Capítulo 4 – Palavras de Tito aos soldados para exortá-los a dar o assalto, pela destruição que a queda do muro da torre Antônia havia causado.

Como Tito sabia o que as palavras e a esperança podem no ânimo dos soldados para aumentar-lhes a coragem e as exortações unidas às promessas são por vezes capazes de não somente fazê-los esquecer o perigo, mas também desprezar a morte — reuniu os mais valorosos do exército e falou-lhes deste modo: “Meus com­panheiros, ser-nos-ia igualmente vergonhoso que eu tivesse necessidade de vos exortar a uma ação cujo perigo não fosse muito grande. Mas é uma coisa digna de mim e de vós, propor-vos um empreendimento não menos arriscado que glorioso. Assim, não deve a dificuldade que nele encontramos impedir-vos de tentá-lo, mas, ao contrário, é o que vos deve animar ainda mais, pois que o verdadeiro valor consiste em vencer os maiores obstáculos e a não temer expor-se à morte, para conquistar uma reputa­ção imortal, quando mesmo não considerásseis as recompensas que esperam de mim os que se distinguirem num feito tão importante. Essa invencível constância que os judeus demonstram no meio de tantos males, que assustariam as almas dos covardes, não vos devem também animar? Que vergonha, que soldados que em tempos de paz continuamente se ocupam em exercícios de guerra e que nesta estão habituados a vencer sempre, viessem a perder em coragem aos judeus, mesmo quando estamos a ponto de terminar tão grande empresa e que parece visivelmente que Deus nos ajuda? Quem não vê que nossos bons resultados são efeitos de nosso valor, favorecido pelo seu auxílio e que, ao contrário, os que esses revoltosos tiveram em alguns combates, só devem ser atribuídos ao seu desespero? Que pode melhor demonstrar que Deus está conosco e contempla esse povo com cólera, do que os males ordinários que devem sustentar, unidos ainda a um grande assédio, à fome que os destrói, às suas facções que os dividem, e às suas muralhas que caem por si mesmas, sem que sejam necessárias máquinas para nos abrir passagem? Que infâ­mia para vós, mostrar menos coragem que aqueles sobre os quais tendes tantas vantagens? Que ingratidão vossa para com Deus, se desprezásseis o seu auxílio? Oh! Os judeus, que não devem ter vergonha de ser vencidos, pois estão acostumados à servidão, não temem, para dela se libertar, desprezar a morte e atacar-nos com tanta ousadia, não pela esperança de nos poder vencer, mas por generosidade. Nós, que sujeitamos à nossa dominação quase todas as terras e todos os mares e a quem não é menos vergonhoso não vencer, do que aos outros ser vencidos, esperamos com um tão poderoso exército, que a fome e a miséria acabem por destruir esses rebel­des, sem ousarmos empreender uma ação gloriosa, embora nada haja que não pos­samos empreender sem grave perigo? Só temos que tomar a fortaleza Antônia, para ficarmos senhores do restante, pois que se depois de tê-la tomado encontrarmos ainda resistência, o que não creio, seria ela tão pequena que não mereceria ser con­siderada como tal, porque a vantagem que teríamos em combater daquele lugar elevado, que domina a todos os demais, mal daria aos inimigos a possibilidade de respirar, quando lhe tivéssemos assim o pé sobre a garganta. Não vos falarei dos louvores que merecem aqueles que terminam seus dias com as armas na mão, nos maiores perigos da guerra e que uma glória imortal torna sempre vivos, mesmo depois da morte, na memória dos homens. Mas vos direi somente que eu desejo que uma enfermidade, durante a paz, leve os fracos e covardes, cujas almas e corpos descem juntos para o túmulo. Quem não sabe que os que morrem combatendo com invencível coragem apenas são libertados da prisão de seus corpos vão tomar assento no céu entre as estrelas, de onde suas almas heróicas são para seus descen­dentes como espíritos bem-aventurados, que os animam à virtude, pelo desejo de possuir um dia a mesma glória? Ao contrário, as almas dos que morrem de doença numa cama, por maiores tormentos que sofram num outro mundo para serem purificadas de seus pecados, são sepultadas com seus nomes nas trevas perpétuas?

Se a morte é inevitável a todos os homens, se é sem dúvida mais doce recebê-la por um golpe de espada que por uma enfermidade, que covardia pode igualar, a de recusar à utilidade da pátria e ao aumento da sua grandeza, uma vida que não podemos evitar de perder? Vede que vos falei até aqui, como se, dando esse assalto, corrêssemos a uma morte inevitável. Mas não há perigos que uma grande resolução não possa vencer. A queda desse primeiro muro já nos abre caminho para a vitória; o segundo não será difícil de se derrubar, contanto que ataqueis todos juntamente com o mesmo ardor, exortando-vos e animando-vos reciprocamente. Vossa cora­gem deixará atônitos os inimigos e talvez tenhamos êxito sem graves perdas, numa ação tão gloriosa, porque ainda que os judeus se esforcem por repelir os primeiros que derem o assalto, ainda não teremos obtido sobre eles a menor vantagem, que seu vigor diminuirá, aos poucos, até que não nos poderão mais oferecer resistência. Comprometo-me a recompensar de tal modo o mérito daquele que subir por pri­meiro à brecha, quer ele esteja vivo, quer morto, depois de ter praticado tão belo feito; ele será digno de inveja, pois que se sobreviver, comandará os que antes lhe eram iguais e se essa brecha for o seu túmulo, não haverá honras que eu não preste à sua memória”.

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