Capítulo 28 – Muitos dos que fugiam de Jerusalém, tendo sido atacados pelos romanos e aprisionados depois de se terem defendido, eram crucificados à vista dos outros judeus. Mas os rebeldes, em vez de se comoverem, tornavam-se ainda mais insolentes.

Tito, entretanto, fazia as plataformas avançarem sempre mais, embora os que nelas trabalhavam fossem mui perturbados pelos judeus que defendiam as muralhas. Ele mandou então uma parte de sua cavalaria colocar-se de emboscada nos vales a fim de apanhar os que saíam para buscar alimentos, dentre os quais havia também soldados não satisfeitos com o que roubavam na cidade; mas a maior parte era do baixo povo, que o temor de deixar suas esposas e seus filhos expostos à raiva daqueles celerados impedia de fugir e a fome obrigava a sair. A necessidade e o temor do suplício os obrigavam a se defender quando eram descobertos e atacados; e como não podiam esperar misericórdia, depois de se terem defendido, não a pediam também, e eram assim crucificados a vista dos que estavam na cidade. Tito achava que havia naquilo muita crueldade, pois não se passava um dia sem que não se apanhassem pelo menos uns quinhentos e, às vezes, mais; ele não via porém possibilidade de fazer voltar, àqueles que haviam sido aprisionados; achava muita dificuldade em prendê-los, por causa de seu número e ele esperava que a vista de um espetáculo tão terrível poderia impressionar os judeus da cidade, pelo temor de serem tratados do mesmo modo, pois o ódio e a raiva de que os soldados romanos estavam possuídos, faziam sofrer àqueles míseros, antes de morrer, tudo o que se pode esperar da insolência de soldados. Não eram suficientes as cruzes, e havia já falta de lugar, para tantos instrumentos de suplício. Eles levavam para as muralhas, amarrados com cordas, os amigos daqueles que haviam fugido e aqueles dentre o povo que mais mos­travam desejar a paz, e diziam que eles estavam nas mãos dos romanos, não como prisioneiros, mas como suplicantes. Esse estratagema deteve por um tem­po a vários que tinham intenção de fugir, mas logo que vieram a sabê-lo, um grande número deles se foi, sem que o temor do suplício, que eles não duvida­vam lhes estava preparado, os pudesse reter, e a morte que recebiam das mãos dos inimigos parecia-lhes suave em comparação com o que a fome e a miséria os faziam sofrer. Tito mandou cortar as mãos a vários e os mandou nesse estado a João e a Simão para lhes mostrar, com esse tratamento excessivamente severo, que eles não eram desertores e mostrar-lhes que eles deviam pelo menos então deixar de querer obrigá-lo a destruir a cidade e pensar antes naquela contingên­cia extrema em salvar a vida, sua pátria e aquele Templo, ao qual nenhum outro se podia comparar. Mas ao mesmo tempo ele apressava os trabalhos para reduzir pela força àqueles que não podia convencer pela razão.

Os malvados, porém, do alto das muralhas faziam mil imprecações contra Vespasiano e contra Tito; diziam que desprezavam a morte, porque lhes era glo­rioso preferi-la a uma vergonhosa escravidão e que conservariam até o último suspiro o desejo de mostrar aos romanos que eles não punham limites aos males que gostariam de lhes poder causar. No que se referia à sua pátria, pois Tito mesmo lhes dizia que estavam perdidos, eles não tinham razão de se entristecer. Quanto ao Templo, Deus tinha um outro infinitamente maior e mais admirável, porque o mundo inteiro era seu Templo, o que não impedia que ele não pudesse conservar aquele no qual habitava e que, tendo-o por defensor, zombavam da­quelas ameaças, que não podiam, se Ele não o permitisse, serem seguidas de seus efeitos. Era assim que aqueles malvados respondiam com insolência às ra­zões que os deveriam persuadir.

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