Capítulo 10 – Os filisteus vêm atacar os israelitas. Um gigante, de nome Golias, propõe terminar a guerra por um combate singular, entre ele e um israelita. Ninguém responde ao desafio, mas Davi o aceita.

1 Samuel 17. Algum tempo depois, os filisteus vieram com um gran­de exército atacar os israelitas e acamparam entre as cidades de Soco e Azeca. Saul marchou logo contra eles e, tendo-se apoderado de uma colina, obri­gou-os a se retirar e acampar em outra que ficava em frente. Havia no exérci­to um gigante de nome Golias, que era de Gate e tinha seis côvados e um palmo de altura. A sua força correspondia ao seu tamanho, e ele estava arma­do na proporção de uma e de outro. A sua couraça pesava cinco mil sidos, o capacete não era menos pesado e a perneiras, que eram de bronze, estavam em conformidade com o resto. O seu dardo era tão pesado que, em vez de carregá-lo na mão, ele o levava sobre os ombros, e somente o ferro pesava seiscentos sidos.

Esse terrível gigante, seguido por uma grande tropa, apresentou-se com esse equipamento no vale que separava os dois exércitos e gritou em voz alta, a fim de que Saul e todos os seus o ouvissem: “Para que travarmos batalha? Escolhei dentre vós alguém com quem eu possa terminar esta questão. O partido daquele que for vencido será obrigado a receber a lei do partido vitorioso. Não é melhor expor somente um homem ao perigo que um exército inteiro?” Ele voltou no dia seguin­te ao mesmo lugar, para dizer a mesma coisa. E, durante quarenta dias, continuou a fazer o mesmo desafio. Saul e os seus soldados, não sabendo o que responder, contentavam-se em se apresentar à batalha, mas a luta não se travava.

Davi não se achava então no acampamento, porque Saul o restituíra ao pai para retomar o seu ofício de pastor e tinha consigo somente três de seus irmãos. Jessé, todavia, percebendo que a guerra se prolongava demais, en­viou Davi aos seus irmãos para levar-lhes diversas coisas e também notícias suas. Golias voltou ao seu lugar de costume, agora mais insolente do que nunca, fazendo mil injúrias aos israelitas, pois nenhum deles tinha coragem de enfrentá-lo. Davi, que nessa hora estava junto de seus irmãos, cumprindo as ordens de seu pai, ficou admirado ao vê-lo falar daquele modo e disse que estava disposto a combater.

Eliabe, seu irmão mais velho, irritado, repreendeu-o fortemente e mandou-o vol­tar para casa e reassumir a custodia dos rebanhos da família. Davi nada respondeu ao irmão, devido ao respeito que nutria por ele, mas disse a alguns dos soldados que não teria medo de aceitar o desafio daquele gigante. Foram contá-lo a Saul, que o mandou chamar e perguntou-lhe se era verdade que assim havia falado. Davi res­pondeu-lhe: “Sim, majestade, pois não tenho medo daquele filisteu que parece tão temível. Se vossa majestade me permite, não somente destruirei a sua ousadia como ainda o tornarei tão desprezível quanto ele agora parece terrível, e a glória que vossa majestade e o exército terão será tanto maior, porque ele não foi vencido por um homem robusto e experimentado na guerra, mas por um jovem soldado”.

Saul admirou-lhe a coragem, mas não se atrevia a confiar uma ação tão importante a alguém daquela idade, principalmente porque o combate era contra um homem de força prodigiosa e de valor comprovado. Davi notou esses sentimentos em sua fisionomia e disse-lhe: “Ouso prometer-vos sem temor, majestade, que serei vitorioso, com a ajuda de Deus, como já o expe­rimentei em outras ocasiões. Pois quando eu vigiava os rebanhos de meu pai, um leão levou um de meus cordeirinhos, e corri atrás dele, arrancando-o de entre os seus dentes. Isso de tal modo o enfureceu que ele se lançou contra mim. Então agarrei-o pela cauda, derrubei-o por terra e o matei. Fiz o mesmo com um urso que atacava os meus carneiros, e não creio que esse filisteu seja mais temível que os leões e os ursos. O que me convence ainda mais, todavia, é que não posso imaginar que Deus tolere por mais tempo as blasfêmias que esse gigante vomita contra Ele e os ultrajes que faz a vossa majestade e a todo o vosso exército. Assim, atrevo-me a garantir que Ele fará a graça de me dei­xar abater-lhe o orgulho e vencê-lo”.

Uma ousadia tão surpreendente fez Saul acreditar que o êxito seria de fato real. Orou a Deus, permitiu a Davi combater e deu-lhe na mão o próprio capacete, a couraça e a espada. Como Davi, porém, não estava acostumado a usar armas, ficou atrapalhado e disse ao rei: “Estas armas, majestade, são próprias para vossa majestade, que sabe bem manejá-las, mas não para mim. Isso me obriga, pois, a suplicar-vos muito humildemente a liberdade para combater como quiser”. Saul consentiu-o, e assim ele deixou as armas, to­mou somente um cajado, a sua funda e cinco pedras, que escolhera no rega­to e colocara na sua sacola. Desse modo marchou contra Colias, que sentiu tanto desprezo por ele que lhe perguntou, por zombaria, se o tomava por um cão, para vir a ele armado apenas com pedras. Davi respondeu-lhe: “Eu vos tomo por menos ainda que um cão”.

Essas palavras encolerizaram ainda mais o gigante, que jurou pelos seus deuses esquartejá-lo em mil pedaços e dar a sua carne para os animais e os pássaros devorarem. Davi retrucou: “Vós confiais em vosso dardo, em vossa couraça e em vossa espada, mas eu confio na força do Deus Todo-poderoso, que deseja servir-se do meu braço para vos abater e para dizimar o vosso exército. Cortarei hoje mesmo a vossa cabeça e darei o resto de vosso corpo como pasto aos cães, aos quais a vossa raiva vos torna semelhante. Então todos saberão que o Deus dos israelitas os protege, que a sua providência os governa, que o seu socorro os torna invencíveis e que nenhuma força ou arma pode impedir a destruição daqueles a quem Ele abandona”. O altivo gigante, vendo-o tão jovem e desarmado, escutou essas palavras com maior desprezo ainda e marchou contra ele — a passo, porque o peso de suas armas não lhe permitia andar mais depressa.

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