Capítulo 26 – Palavras de Josefo aos judeus cercados em Jerusalém para exortá-los a se entregar. Os facciosos não se deixam convencer; mas o povo ficou tão impressionado que vários fugiram para os romanos. João e Simão colocam guardas nas portas para impedir que outros os pudessem seguir.
Depois desta ordem, Josefo escolheu um lugar apropriado, bem alto, fora do alcance dos dardos, de onde os judeus pudessem ouvi-lo. Exortou-os, então, a ter compaixão de si mesmos, do povo, do Templo e de sua pátria. Disse-lhes que era estranho que eles fossem mais obstinados consigo mesmos do que os estrangeiros; que os romanos, sendo tão religiosos, que respeitam mesmo entre os inimigos as coisas tidas como santas, com quanto mais forte razão aqueles que tinham sido instruídos, desde sua infância a respeitá-las, deviam empregar todas as suas forças em cuidar de sua conservação e não trabalhar para sua ruína. Que as mais fortes de suas muralhas estavam destruídas, restando-lhes apenas uma, a mais fraca de todas; era-lhes fácil ver que não poderiam resistir mais ao poder dos romanos. Que eles deveriam estar acostumados a lhes estar sujeitos e embora seja glorioso combater para defender a própria liberdade, é com isso que mais dela se goza, mas depois de tê-la perdido, e obedecido durante longo tempo, querer sacudir o jugo é mais trabalhar para perecer miseravelmente, do que se libertar da servidão. Que, se é vergonhoso estar sujeito a um poder desprezível, não o é ter como senhores àqueles que reinam em toda a terra, pois, que país está isento do domínio dos romanos, senão aquele que um excessivo calor ou um frio insuportável o teria tornado inútil? Que se via que de todos os lados a fortuna lhe estendia os braços e Deus, que tem em suas mãos o império do mundo, depois de tê-lo, no correr dos séculos, dado a diversas nações, tinha então estabelecido a sua sede na Itália. Que quem não sabe que não apenas os homens, mas os animais também cedem, como por uma lei invencível da natureza, aos que os sobrepujam em força e que os homens aos quais se pode disputar a glória das armas sempre saem vitoriosos? Que assim, ainda que seus antepassados não lhes fossem inferiores nem em força nem em coragem, não tinham tido vergonha de se submeter àqueles invencíveis conquistadores que eles viam que Deus conduzia pela mão ao soberano poder. Que ele não compreendia em que eles se podiam fundar para continuar a resistir, vendo que os romanos já se tinham apoderado da maior parte da cidade e que quando mesmo eles deixassem de atacar e suas muralhas estivessem ainda inteiras eles não podiam evitar perecer pela fome, flagelo o mais temível de todos, porque suas forças vão sempre crescendo e que já começara a dizimar o povo e, assim, bem depressa exterminaria todos os soldados, se eles não encontrassem um meio de combater contra a fome e fossem os únicos capazes de vencer aqueles males, que são sem remédio.
Josefo acrescentou que a prudência obriga a mudar de opinião, antes de se ter chegado aos últimos extremos. Que os romanos esqueceriam todo o passado, contanto que eles não continuassem em sua obstinação, porque eles eram moderados na vitória e preferiam o que lhes era útil à vã satisfação de seguir o movimento de sua cólera. E que assim como eles julgavam que não lhes era interessante encontrar uma cidade sem habitantes, uma província deserta, aquele grande príncipe, destinado para a sucessão do império, estava pronto a lhes conceder a paz; se não a aceitassem, ele não perdoaria a um só, porque não podiam recusá-la sem se tornar indignos de todo perdão. Que depois de dois dos seus muros terem sido derrubados, eles não podiam duvidar de que o terceiro seria bem depressa também reduzido às mesmas condições e que ainda que sua cidade fosse inexpugnável, eles não poderiam duvidar, como acabava de dizer, que a fome não a reduzisse à obediência dos romanos.
Vários daqueles que ouviram de cima das defesas a Josefo assim falar, zombaram dele; outros, injuriaram-no e alguns até mesmo atiraram-lhe dardos. Vendo, então, que misérias tão graves não eram capazes de os comover, julgou dever falar-lhes do que havia acontecido no tempo de seus antepassados e disse-lhes: “Miseráveis que sois, vos esquecestes talvez de onde vos veio auxílio em todos os tempos? Será por meio das armas que pretendeis vencer os romanos, como se devesseis às vossas próprias forças as vitórias que tendes obtido? E esse Deus Todo-poderoso, que criou o universo não foi sempre o protetor dos judeus, quando eles foram injustamente atacados? Não compreendereis vós mesmos, refletindo, o ultraje que lhe fazeis, violando o respeito que lhe é devido, fazendo de seu Templo uma fortaleza, de onde sais empunhando armas como de uma praça de guerra? Esquecestes tantas ações, tão religiosas, de nossos avós e de quantas guerras a santidade desse lugar foi preservada? Tenho vergonha de relatar as obras admiráveis de Deus a pessoas indignas de ouvi-las. No entanto, ouvi-as, a fim de saberdes que é verdadeiramente a Ele e não aos romanos, que resistis.
“Neco, faraó, rei do Egito, veio com grandes tropas e levou Sara que era como a mãe e a rainha de nossa nação. Que fez então Abraão, seu marido, o chefe de nossa raça? Recorreu talvez às armas para se vingar de tal injúria, como teria podido fazê-lo, pois tinha sob suas ordens trezentos e dezoito oficiais, cada um dos quais comandava um grande número de homens? Absolutamente. Considerou essas forças como inúteis, se ele fosse ajudado por Deus; contentou-se de recorrer a Ele, elevando suas mãos para aquele lugar sagrado, que vós maculastes com tantos crimes e a força invencível do Todo-Poderoso foi o único socorro que ele buscou nessa guerra. Que efeito produziu tão grande fé? Aquele rei, tão temido, não lhe restituiu a esposa dois dias depois, tão pura como lhe havia sido entregue? Ele adorou esse lugar sagrado, onde não tivestes receio de derramar o sangue de vossos irmãos e os sonhos terríveis que ele teve fizeram-no fugir para seu país, depois de ter dado muito ouro e prata ao feliz povo, do qual sois descendente porque o via tão favorecido por Deus.
“Que direi da passagem de nossos antepassados pelo Egito? Não viveram eles quatrocentos anos sob uma dominação estrangeira? E, embora fossem em número muito maior, para se libertar pelas armas, não preferiram abandonar-se ao governo e à providência de Deus? Quem não conhece os milagres que Ele fez para libertá-los? Com quantas espécies de animais Ele não devastou esse país? Com quantas enfermidades não o afligiu? Como corrompeu os frutos da terra e as águas do Nilo? Como, acrescentando flagelos a flagelos, Ele feriu com outras dez pragas aquele miserável reino? E como, declarando-se Ele mesmo o defensor de nossos pais, que Ele destinava para seus sacerdotes, os fez sair de lá e os guiou, sem que, no meio de tantos perigos, um só perdesse a vida?
“Quando os filisteus tomaram-nos a arca da aliança e ousaram com suas mãos impuras tocá-la, que não sofreu a Filístia? O simulacro de Dagom, não caiu aos seus pés? E aqueles que se vangloriavam de no-lo ter arrebatado, sentindo suas vísceras estraçalhadas por dores horríveis, não foram obrigados a no-la restituir, ao som de címbalos e de trombetas para procurar, pela expiação de seu crime, aplacar a cólera de Deus, que se declarava tão altamente o protetor de nossos antepassados, porque em vez de recorrer às armas eles punham somente nEle sua confiança?
“Quando Senaqueribe, rei da Assíria, seguido da força de toda a Ásia, veio sitiar a capital da Judéia, sucumbiu ela sob um poder tão prodigioso e nossos avós recorreram às armas para se defender? As únicas a que se entregaram foram às orações e aos votos; e o anjo do Senhor exterminou quase inteiramente, numa só noite, aquele temível exército. Os assírios viram no dia seguinte, ao despontar do sol, cento e oitenta e cinco mil dos seus estendidos mortos por terra; e embora os judeus não pensassem em perseguir os que restavam, seu terror foi tal, que eles fugiram com tanto medo, como se já se sentissem atravessados pela ponta de suas espadas.
“Não sabeis também que nossa nação, tendo sido durante setenta anos escrava em Babilônia, ela reconquistou sua liberdade, quando o Senhor inspirou a Ciro que lha desse e que depois que esse grande príncipe os fez partir para seu país, eles recomeçaram a oferecer sacrifícios a Deus, como a seu verdadeiro libertador?
“Mas, para não me delongar demasiado a este propósito, que grandes feitos jamais realizaram nossos predecessores, quer pelas armas, quer sem elas, com uma assistência particular de Deus, cumprindo suas ordens? Eles venciam sem combater, quando lhe aprazia dar-lhes a vitória; e eram sempre vencidos quando combatiam sem consultá-lo e sem obedecer-lhe. Será preciso uma prova melhor do que esta? Quando Nabucodonosor, rei da Babilônia, sitiou Jerusalém e Zedequias, nosso rei, teimou em se defender, contra a advertência do profeta Jeremias, ele foi preso, levado escravo e viu destruir diante de seus olhos a cidade e o Templo, embora esse príncipe e seu povo fossem muito mais moderados que vossos chefes e vós? Esse mesmo profeta, declarando que Deus, para castigá-los de seus crimes, permitiria que eles fossem feitos escravos, se não se entregassem nem abrissem suas portas aos inimigos, Zedequias e seu povo não tentaram contra sua vida? E vós, sem se falar no que se passa dentro de vossas muralhas, porque não há palavras capazes de descrever os horríveis excessos de tantos crimes, vós me injuriais, vós atirais dardos para me matar, porque vos falo de vossos pecados e não podeis tolerar que eu censure o que não tivestes vergonha de fazer.
“Quando o rei Antíoco Epifânio veio a sitiar essa praça, não sucedeu também uma outra coisa que confirma o que acabo de referir? Nossos antepassados, em vez de confiar no auxílio de Deus, quiseram ir contra Ele; travou-se o combate e eles perderam. A mortandade foi geral, a cidade foi tomada, saqueada, destruída; o Santuário, manchado e profanado, o serviço de Deus abandonado durante três anos e meio.
“Não seria supérfluo acrescentar outros exemplos a tantos já citados? Quem nos levou à guerra contra os romanos, senão nossas divisões e nossos crimes? Não foi essa a causa principal de nossa escravidão, quando da contestação entre Aristóbulo e Hircano, animando-lhes o furor, um contra o outro, deu motivo a Pompeu de atacar Jerusalém e fez que Deus submetesse os judeus aos romanos porque o mau uso que eles faziam da liberdade os tornavam indignos de gozar da mesma? Assim, embora nada eles tivessem feito contra a religião e contra nossas leis, em comparação com os tantos crimes que cometestes, e eles tivessem muito mais recursos que vós, para sustentar a guerra, não puderam manter o assédio que durou três meses.
“Não sabemos qual o fim de Antígono, filho de Aristóbulo, e de que modo Deus permitiu, durante seu reinado, que o povo caísse em outra servidão por causa de seus pecados? Herodes, filho de Antípatro, ajudado por Sósio, general de um exército romano, não sitiou também Jerusalém? Deus para castigar a im-piedade daqueles que a defendiam não permitiu que ela fosse tomada e saqueada.
“Não é evidente então que jamais o caminho das armas nos não foi favorável em semelhantes ocasiões, mas que os assédios que sustentamos nos foram sempre funestos? Não tenho pois eu razão em acreditar que aqueles que ocupavam um lugar tão sagrado, como o Templo, devem, sem confiar em forças humanas, abandonar-se inteiramente ao governo de Deus, quando sua consciência não lhes censura ter desobedecido às suas leis? Mas haverá uma das ações que mais Ele tem em abomi-nação, que não a tenhais cometido? E de quanto sobrepujais em impiedade àqueles que vimos tão repentinamente feridos pelos raios da sua justiça? Os pecados ocultos, como os latrocínios, as traições, os adultérios, vos parecem muito comuns. Praticais a porfia, a rapina, os assassínios e inventastes mesmos novos crimes. Fazeis do Templo vosso refúgio, e esse lugar sagrado, tão respeitado pelos romanos, que lá adoravam a Deus, embora o culto que nós lhe prestamos não esteja de acordo com sua religião, foi conspurcado pelos sacrilégios daqueles cujo nascimento obriga à observância de suas leis e que são o seu mesmo povo. Podeis esperar, depois de tudo isso, ser ajudado por aqueles a quem ofendeis com tantos crimes? São justos? Estais em estado de suplicantes? Vossas mãos são puras como eram as do nosso rei, quando implorava o auxílio do céu, contra os assírios e Deus fez morrer numa só noite todo seu exército? Ou podeis dizer que os romanos, agindo como faziam os assírios, tendes motivo de esperar que Deus os castigará do mesmo modo? Mas não sabeis que seu rei, depois de ter recebido dinheiro nosso para compensar o saque da cidade, não temeu violar o juramento e incendiar o Templo? Os romanos, ao contrário, só vos pedem o pagamento do tributo que vossos antepassados solenemente se comprometeram e lhe pagavam. Dando-lhes essa satisfação, eles não saquearão vossa cidade nem tocarão nas coisas santas; continuareis livres com vossas famílias, gozareis pacificamente de todos os vossos bens e não sereis perturbados na observância de vossas santas leis. Não é pois loucura imaginar que Deus tratará os que o irritam continuamente com suas ofensas da mesma maneira como Ele trata os que agem com tanta moderação e justiça? Nada é capaz de adiar por um momento sequer a sua vingança, quando Ele está resolvido a executá-la. Exterminou Ele os assírios na primeira noite, quando sitiaram aquela cidade. Se sua vontade era libertar-vos e castigar os romanos, Ele lhes teria já feito sentir os efeitos de sua cólera, como os fez sentir a esse temível povo e como os fez experimentar à nossa nação, quando Pompeu entrou pela brecha em Jerusalém, quando Sósio, depois dele, também a tomou, quando Vespasiano devastou a Galiléia e, enfim, quando Tito veio organizar esse grande assédio. Mas nem Pompeu, nem Sósio encontraram obstáculo algum, do lado de Deus, que os tenha impedido de executar seu empreendimento; a guerra que Vespasiano nos fez o elevou ao império; e parece que a mesma natureza quis fazer um esforço, em favor de Tito, pois a fonte de Siloé e as outras que estão fora da cidade, que eram tão minguadas antes de sua vinda, a ponto de para se ter água, ser preciso gastar dinheiro, agora a fornecem em tal abundância que basta não somente para o exército romano, mas até mesmo para se regarem os jardins. E a mesma coisa aconteceu quando esse rei de Babilônia, de que falei, sitiou a cidade, tomou-a e a incendiou, bem como o Templo, embora eu não me possa persuadir de que a impiedade de nossos antepassados, que lhes trouxeram semelhante mal, fossem comparáveis às vossas. Não tenho motivo de crer que Deus, vendo esses santos lugares, consagrados ao seu serviço, conspurcados por tanta abominação, vos abandonou, para se colocar do lado dos que vós combateis? Quando um homem de bem vê que tudo está corrompido em sua família, ele a deixa e muda em ódio o afeto que lhe tinha. Vós quereríeis que Deus, ao qual nada está oculto e que, para conhecer os pensamentos mais secretos dos homens, não tem necessidade de que eles lho digam, ficassem convosco, embora sejais culpados dos maiores de todos os crimes, e eles sejam, tão notórios que todos os conhecem, e pareça que altercais, para ver quem é, dentre vós, o mais malvado e embora vos glorifiqueis com o vício, como os outros o fazem com a virtude? Entretanto, pois que Deus é tão bom, que se deixa comover pelo arrependimento e pela penitência, resta-vos um meio de salvação. Deixai as armas; tendo vosso coração traspassado de dor, por verdes vossa pátria reduzida a tão grave contingência, abri os olhos para considerar a beleza dessa cidade, a magnificência desse Templo, a riqueza dos presentes oferecidos a Deus por tantas e tão diversas nações e concebei horror por expô-los ao saque. Considerai que sua ruína não poderia ser atribuída, senão a vós somente, pois que somente a vossa teimosia será o facho que irá acender o fogo destruidor que há de reduzir a cinzas as coisas, deste mundo, mais dignas de serem conservadas. Se vosso coração, mais duro que o mármore, é insensível ao que deveria tão sensivelmente tocá-lo, tende pelo menos compaixão de vossas famílias e cada qual ponha diante dos olhos sua esposa, seus filhos, seus parentes, prestes a perecer pelo ferro ou pela fome. Dir-se-á talvez que, o que me faz assim falar é o desejo de salvar da ruína comum, minha mãe, minha esposa e meus filhos, cuja descendência é tão ilustre, para merecer que os consideremos. Mas para assim mostrar que é somente o vosso interesse que me faz assim falar, vos entrego suas vidas, e vos entrego a minha e considerar-me-ei feliz de morrer, se minha morte vos puder tirar dessa deplorável cegueira, que vos fazendo correr para vossa própria ruína, vos levou até as bordas do precipício”.
Assim terminou Josefo suas palavras, derramando muitas lágrimas. Mas não conseguiu comover os rebeldes, nem persuadi-los de que encontrariam sua salvação na conversão. O povo, ao contrário, ficou muito comovido e pensou em se salvar, fugindo. Muitos venderam o que tinham de mais precioso, por alguma pequena quantidade de peças de ouro, de medo que os rebeldes os apanhassem e fugiram para junto dos romanos. Tito permitiu-lhes refugiar-se em qualquer lugar do país que eles escolhessem. Essa liberdade que lhes deu aumentava ainda mais nos outros o desejo de se livrar, pela fuga, dos males que suportavam. Mas João e Simão puseram guardas nas portas com ordem de não deixar sair os judeus, bem como entrar os romanos; e ante a menor suspeita eram mortos os que se pensava estar dispostos a fugir.
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