Capítulo 20 – Os idumeus, tendo sido informados da maldade dos zelotes e tendo horror das suas incríveis crueldades, retiram-se para o seu país; os zelotes duplicam ainda sua crueldade.

Os idumeus, não podendo aprovar tantos excessos horríveis, começaram a se arrepender de ter vindo. Um dos zelotes advertiu-os secretamente de tudo o que acontecia. Disse-lhes que era verdade que eles tinham tomado as armas porque lhes haviam feito crer que os habitantes queriam entregar a cidade aos romanos; mas que não se havia encontrado a menor prova dessa pretensa traição e que aqueles que queriam passar por defensores da liberda­de, tendo ateado o fogo da guerra civil, exerciam tal tirania, que seria para se desejar que eles tivessem sido contidos desde o começo. Mas, como se havi­am entregue com eles a tais crimes, seria pelo menos necessário procurar um fim a tantos males e não fortalecer àqueles que tinham determinado subver­ter todas as leis de seus antepassados; que a morte de Anano e a de um tão grande número de homens do povo, executados numa única noite, os havia vingado plenamente, porque eles tinham sido sitiados no Templo; que vários, mesmo dentre eles, vendo a que horríveis excessos se entregavam aqueles que os haviam impelido à guerra e que não tinham mesmo vergonha de cometê-los mesmo na presença dos idumeus, seus libertadores, arrependi­am-se de os ter seguido e censuravam os idumeus por tolerá-los, em vez de os abandonar; e assim, pois que constava que aquele pretensa combinação com os romanos era mera suposição, não havia presentemente nada que te­mer de sua parte e Jerusalém era inexpugnável, a não ser que fosse dividida por dissensões domésticas, eles nada melhor podiam fazer do que regressar, para mostrar a todos, separando-se daqueles malvados, que eles não queriam tomar parte em seus crimes, e que se não os tivessem enganado, eles não teriam vindo em seu auxílio. As palavras e as razões desse zelote persuadiram os idumeus e eles resolveram regressar, começando por dar liberdade a dois mil habitantes que se uniram a Simão, do que falaremos em seguida.

Tão inesperada partida, que surpreendeu igualmente os zelotes e os habitantes, causou o mesmo efeito em seu espírito, embora seus senti­mentos fossem contrários. Uns e outros alegraram-se: os habitantes, por­que não conheciam o arrependimento dos idumeus por terem vindo; o afas­tamento deles, que sempre eram considerados como inimigos, dava-lhes um pouco de coragem; e os zelotes, que julgavam não ter mais necessidade do socorro dos idumeus, consideravam-se livres da obrigação de agir por causa deles, com certa precaução e numa tal liberdade de cometer de ali por diante com desenfreada liberdade, todos os crimes que sua raiva lhes inspirava. Assim não conservaram mais medida alguma; não tomaram mais nenhuma deliberação em seus conselhos, suas mãos seguiam no mesmo instante o movimento de seu espírito e por mais detestável que fosse uma resolução, apenas era imaginada, logo em seguida, sem mais, também exe­cutada.

Como as pessoas mais generosas e da mais ilustre nobreza eram o principal objeto de seu ódio, começaram por eles a encher a cidade nova­mente de sangue e crimes, porque sua virtude lhes causava temor e eles não podiam ver sem inveja o brilho de sua ilustre origem, nem se julgar em segurança, enquanto alguns deles vivessem. Assim, procuraram matar, além de outros, Goriom, cujos méritos o tornavam tão ilustre como sua descen­dência e que não cedia a nenhum outro dos judeus, naquela nobre ousadia que lhe inspirava o amor da liberdade pública, o que eles consideravam o maior de todos os crimes. Niger Peraita, que se havia distinguido por tantos feitos de valor na guerra contra os romanos, experimentou também os efei­tos da raiva desses homens furiosos. Embora lhes mostrasse as feridas rece­bidas na defesa de sua pátria comum e lhes falasse de suas benemerências e dos serviços prestados, não deixaram de arrastá-lo vergonhosamente pela cidade. Quando depois de o terem levado para fora das portas, ele viu que não lhe restava mais nenhuma esperança de salvação, rogou-lhes que lhe prometessem pelo menos enterrá-lo. Mas até isso eles recusaram. Então, antes de morrer sob seus golpes, fez imprecações contra eles, almejando que os romanos fossem os vingadores do seu sangue e que a carestia, a guerra, a peste e uma divisão mortal enchesse a medida dos castigos que merecia a enormidade de seus crimes.

A justiça de Deus não tardou mesmo, para fustigar àqueles ímpios sob todos os flagelos e para seu castigo, em lhes mandar estranha divisão, que pôs em seu meio. Depois da morte de Niger, aqueles malvados julgaram nada mais ter a temer e não houve crueldade que eles não exercessem contra o povo; não perdoavam a ninguém; consideravam crime capital ter outrora resistido a eles; imaginavam-no, em todos os que permaneciam indiferentes; tratavam como gloriosos os que não lhes vinham fazer a corte e como espiões os que a faziam, e a morte era o castigo geral com que puniam, sem distin­ção, tudo o que lhes aprazia fazer passar por crimes horríveis e irremissíveis. Assim, ninguém escapava à sua crueldade, a não ser os que eram de tão desprezível condição, que eles não julgavam dignos de sua ira.

Comentários

Tão vazio aqui... deixe um comentário!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Barra lateral