Capítulo 4 – Horrível insolência de um soldado das tropas romanas causa em Jerusalém a morte de vinte mil judeus. Insolência de outro soldado.

Aproximava-se a festa da Páscoa, na qual os judeus só comem pão sem fermento, e uma grande multidão de povo acorria de todos os lados. Cumano, para impedir que houvesse alguma desordem, colocou uma companhia de sol­dados para montar guarda à porta do Templo, como sempre fizeram os seus predecessores em semelhantes ocasiões. No quarto dia da festa, porém, um soldado teve a insolência de pôr a descoberto, diante de todos, o que o pudor e a educação obrigam a esconder. Tão horrível desfaçatez irritou de tal modo o povo, que todos começaram a clamar que não era somente aos judeus que ele injuriava, mas ao próprio Deus, e os mais exaltados começaram a ofender Cumano, dizendo que fora ele quem mandara o soldado cometer tamanha impiedade.

Cumano ficou muito ofendido com essas palavras: todavia, não deixou de exortar o povo a conter a sua exaltação. No entanto, percebendo que eles, em vez de obedecer, ainda lhe diziam mais injúrias, ordenou a todas as tropas que se dirigissem com armas à fortaleza Antônia, que, como já dissemos, ficava sobranceira ao Templo. O povo, então, espantado por ver aproximar-se um tão grande número de soldados, pôs-se em fuga. Como as ruas eram muito estreitas e eles, aterrorizados, imaginavam que os soldados os estavam perseguindo, apertaram-se de tal modo que mais de vinte mil morreram sufocados. Assim, a alegria dessa grande festa converteu-se em tristeza. Cessaram as orações. Abandonaram-se os sacrifícios. Ouviam-se apenas gemidos, lamentos. E a causa de toda essa desolação deveu-se ao impudor sacrílego de um único homem.

Essa tragédia ainda era lamentada quando sobreveio outra confusão. Alguns dos que haviam fugido, na ocasião do tumulto, encontraram a cem estádios de Jerusalém um homem de nome Estêvão, que era doméstico do imperador, assaltaram-no e apoderaram-se de tudo o que ele trazia consigo. Cumano, logo que soube disso, enviou soldados com ordem de devastar as aldeias vizinhas e trazer-lhe aprisionados os principais habitantes. Um solda­do encontrou numa dessas aldeias os livros de Moisés e rasgou-os na presen­ça de todos, proferindo ainda mil ofensas contra as nossas leis e contra a nossa nação. Os judeus não puderam tolerar tal ofensa e foram em grande número encontrar-se com Cumano, em Cesaréia, para rogar-lhe que casti­gasse tão grande injúria, feita antes ao próprio Deus que a eles. O governa­dor, vendo-os tão exaltados e temendo uma revolta, a conselho de amigos mandou matar o soldado que fizera semelhante ultraje às nossas leis e assim acalmou uma grande perturbação.

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