Capítulo 15 – João de Giscala, que fingia estar do lado do povo o trai, passa para os zelotes e os persuade a chamar os idumeus em seu auxílio.

Assim, o partido do povo era o mais forte; mas João, que sabemos ter fugido de Giscala, foi a causa de sua ruína. Como ele era muito mau e tinha desmedida ambição, havia muito tempo que acariciava a idéia de erguer sua fortuna particular, sobre as ruínas da pública. Para conseguir o seu intento, fingiu unir-se a Anano e querer secundar seu zelo. Por esse motivo assistia, durante o dia, com os seus auxiliares mais importantes a todas as suas reuniões e conse­lhos, e visitava de noite todos os guardas; depois informava os zelotes de tudo o que se passava e os tinha bem avisados de que o povo não tomaria uma delibe­ração qualquer, sem que ele logo lha comunicasse. Mas, ao mesmo tempo, a fim de impedir que sua maldade fosse descoberta, não havia atenções que ele não dispensasse a Anano e aos outros chefes do povo, nem solicitude que não tomas­se, para lhes ser agradável. Ia a tal excesso a sua gentileza que chegou a produzir um efeito contrário naqueles que ele pretendia trair. Sua excessiva complacên­cia, o fato de ele assistir a todos os conselhos, sem ser chamado, e ainda Anano, vendo que os inimigos eram avisados de tudo, por fim, veio a suspeitar dele. Mas era difícil e mesmo impossível afastá-lo, tanto ele era esperto e conseguira con­quistar a confiança dos que tinham a direção de todos os negócios. Assim, jul­gou-se que o melhor que se podia fazer era obrigá-lo com juramento a ser fiel ao povo, a conservar em segredo todas as deliberações e a servir-se delas, com todas as suas forças, contra os rebeldes. O traidor não hesitou em fazer o jura­mento; então Anano e os outros, confiando na sua palavra, não somente não tiveram dificuldade em admiti-lo em todos os conselhos, mas o escolheram para levar aos zelotes propostas de um acordo, tanto temiam que, por sua culpa, o Templo fosse manchado com o sangue de algum dos judeus. O pérfido homem foi falar com os zelotes e fez um papel totalmente contrário. Como se o juramen­to que fizera houvesse sido em favor deles e não contra, disse-lhes que não havia perigos aos quais não se havia exposto para informá-los de todos os intentos de Anano e vinha avisá-los de que todos não tinham ainda passado tão grande perigo se Deus não os ajudasse, porque Anano tinha persuadido o povo a pedir auxílio a Vespasiano, rogando-lhe que viesse imediatamente tomar posse da ci­dade, e tinha declarado que no dia seguinte todos se purificariam, a fim de que, com o pretexto de piedade, entrassem, por bem ou por mal, no Templo; que ele não via, no estado em que as coisas se encontravam, como resistir por mais tempo a um cerco, contra tão grande número de inimigos. Mas, que por uma providência particular de Deus, ele lhes tinha sido mandado, para fazer propos­tas de acordo, com o fim de que Anano tinha de surpreendê-los e de atacá-los quando menos o suspeitassem; que eles, para se salvar, tinham um único meio, isto é, tomar um destes dois partidos: ou entregar-se, suplicando a vida aos que os mantinham cercados, ou pedir auxílio estrangeiro para se porem em condi­ções de lhes opor resistência, pois, do contrário, estariam vencidos e não poderi­am esperar obter deles o perdão de tantos males, que lhes tinham feito, por maior arrependimento que mostrassem; e, ao contrário, seu desejo de se vingar aumentava sempre mais, quando se vissem em condições de poder fazê-lo, sem temor; que nada havia que eles não devessem temer dos parentes e dos amigos, dos que eles haviam matado e do furor que dominava o povo por causa da abolição de suas leis e de seus costumes, mas que quando mesmo alguns estives­sem dispostos a perdoá-los, eles seriam obrigados a ceder à sua violência.

João, com estas palavras falsas e fingidas, lançou o terror no espírito dos zelotes; não lhes declarou abertamente qual o socorro com que eles se deveriam fortalecer; entretanto, via-se que ele queria falar dos idumeus. Dizia em particu­lar aos chefes dos zelotes que Anano era um homem cruel e que era particular­mente deles que ele se tinha resolvido vingar. Eleazar, filho de Simão, e Zacarias, filho de Anficano, ambos de família sacerdotal, eram dos principais chefes e ne­nhum outro era tão importante como Eleazar, quer pela prudência quer pela ação. Como o discurso de João os havia persuadido de que a intenção de Anano era fortalecer o seu partido, com o auxílio dos romanos, e que eles tinham ódio particular contra eles, não sabiam o que fazer nas diversas contingências do momento, porque, de um lado, julgavam que o povo estava prestes a atacá-los e eles viam, por outro, que o auxílio proposto estava tão longe que se julgavam perdidos antes que pudessem obter. Mas, por fim, determinaram pedir o auxílio dos idumeus e escreveram-lhes dizendo que Anano, depois de ter enganado o povo, queria entregar a cidade aos romanos; eles se tinham retirado ao Templo para não abandonar a defesa da liberdade pública; que eles tinham sido cercados e estavam prestes a ser atacados, se não se impedisse, com um auxílio imediato, que eles caíssem nas mãos dos inimigos e a cidade, nas dos romanos. Encarrega­ram os portadores dessas cartas de dizer verbalmente várias outras coisas aos daquela nação que tinham mais autoridade; as pessoas que escolheram para essa incumbência chamavam-se ambos Ananias, ambos muito corajosos, eloqüentes e capazes de persuadir e o que mais importava, aptos para desempe­nhar tão importante incumbência. Estavam eles certos de que os idumeus viriam imediatamente, porque esse povo é tão brutal e tão amigo das novidades, que nada é mais fácil do que induzi-los à guerra e ele vai com a mesma alegria para um combate como os outros, para uma festa.

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