Capítulo 9 – Grande perseguição feita aos judeus em Antioquia pela horrível maldade de um deles, de nome Antíoco.
Os judeus que moravam em Antioquia muito tiveram que sofrer, por esse mesmo tempo. Toda a cidade se sublevou contra eles, quer pelos muitos crimes de que eram acusados, quer pelos de que o tinham sido pouco tempo antes. Julgo-me obrigado a relatá-lo em poucas palavras, para melhor fazer compreender o que a continuação desta história obrigar-me-á a referir.
Como a nação dos judeus, espalhada por toda a terra, está perto da Síria, nessa província havia um grande número deles, particularmente em Antioquia, quer pela grandeza da cidade, quer porque os sucessores do rei Antíoco Epifânio, que saqueou Jerusalém e o Templo, lhes haviam dado inteira liberdade de lá permanecerem com o mesmo direito de burguesia dos gregos, e lhes tinham restituído, para enriquecer sua sinagoga, todos os presentes de vasos de cobre oferecidos a Deus. Eles desfrutaram pacificamente de tais privilégios sob o reinado desse soberano e de seus sucessores, multiplicaram-se muito, adornaram esplendidamente o Templo com os ricos presentes que lhes foram oferecidos, atraíram para sua religião um grande número de idolatras, que a eles se uniam de algum modo. Quando a guerra começou e Vespasiano veio por mar à Síria, eles ali eram muito odiados e então um deles de nome Antíoco, filho do mais ilustre e do mais poderoso dos que residiam em Antioquia, acusou seu próprio pai e a vários outros, na presença de todo o povo, reunido no teatro de que eles tinham intenção de incendiar a cidade durante a noite e nomeado alguns judeus de fora, que ele afirmou serem cúmplices daquela conspiração. O povo sublevou-se de tal modo, que os matou queimados ali mesmo no teatro, e queria imediatamente exterminar todos os outros judeus, na persuasão de que se tratava da salvação de sua cidade e não podiam perder tempo. Antíoco tudo fez para incitá-los ainda mais e para que não se pudesse duvidar de que tinha deveras mudado de religião, e tinha horror pelos costumes judaicos. Não se contentou de sacrificar à maneira dos pagãos e quis que se obrigassem também os outros a fazer o mesmo, e que se considerasse como traidores os que se negassem a fazê-lo. O povo aceitou essa proposta, mas poucos judeus fizeram-no e os que se atreveram a contradizê-lo foram mortos. Antíoco não se contentou de ter cometido uma tão horrível impiedade, mas ajudado por alguns soldados que o governador da província dos romanos lhe dera, tudo fez para impedir que os de sua nação festejassem o sábado e os obrigou a trabalharem nesse como nos outros dias; as violências de que usou foram tais que se viu em pouco tempo não somente em Antioquia, mas em outras cidades, cessar a observância desse santo dia.
Essa perseguição feita aos judeus em Antioquia foi seguida de uma outra, de que me acho também obrigado a falar. O Mercado quadrado, o tesouro dos documentos, o arquivo onde se conservavam os atos públicos e os palácios foram incendiados; as chamas cresceram tanto que foi quase impossível impedir que a cidade fosse quase completamente reduzida a cinzas. Antioco acusou os judeus de terem sido os autores do mal e não lhe foi difícil fazê-lo acreditar, porque os habitantes, quando mesmo não os odiassem há muito tempo, o que havia acontecido pouco antes, teria sido suficiente para persuadi-los. Sua paixão cegava-os, de tal modo que eles quase imaginavam ter visto os judeus atear o fogo. Correram então furiosamente para massacrá-los, mas Colega, que na qualidade de lugar-tenente do governador tinha autoridade na ausência de Cesênio Peto, que Vespasiano havia constituído governador e que ainda não tinha chegado, teve grande dificuldade em contê-los e em obter deles que avisassem a Tito do que se havia passado. Mandou depois uma informação muito exata e constatou-se que os judeus não tinham absolutamente tomado parte nenhuma no crime, mas que havia ele sido cometido por homens, cheios de dívidas, a fim de se livrarem da perseguição que se poderia fazer contra eles; uma vez que todos os papéis tivessem sido queimados, seus credores não teriam documentos, nem títulos, que lhes dessem direito de persegui-los. Entretanto, os judeus esperavam com temor os efeitos de tão falsa e importante acusação.
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