Capítulo 9 – Samuel prediz a Saul que Deus passará o reino a outra família. Mata Agague, rei dos amalequitas, e consagra Davi como rei. Saul, agitado por um demônio, manda chamar Davi, para que este o alivie cantando e tocando harpa.

Saul segurou Samuel pelo manto, para impedi-lo de sair. Por causa da resis­tência de Samuel, o manto rasgou-se. Disse-lhe então o profeta: “Vosso reino tam­bém será dividido e passará para a um homem de bem, porque Deus não se asseme­lha aos homens. Ele é imutável em suas determinações”. Saul confessou novamente que havia pecado, mas o que havia sido feito não podia mais deixar de ser, e por isso rogava que concordasse em pelo menos adorar a Deus com ele na presença de todo o povo. Samuel consentiu no pedido. Trouxeram-lhe imediatamente o rei Agague, e este queixou-se de que a morte que lhe queriam fazer sofrer era muito cruel. O profeta porém, disse-lhe: “Vós também obrigastes tantas mães israelitas a chorar a morte de seus filhos. É justo que a vossa morte faça também chorar a vossa mãe”. Depois de assim falar, mandou matá-lo e voltou a Rama.

Então Saul abriu os olhos e compreendeu a infelicidade em que havia caído, ofendendo a Deus. Foi para o palácio real, em Geba (que significa “coli­na”), e depois daquele dia não viu mais Samuel. O santo profeta, por seu lado, não podia deixar de lastimá-lo e de chorar por esse motivo. Deus então disse-lhe que se consolasse e tomasse o óleo para ir a Belém, à casa de Jessé, filho de Obede, consagrar rei aquele que dentre os seus filhos Ele indicasse. Samuel res­pondeu que se Saul o soubesse mandaria matá-lo, mas Deus lhe disse que nada temesse. Assim, ele foi a Belém, onde o receberam com alegria, e todos pergun­tavam o motivo de sua vinda. Ele respondia que era para oferecer um sacrifício.

Depois de oferecê-lo, pediu a Jessé que viesse cear com ele e trouxesse tam­bém o seu filho. Ele veio com o mais velho, de nome Eliabe, que era muito alto e de boa aparência. Samuel, vendo-o tão bem-apessoado, julgou que Deus esco­lhera aquele para rei. Porém conhecia mal a intenção dEle, pois, tendo-o consul­tado para saber se deveria derramar o óleo sobre o moço, que lhe parecia digno de reinar, Ele respondeu-lhe: “Eu não penso como os homens. Por verdes que esse é muito belo, vós o julgais digno de reinar. Não é a beleza do corpo que considero para dar uma coroa, mas apenas a da alma, cujos ornamentos são a piedade, a justiça, a generosidade e a obediência”. O profeta, após essa resposta, disse a Jessé que mandasse buscar todos os seus filhos. Vieram outros cinco: Abinadabe, Samá, Natanael, Rael e Asam, não menos belos que o mais velho. Samuel perguntou a Deus qual deles deveria ser sagrado rei, e Ele respondeu-lhe: “Não consagrareis nenhum deles”.

Então Samuel perguntou se Jessé tinha ainda algum outro filho. Ele respon­deu-lhe: “Tenho ainda um, de nome Davi, que guarda os meus rebanhos”. Dis­se-lhe que o mandasse chamar, porque era justo que tomasse parte no banquete com os irmãos. Ele veio: era loiro, muito belo, bem feito de corpo e tinha algo de marcial em seu porte. O profeta disse baixinho ao pai: “Foi este que Deus esco­lheu para ser rei”. Fez o moço sentar-se junto dele e, mais abaixo, o pai e os irmãos. Derramou óleo sobre a cabeça dele e disse-lhe ao ouvido que Deus o escolhera para ser rei e por isso ele deveria amar a justiça e observar religiosa­mente os seus mandamentos, assim o seu reino teria longa duração, e a sua posteridade seria também muito ilustre. Ele venceria não somente os filisteus, mas todas as outras nações às quais fizesse guerra, e a sua memória seria imortal. Samuel regressou depois dessas palavras, e o Espírito de Deus passou de Saul para Davi, o qual começou a profetizar.

Saul, ao contrário, foi tomado por um espírito mau, que parecia querer esganá-lo a todo instante. Os médicos não encontraram outro remédio para esse mal a não ser mandar algum músico competente cantar hinos sagrados, ao som de harpa, quando o demônio o agitasse. Procuraram por toda parte e disseram-lhe que somente uma pessoa poderia fazê-lo: um dos filhos de ]essé, de nome Davi, que era não somente excelente músico, mas também muito belo e capaz de servi-lo na guerra. Saul mandou então dizer ao pai de Davi que o dispensasse do encargo de vigiar os rebanhos e o mandasse, porque lhe haviam dito muitas coisas dele, e queria vê-lo. Jessé mandou-o logo a Saul, com vários presentes, e este o recebeu muito bem: deu-lhe um lugar como soldado e tratou-o bondosa­mente em tudo. Além de ser muito agradável ao rei, somente ele, com os seus cânticos e com o som de sua harpa, podia acalmá-lo e trazê-lo a bons sentimen­tos. Assim, Saul pediu a Jessé que o deixasse ficar, pois estava muito contente com a sua companhia.

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