Capítulo 26 – Josefo, não podendo dissuadir os que estavam com ele da resolução que tinham tomado de se matar, consegue induzi-los a tirar a sorte, para cada qual ser morto por companheiros e não por si mesmo. Somente ele, com um outro, restam com vida e entregam-se aos romanos. Ele é levado a Vespasiano. Sentimentos favoráveis de Tito para com ele.

Com estas e outras razões, Josefo tentou afastar seus amigos da funes­ta resolução que eles haviam tomado, mas os encontrou surdos à sua voz, porque seu desespero os havia levado a escolher a morte. Em vez de se acalma­rem, irritaram-se ainda mais, vieram a ele de espada na mão, censurando-lhe a fraqueza, e todos pareciam querer matá-lo. Em tão extremo perigo ele chama­va a um pelo nome; olhava para outro, como um general que sabe comandar e cuja virtude infunde respeito nos que estão acostumados a obedecer, tomou um outro pelo braço e assim desviava de vários modos os golpes dos que havi­am determinado sua morte, como um animal selvagem rodeado por vários caçadores volta a cabeça para aquele que está prestes a feri-lo. Por fim, como, apesar do furor que os incitava, não podiam deixar de respeitar um chefe, ao qual dedicavam tanta estima, sentiram seus braços enfraquecer, as espadas caíam-lhes das mãos e ao mesmo tempo, ao desferir os golpes, sentiam que seu afeto por ele opunha-se à cólera, diminuindo-lhes cada vez mais a força e tornando-a inútil.

Josefo, por seu lado, não perdeu a calma em tão grave perigo: confiando na proteção de Deus, assim lhes falou: “Pois que estais mesmo resolvidos a morrer, lancemos a sorte para ver quem deverá ser morto, por primeiro, por aquele que o seguirá; continuemos a fazer sempre do mesmo modo, a fim de que nenhum de nós se mate por si mesmo, mas receba a morte das mãos de um outro”. Essa proposta foi por todos recebida com alegria, porque não duvidavam de que ele também estaria no número dos mortos e que prefeririam à vida, uma morte co­mum a todos eles.

Foi então lançada a sorte e o que era determinado apresentava o pescoço ao que o devia matar. Isso continuou até que restavam somente Josefo e um outro; o que aconteceu, talvez, por uma especial proteção de Deus ou por casualidade.

Josefo, vendo que se lançasse a sorte, ela, ou lhe custaria a vida ou ele teria que manchar suas mãos no sangue de um amigo, aconselhou-o a viver, dando-lhe garantia de salvá-lo.

Assim, Josefo conseguiu escapar daquele tremendo perigo que correra, quer do lado dos romanos, quer dos de sua própria nação, e entregou-se a Nicanor. Este levou-o a Vespasiano e jamais interesse foi maior do que o dos soldados roma­nos em se reunirem junto do chefe para vê-lo. No meio do tumulto, notavam-se os vários sentimentos, pelas diversas maneiras de agir: uns demonstravam alegria, por ter ele sido aprisionado; outros, ameaçavam-no; outros apertavam-se ainda mais para vê-lo de perto; os que estavam mais afastados gritavam que se devia matar aquele inimigo do povo romano e os que estavam mais perto dele, lem­brando seus admiráveis feitos, comentavam as vicissitudes da sorte. Mas todos os chefes, embora antes irritados contra ele, sentiram seu ódio acalmar-se e Tito, mais que qualquer outro, pois tinha a alma muito nobre, pela grandeza da coragem que Josefo demonstrava em sua infelicidade e por sua idade, ainda em plena virili-dade, sentiu extrema compaixão. Considerando, além disso, que um homem que se tinha tornado temível em tantos combates, encontrava-se agora preso e escravo nas mãos dos inimigos, não podia admirar muito as vicissitudes da guerra e a inconstância das coisas humanas. Vários, imitando-o, foram favoráveis a Josefo e ele foi principalmente causa de que Vespasiano também a isso se inclinasse.

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