Capítulo 16 – Os idumeus vêm em socorro dos zelotes; Anano recusa-lhes a entrada em Jerusalém. Discurso que Jesus, um dos sacerdotes, lhes faz do alto de uma torre. A resposta.
Aqueles enviados conseguiram sair, sem que Anano nem as sentinelas não só lhes impedissem a passagem, mas nem mesmo vieram a saber do que acontecia; os governadores da Iduméia apenas receberam as cartas, correram como loucos por todo o país, incitando os outros à guerra.
Todos tomaram das armas, com tanto entusiasmo para defender a liberdade da capital, que, em menos tempo de que se poderia imaginar, reuniram-se uns vinte mil, comandados por quatro chefes: João e Tiago, filhos de Sosa, Simão, filho de Catlas, e Finéias, filho de Clusote.
Ante o aviso de que os idumeus estavam para chegar, Anano resolveu não os deixar entrar na cidade e colocou guardas nas defesas e nas trincheiras. Não julgou, entretanto, conveniente tratá-los como inimigos, mas procurou com razões levá-los à paz; Jesus, que era o mais antigo dos sacerdotes, falou-lhes a esse respeito, do alto de uma torre, de onde podiam muito bem ouvi-lo: “No meio”, disse-lhes ele, “de tantas perturbações e males que afligem a capital da nossa nação, nada é mais surpreendente, pelo que nos parece, que a sorte conspira juntamente com os piores homens do mundo para destruí-la. Que há de mais estranho do que virdes contra nós em favor desses celerados, com a mesma solicitude como se nós vos tivéssemos chamado em nosso auxílio, para nos defender contra esses bárbaros? Se tínheis a mesma intenção que aqueles que vos fizeram vir, não haveria motivo de nos admirarmos, pois nada une mais os homens do que a conformidade de sentimentos. Mas como os vossos podem ter relação com os desses malvados, pelos quais vos declarais? Não poderíamos considerar suas ações, sem ver que não há suplícios que eles não mereçam. Eles são o que há de mais vil do povo dos campos, que depois de ter gasto na devassidão o pouco de bens que possuíam, e pilhado em seguida as vilas e aldeias, não sentiram temor de vir a esta cidade santa, não somente para continuar a praticar roubos e assaltos, mas para acrescentar os assassínios aos roubos e sacrilégios. O bem dos que eles massacram só servem para satisfazer à sua ambição; e pela mais horrível de todas as profanações eles se embriagam mesmo aos pés do altar. Vós vindes, ao contrário, armados, como soldados prontos a combater, como se esta capital tivesse recorrido ao vosso auxílio, para resistir a inimigos externos. Assim, não tenho razão de dizer, que parece que a sorte seja tão injusta que conspira convosco em favor daqueles celerados contra vossa própria nação? Confesso não poder compreender de onde vem essa deliberação tão pronta que tomastes, nem que razão vos pode levar a auxiliar homens tão detestáveis contra um povo que é vosso aliado. Será que vos disseram que nós queremos chamar os romanos e trair nossa pátria? Pois eu sei que alguns dentre os vossos disseram que viestes para impedir que Jerusalém seja escravizada. Se for assim, jamais poderei compreender a maldade daqueles que ousaram inventar tão negra calúnia. Há, entretanto, motivo de crer que vos querem persuadir disso, pois, amando tanto a liberdade como vós a amais e estando sempre prontos a combater para impedir que ela sucumba sob uma dominação estrangeira, puderam incitar-vos contra nós, declarando-vos falsamente, que nós éramos tão covardes a ponto de suportar escravidão. Mas, considerai, eu vos rogo, quem são os que nos caluniam desse modo e julgai da verdade, não por palavras vãs, mas com provas sólidas e evidentes. Que vantagem há de que, depois de nos termos expostos a tantos perigos, para conservarmos nossa liberdade, queiramos agora receber os romanos, como senhores? Não podíamos ou não sacudir o seu jugo ou depois de tê-lo sacudido voltar à obediência sem esperar que eles devastassem nossos campos e assaltassem nossas cidades? Mas, mesmo quando quiséssemos tratar com eles, podê-los-íamos fazê-lo agora, que a conquista da Galiléia aumentou tanto a sua altivez e ousadia? Não seria a morte muito mais suportável do que a vergonha de dobrar os joelhos diante deles, quando os víssemos se aproximar de nossas muralhas? Acusam-se alguns dos principais dentre nós de ter tratado secretamente com os romanos, ou acusa-se todo o povo de tê-lo feito depois de uma deliberação geral. E se forem somente alguns particulares que se acusam, devemos então dizer que são nossos amigos ou domésticos que empregamos nessa traição e apresentar pelos menos um que tenha sido preso nesse mister com documentos em seu poder. Se tudo isso fosse verdade, como algum desse grande número que somos, nada teria descoberto? Como, ao contrário, esses poucos homens, encerrados no Templo, sem poder sair para entrar na cidade, como poderiam ter tido conhecimento do que se estava tratando secretamente? Quando eles não se julgavam em perigo, nós éramos tidos como traidores, e agora, precisamente, quando estão a ponto de receber o castigo de seus crimes, inventaram essa calúnia. E se a todo o povo se acusa de ter entrado em entendimentos com os romanos, deveria tal deliberação ter sido tomada num conselho ou assembléia geral. Se assim fosse, não o teríeis sabido tão depressa, não somente por uma notícia vaga e geral, confusa, mas por meio de alguém, que vos teria sido enviado expressamente, para vos avisar de uma coisa tão importante? Quem não vê que se nós nos quiséssemos submeter aos romanos, não precisaríamos nem de tratados, nem de embaixadores? Ninguém se pode citar, que tenha sido escolhido para esse fim; são suposições de pessoas que se vêem à borda do precipício e se essa cidade fosse tão infeliz por ter que perecer por uma traição, somente aqueles que nos acusam falsamente seriam capazes de acrescentar este último crime a tantos outros que cometeram, a fim de completar, por uma tão vergonhosa suposição e uma tão negra perfídia, a medida de seus sacrilégios e de suas impiedades. Estando armados como estais, não vos obriga a justiça a vos unirdes a nós para exterminarmos esses tiranos que espezinharam todas as nossas leis, para fazer reinar em seu lugar o assassínio e a violência; que depois de ter ousado eliminar, à vista de todos, homens da mais ilustre nobreza, inocentes, acorrentaram-nos, encerraram-nos em cárceres e por fim assassinaram-nos? Quando tiverdes entrado na cidade como amigos e não como inimigos, podereis constatar com vossos próprios olhos, a verdade do que vos estou dizendo. Vereis as casas saqueadas, as mulheres e os parentes dos que foram tão cruelmente massacrados vestidos de luto, e por toda parte gemidos e lágrimas, porque não há ninguém que não tenha experimentado os efeitos da raiva desses ímpios; a desolação é geral. Seu furor chegou ao excesso, pois não se contentando de ter devastado todos os campos e saqueado as cidades, eles não pouparam nem mesmo ao que podemos dizer ser o chefe, o ornamento e a glória da nossa nação; e por uma ousadia criminosa que sobrepuja toda imaginação, eles se apoderaram do Templo de Deus. Foi desse lugar sagrado que eles nos atacaram; esse lugar sagrado lhes serviu de abrigo, quando os perseguimos, e, por fim, é esse lugar santo que lhes fornece um arsenal de armas de que eles se servem para nos atacar e para se defender. Assim, esses monstros de impiedade nascidos entre nós, gloriam-se de calcar aos pés a augusta casa do Senhor, a qual todas as nações da terra respeitam e veneram. Sentem alegria em ver tudo levado ao excesso; cidades armadas contra cidades, povos contra povos, e províncias inteiras conspirarem para sua própria ruína. Que há pois de mais digno do que unirdes vossas armas às nossas para exterminar esses malvados, castigá-los pelos embustes e injúrias que vos fizeram, quando, em vez de vos temer, como vingadores de seus crimes, eles vos chamaram em seu auxílio? Se julgais dever ter alguma consideração às suas palavras, podeis, sem que vossas tropas sejam consideradas, nem como inimigas nem como auxiíiares, entrar sem armas na cidade e julgar sobre as nossas questões. Pois ainda que não vejamos o que poderiam alegar em sua defesa esses sediciosos, manifestamente culpados de tantos crimes, e que não somente não permitiram abrir a boca a tantos homens de bem que eles cruelmente fizeram morrer, sem que tivessem sido acusados, nós consentimos que vossa chegada lhes conceda essa graça. Mas se não quereis nem tomar parte na nossa justa indignação contra esses ímpios, nem serdes juizes entre eles e nós, não vos resta que um terceiro partido a tomar, isto é, ficar neutros, sem ofender à nossa desgraça nem vos unirdes àqueles que pretendem destruir esta cidade metropolitana; se tendes ainda suspeitas de que algum de nós tenha tratado com os romanos, podereis colocar homens em todos os caminhos para surpreendê-los e castigá-los severamente, se isso for verdade; mas se todas essas razões não vos impressionarem, não deveis julgar estranho que nós vos fechemos nossas portas, até que tenhais deixado as armas”.
Jesus, assim falando, irritou ainda mais os idumeus por verem que se lhes impedia a entrada na cidade e muito mal o escutaram; seus chefes não podiam tolerar, igualmente, a proposta de deixar as armas, porque consideravam como um sinal de escravidão essa submissão a uma autoridade que não tinha nenhum direito de dar ordens. Assim, Simão, filho de Catlas, um deles, depois de ter com muita dificuldade acalmado a multidão, subiu a um luqar elevado, de onde podia ser ouvido pelos sacerdotes e lhes falou nestes termos: “Não me admiro por ver que sitiais no Templo os defensores da liberdade pública, pois nos fechais as portas de uma cidade, cuja entrada deve ser livre a todos de nossa nação e sem dúvida vos ides coroar de flores, para receber os romanos. Vós vos contentais de nos falar do alto de uma torre, e quereis nos obrigar a deixar as armas que tomamos pela liberdade pública. Em vez de vos servirdes delas para a defesa de nossa capital, vós nos propondes sermos juizes de vossas questões; ao mesmo tempo, quando acusais os outros de ter feito morrer alguns dos vossos cidadãos, sem que tenham sido condenados, vós vos condenais a vós mesmos e a toda a nossa nação, pelo ultraje que fazeis aos vossos irmãos, recusando-nos a entrada de uma cidade, o que não se faz nem mesmo aos estrangeiros que a ela vêm trazidos pela piedade. E assim que reconheceis os favores que nos deveis por termos tão prontamente tomado as armas e feito tanto esforço para vos vir ajudar e para vos manter livres? Devemos prestar fé às vossas acusações contra os que estão cercados? E que o fazeis unicamente para impedir os efeitos de sua tirania, recusando a todos a entrada em vossa cidade, quando vós mesmos pretendeis exercer sobre nós uma verdadeira tirania, obrigando-nos a obedecer às vossas ordens imperiosas e injustas? Tão grande contradição entre vossas palavras e vossas ações não é talvez intolerável? Vós nos recusais, recusando-nos a entrada em vossa cidade, a liberdade de oferecer sacrifícios a Deus, como fizeram nossos antepassados, e vós acusais ao mesmo tempo os que tendes cercados no Templo, porque eles castigaram traidores, aos quais vós dais o nome de inocentes e pessoas de condição. A única falta que eles cometeram, foi não terem começado por vós, que tínheis parte mais que qualquer outro em tão infame traição. Mas se seu proceder foi tão fraco, o nosso será mais vigoroso, nós conservaremos a casa de Deus, defenderemos nossa pátria comum, contra os inimigos estrangeiros e domésticos; conservar-vos-emos sempre sitiados até que os romanos vos venham libertar ou que o desejo de manter a liberdade vos faça voltar ao cumprimento do dever”.
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