Capítulo 27 – Horrível carestia aflige Jerusalém; crueldade incrível dos revoltosos.

Era igualmente perigoso para os ricos ficar ou fugir, porque era suficiente possuir bens para ser assassinado. Entretanto, a carestia, crescendo sempre, fazia crescer também o furor dos revoltosos; e à medida que se avançava, mais esses dois males juntos produziam terríveis efeitos. Como não havia mais trigo, esses inimigos da pátria, que tinham acendido o fogo da guerra, entravam à força nas casas para procurá-lo. E, se o encontravam, acusavam-nos de o ter ocultado, maltratavam-nos, fazendo-os sofrer, para obrigá-los a lhes revelar o esconderijo e era suficiente proce­der bem, para logo ser tido como culpado desse pretenso crime. Aqueles que esta­vam reduzidos ao extremo, eles deixavam-nos morrer de fome, poupando a si mes­mos o trabalho de matá-los. Vários ricos venderam secretamente todos os seus bens por uma medida de trigo; e os mais desprendidos, por apenas uma medida de cevada. Encerravam-se depois nos lugares mais ocultos de suas casas, onde alguns comiam esse grão, sem ser moído, outros reduziam-no a farinha segundo a necessi­dade ou temor lho permitia. Não se viam mais mesas postas; cada qual tirava de debaixo do carvão o que comer, sem se dar ao trabalho de o deixar cozer. Jamais se poderia ver miséria tão deplorável. Somente aqueles que tinham o poder nas mãos não a experimentavam. Todos os demais lamentavam inutilmente sua desgraça e como a fome não se disfarça, as mulheres arrancavam o pão da mão de seus mari­dos, as crianças, das mãos de seus pais, e o que supera toda a credulidade, as mães, das mãos de seus filhos. Mas os que assim faziam não podiam, nem se escondendo, evitar que se lhes viesse a arrebatar o que já tinham tirado dos outros. Quando a porta de uma casa se fechava, a suspeita de que aqueles que lá estavam tinham alguma coisa para comer, os fazia arrombá-las, para entrar e para lhes tirar o pedaço da boca. Espancavam os velhos que não os queriam entregar, agarravam pela gar­ganta as mulheres que escondiam o que tinham nas mãos e sem ter nem mesmo compaixão das crianças, que ainda mamavam, atiravam-nas ao chão depois de te­rem sido arrancadas do peito das suas mães. Os que corriam para tirar o pão dos outros, iravam-se com os que corriam mais do que eles, como se os tivessem injuriado gravemente e não havia tormentos que não se inventassem para encontrar um meio de viver. Penduravam os homens pelas partes mais sensíveis, fincavam-lhes na carne pedaços de pau pontiagudos e os faziam sofrer outros indizíveis tormentos, para fazê-los declarar onde tinham escondido um pão ou um punhado de farinha. Esses carrascos achavam que, em tal conjuntura, podia-se, sem crueldade, praticar tão horríveis ações e eles ajuntaram, por esse meio, o necessário para viver seis dias. Tiravam dos pobres as ervas que de noite eles iam colher fora da cidade, com perigo de vida; nem escutavam os rogos que lhes faziam, em nome de Deus, para lhes deixar uma pequena porção e julgavam fazer-lhes grande favor, não os matando depois de os ter roubado.

Assim essa pobre gente era tratada pelos soldados. Quanto às pessoas da no­breza eram levadas aos tiranos, que autorizavam todos os crimes; e com falsas acusações eles faziam morrer a muitos como tendo tomado parte nalguma conspi­ração, para entregar a cidade aos romanos; a maior parte, com o pretexto de que queriam fugir para junto deles. Simão mandava a João os que ele tinha despojado de seus bens e João mandava a Simão os que ele tinha tratado do mesmo modo. Dessa forma eles se divertiam com o sangue do povo e dividiam entre si os despo-jos desses infelizes. A paixão de dominar os separava, mas a conformidade de suas ações os unia; e entre ambos passava por mau aquele que não fizesse participante, ao outro, de seus roubos, como se fosse grave injustiça não lhe dar o que aquela detestável sociedade de crimes fazia merecer mais do que o outro.

Seria tentar coisa impossível querer relatar detalhadamente toda a crueldade des­ses ímpios. Contento-me em dizer que não creio, que desde a criação do mundo se tenha visto outra cidade sofrer tanto, nem outros homens cuja malícia fosse tão fecunda em toda sorte de maldade. Eles amaldiçoavam mesmo aos do seu país, para tornar mais suportável aos estrangeiros a sua raiva e seu furor para com eles e como a maldade corrompe de tal modo o ar, quando chega ao auge, tanto que não se pode mais ocultar, mas se manifesta por si mesma, a verdade obrigou esses celerados a confessar que eles eram escravos, gente ajuntada, abortos, escória de nossa nação. Eles podem-se vangloriar da glória que lhes cabe, de ter destruído Jerusalém, de ter obrigado os romanos a conseguir tão funesta vitória e de merecerem ser considera­dos como incendiários do Templo, pois que muito mais tarde foram dominados. Eles viram as chamas devorar a cidade alta, sem demonstrar o menor sentimento de dor, nem derramar uma única lágrima, embora muitos romanos fossem tomados desses mesmos sentimentos de humanidade. Mas devemos falar agora mais particularmen­te dessas coisas, na continuação da nossa história.

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