiam, porque os superavam de muito em número; seu único temor era que ele atacasse de noite e incendiasse a cidade. Reuniram-se para esse fim com os sacerdotes para deliberar o que deveriam fazer. Mas Deus confundiu seus desígnios, pois eles recorreram a um remédio muito mais perigoso que o mesmo mal. Resol­veram receber Simão para opô-lo a João; mandaram Matias, sacerdote, ro­gar-lhe que entrasse na cidade e fizeram assim seu tirano àquele mesmo ao qual tanto tinham temido. Os que haviam fugido da cidade para evitar o furor dos zelotes uniram suas súplicas às de Matias, pelo desejo que tinham de voltar às suas casas e ao gozo de seus bens. Simão respondeu altivamente, e como senhor, que aceitava o seu pedido, entrou na cidade na qualidade de libertador e o povo recebeu-o com grandes aclamações; isto aconteceu no terceiro mês a que chamamos de Xantico. Vendo-se assim em Jerusalém, ele só pensou em consolidar a sua autoridade e não considerava menos como inimigos os que o haviam chamado, do que aqueles contra os quais eles havi­am recorrido ao seu auxílio.

João, ao contrário, perdia as esperanças de salvação, porque se via encerrado no Templo e Simão tinha acabado de saquear tudo o que restava na cidade. Este, confortado com o auxílio do povo, atacou o Templo; mas os siti­ados, que se defendiam de cima dos pórticos e de outros lugares que haviam fortificado, repeliram-no, mataram e feriram a muitos dos dele, porque tinham a vantagem de combater de um lugar mais elevado e particularmente de qua­tro grandes torres que tinham construído; a primeira entre o oriente e o norte; a segunda na galeria; a terceira no ângulo oposto à cidade baixa e a quarta no vértice de uma espécie de tabemaculo, chamado Pastoforio, onde segundo o costume de nossos antepassados um dos sacerdotes de pé, diante do sol posto, dizia, a som de trombeta, que o dia do sábado começava e na tarde seguinte terminava, e também declarava ao povo os dias que ele devia festejar e os em que devia trabalhar. Os sitiados tinham guarnecido essas torres com máquinas, arqueiros e fundibulários; tão grande resistência enfraqueceu o ardor dos que sitiavam. Mas Simão, confiando no grande número dos seus, não deixava de fazer seus homens avançarem, embora as máquinas dos sitiados lançassem dar­dos que matavam e feriam a muitos deles.

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