Capítulo 12 – Os zelotes querem alterar a ordem estabelecida, referente à escolha dos grandes sacerdotes. Anano, sumo sacerdote, e outros dos principais sacerdotes incitam o povo contra eles.

Os zelotes (pois esses ímpios davam-se a si mesmos tal nome) para se salvar dos efeitos da ira do povo, fugiram para o Templo e lá fizeram sua fortale­za, estabelecendo nele a sede de seu governo tirânico. Dentre tantos males que causavam, nada era tão intolerável quanto seu desprezo pelas coisas mais santas. Para experimentar até onde poderiam chegar suas forças e o temor do povo, tentaram servir-se da sorte para escolher o sumo sacerdote, afirmando que assim se fazia antigamente, quando tal dignidade era hereditária; aboliam a lei para estabelecer sua injusta autoridade. Mas eles ficaram confundidos em sua malícia, pois tendo feito lançar a sorte sobre uma das famílias da tribo, consagrada a Deus, caiu a mesma sobre Fanias, filho de Samuel, da aldeia de Hafrasi, que não somente era indigno de tal cargo, mas ainda tão rústico e tão ignorante, que nem sabia o que era o sacerdócio. Contra sua vontade tiraram-no de suas ocupa­ções do campo e o revestiram dos hábitos sacerdotais, que lhe assentavam muito mal, quase como se estivessem vestindo um ator de teatro; ensinaram-lhe depois o que devia fazer; tão grande impiedade passava em seu espírito apenas por um gracejo. Os verdadeiros sacerdotes, olhando de longe essa comédia e de que modo se calcava aos pés a honra devida às coisas santas, não puderam reter as lágrimas, nem o povo suportou por mais tempo tão horrível insolência; todos sentiram-se inflamados pelo mesmo ardor, para se libertarem de tal tirania.

Goriom, filho de Josefo, e Simão, filho de Gamaliel, mostraram-se os mais entusiastas. Exortaram a cada qual em particular e a todos em geral, a castigar aqueles usurpadores, pelos seus excessos e a vingar a afronta feita a Deus pelos profanadores de seu santo Templo.

Por outro lado, Jesus, filho de Gamala, e Anano, filho de Anano, que eram os mais ilustres em virtude e os mais atacados dentre os sacerdotes, censu­ravam o povo porque não se decidia a castigar os zelotes, que era, como disse­mos, o nome que eles davam a si mesmos, como se tivessem no coração o zelo pela glória de Deus, quando viviam sempre sedentos de sangue e suas mãos, prontas a cometer os maiores crimes. O povo reuniu-se então e a indignação era geral, por ver os mais malvados de todos os homens terem-se tornado senhores do lugar santo e praticar impunemente, à vista de todos, grandes furtos e rapi­nas, crimes e assassínios.

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