Capítulo 5 – Palavras de Vespasiano ao seu exército, para consolá-lo do mau êxito que tivera.

Como os romanos jamais haviam tido tão mau êxito, Vespasiano, vendo os seus muito abatidos pela dor de tal perda e mais ainda pela vergonha de tê-lo aban­donado em tão grande perigo, tudo fez para consolá-los; não quis falar de si mesmo para não parecer que lhes fazia censuras. Contentou-se em dizer-lhes que era neces­sário suportar generosamente as adversidades comuns a todos os homens; que jamais se conquistam vitórias sem derramamento de sangue; que a sorte deixaria de se sorte, se fosse constante; e como ela se compraz com as mudanças, não deveriam achar estranho que lhes tivesse feito sentir por aquela pequena perda, a gratidão que lhe deviam por tê-los feito obter tantas vantagens sobre os judeus e que não há menos covardia em se deixar abater pelos maus resultados do que insolência em se gabar dos favoráveis. “Considerai, pois”, acrescentou ele, “que podemos passar em um momento de uns aos outros, que são verdadeiramente valentes aqueles cuja alma permanece inalterável na felicidade e na desgraça e que sabem se aproveitar das adversidades. O que nos aconteceu não deve ser atribuído nem à falta de cora­gem de nossa parte, nem ao valor dos judeus. A natureza combateu por eles contra nós; é unicamente a ela que eles devem não termos nós sido os vencedores, depois de os termos vencido. Se tivéssemos que vos censurar seria somente por esse exces­so de coragem que vos fez perseguir os inimigos até a parte mais alta da cidade, que lhes dava vantagem sobre vós, quando vos devíeis contentar de vos terdes tornado senhores da cidade baixa e de obrigá-los em seguida a travar um combate que a dificuldade de tal posição não teria tornado tão desigual. Mas devemos reparar com um procedimento bem sensato a falta que um excessivo ardor vos fez cometer. Essa impetuosidade inconsiderada é indigna dos romanos, que nada devem fazer impru­dentemente; ela é própria dos bárbaros e devemos deixá-la para os judeus. Retome­mos pois nossa maneira ordinária de agir. Que esse mau êxito em vez de nos assus­tar, nos incite pelo desprazer de lhe termos dado motivo e que cada qual procure na sua coragem e na sua espada consolar-se pela perda de seus amigos, matando os que lhes tiraram a vida. Dar-vos-ei o exemplo, continuando a me expor por primeiro ao perigo e a dele retirar-me por último.”

Estas palavras de tão grande general restituíram a alegria a todo o exército. Os sitiados, por seu lado, sentiram também muito prazer, primeiro, pela vantagem que tinham obtido contra toda espécie de probabilidade; prazer que depressa ces­sou, porque eles não podiam mais esperar, nem entrar num acordo, nem escapar e começavam também a lhes faltarem os alimentos. Assim começaram a perder a coragem; mas não deixaram, nesse desânimo, de trabalhar com todas as suas forças, para se defenderem. Os mais valentes tomaram a guarda da brecha, os outros, a das muralhas que estavam intactas. Os romanos reconstruíram suas plataformas para um novo ataque. Vários habitantes fugiram para os vales mais bem defendidos, onde não se punham guardas; outros, para os esgotos, onde aqueles que não ousa­vam sair com medo de serem aprisionados, morriam de fome. Reunia-se tudo o que havia de alimentos para os que ainda estavam em condições de combater e para aqueles aos quais o extremo a que estavam reduzidos não fazia perder a coragem.

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