Capítulo 11 – Davi mata Golias. O exército dos filisteus foge, e Saul faz enorme carnificina. O rei sente inveja de Davi e, para vencê-la, promete-lhe Mical, sua filha, em casamento, com a condição de que ele lhe traga os prepúcios de cem filisteus. Davi aceita e faz o que ele deseja.

Davi, por quem Deus combatia de maneira invisível, avançou corajo­samente contra Golias, tirou uma pedra da sacola, colocou-a na funda e lan­çou-a com tal rapidez que ela, atingindo o gigante no meio da testa, pene­trou-lhe a cabeça e o fez cair morto, com o rosto em terra. O vencedor logo correu a ele e, como não tinha espada, serviu-se da do próprio gigante para cortar-lhe a cabeça.

O mesmo golpe que fez esse orgulhoso filisteu perder a vida infundiu tal terror no ânimo de todos os outros que eles, não ousando tentar a sorte em uma batalha após verem cair diante dos próprios olhos aquele no qual punham toda a sua confiança, deliberaram fugir. Os israelitas perseguiram-nos com grandes gritos de alegria até a fronteira de Gate e, às portas de Ascalom, mataram uns trinta mil e feriram duas vezes esse tanto. Voltaram para saquear o acampamen­to, ao qual puseram fogo depois de havê-lo devastado inteiramente. Davi levou a cabeça de Golias e consagrou a Deus a sua espada.

Quando Saul voltou, triunfante, multidões de mulheres e de moças vie­ram ao seu encontro, cantando ao som de trombetas e de címbalos, para mani­festar a sua alegria por tão importante vitória. As mulheres diziam que Saul havia matado mais de mil, e as moças, que Davi matara mais de dez mil. Palavras tão elogiosas a Davi causaram tanta inveja a Saul que ele pensou que, depois de tantos louvores, só lhe faltava mesmo o nome de rei. Começou então a temê-lo e a julgar que não teria mais segurança se o conservasse junto de si. Assim, com o pretexto de agradecer-lhe, mas na realidade pretendendo afastá-lo e eliminá-lo, deu-lhe mil homens para comandar, julgando que não seria difícil ele perecer num cargo em que estaria exposto a muitos perigos.

Deus, todavia, não abandonava Davi, e ele saiu-se tão bem em todos os seus empreendimentos que o seu extraordinário valor lhe granjeou uma es­tima geral. E Mical, uma das filhas de Saul que ainda não estava casada, ficou tão enamorada dele que a sua paixão não passou desapercebida nem mesmo ao rei, seu pai. Saul, em vez de se aborrecer, ficou contente, imagi­nando ali uma oportunidade para eliminar Davi. Respondeu aos que lhe comunicaram o fato que daria a Davi, de muito boa vontade, a princesa em casamento. Ele raciocinava assim: “Eu lhe direi que desejo que ele me traga, em troca dessa honra, os prepucios de cem filisteus. Estou certo de que, sendo tão valente e generoso, aceitará com alegria essa condição porque, quanto mais perigosa, tanto maior glória lhe proporcionará. E, não haven­do risco ao qual ele não se exponha, desfaço-me dele sem que de nada me possam censurar”.

Depois de tomar essa resolução, deu ordem para sondarem os sentimentos de Davi com relação ao casamento. Os encarregados da missão disseram a Davi que o rei tinha tanta afeição a ele e via com tanto prazer a estima que o povo lhe devotava que queria dar-lhe em casamento a princesa, sua filha. Ele respondeu-lhes: “Se não compreendeis qual a honra de ser genro do rei, então não me pareço convosco, pois não tenho dificuldade alguma em compreendê-lo e em constatar quão grande é a desproporção entre uma condição tão elevada e a humildade de meu nascimento”.

Foram aqueles homens relatar a Saul as palavras de Davi, e o rei mandou-os de volta, para dizer que não se incomodava que Davi não fosse rico e não pudesse oferecer à sua filha grandes presentes, pois não pretendia vendê-la, mas dá-la; que lhe era suficiente encontrar no genro um valor extraordinário, acompanhado de todas as outras virtudes que nele havia constatado; que não lhe pedia outra coisa senão uma guerra mortal aos filisteus e que lhe trouxesse os prepucios de cem deles; que aquele seria o maior e o mais agradável dos presentes que Davi poderia oferecer a ele e à filha, pois não era de condição a receber somente dádivas comuns; e que não podia fazer uma escolha mais digna dela que lhe dar por marido um homem que triunfara dos inimigos de seu pai e de sua pátria.

Julgando Davi que Saul agia sinceramente, não pôs dificuldade em realizar aquela empresa. Aceitou com alegria aquela condição e, para cumpri-la, atacou imediatamente os inimigos, juntamente com os homens que comandava. Deus ajudou-o nessa ocasião, bem como em todas as outras, e ele pôde matar um grande número de filisteus. Levou ao rei duzentos prepucios, cem a mais do que ele exigira, é pédíti-lhe que cumprisse a sua promessa.

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