Capítulo 18 – Hircano toma Samaria e a destrói inteiramente. Como esse sumo sacerdote era favorecido por Deus. Ele deixa a seita dos fariseus e abraça a dos saduceus. Sua morte.

Quando Hircano se viu tão poderoso, resolveu sitiar Samaria, então cha­mada Sebaste. Diremos a seu tempo de que modo ela foi depois reconstruída por Herodes. Nada se poderia acrescentar ao vigor com que ele apertava o cer­co, tanto estava irritado contra os samaritanos por causa dos maus-tratos que haviam infligido aos mariceenses, os quais, embora súditos do rei da Síria, mora­vam na Judéia e eram aliados dos judeus. Depois de rodear a cidade como uma dupla circunvalação, cuja extensão era de oitenta estádios, entregou a direção dos trabalhos a Aristóbulo e a Antígono, seus filhos.

Eles de tal modo assediaram a praça que os samaritanos ficaram reduzidos a uma grande carestia, de forma que, para sustentar a vida, tinham de recorrer a coisas que os homens não estão acostumados a comer. Em tal aperto, implora­ram o socorro de Antíoco Cizicênio, e ele veio imediatamente, porém as tropas de Aristóbulo o venceram. Ele e o irmão perseguiram-no até Citópolis. Voltaram depois ao assédio e de tal modo oprimiram os samaritanos que eles se viram obrigados a pedir uma segunda vez o auxílio de Antíoco.

Antíoco obteve de Ptolomeu, cognominado Latur, mais ou menos seis mil solda­dos e, contra a opinião e ordem de sua mãe, que o queria dissuadir desse intento, foi com esses egípcios devastar a região sujeita a Hircano sem, porém, ousar combater, pois se sentia muito fraco, mas se iludia com a esperança de que Hircano, para impedir o saque, abandonaria o assédio. No entanto, depois de perder vários dos seus, devido às emboscadas que os judeus lhe armaram, retirou-se para Trípoli e deixou o encargo da guerra a Calimandro e a Epícrates. O primeiro travou temerari-amente um combate e foi derrotado e morto. Epícrates deixou-se corromper pelo dinheiro e entregou Citópolis e outras praças aos judeus, sem prestar auxílio algum aos samaritanos. Assim, Hircano, após um ano de sítio, tomou a cidade e, não se contentando em se tornar senhor dela, destruiu-a completamente, fazendo passar por ela várias torrentes, de modo que ela perdeu todo e qualquer aspecto de cidade.

Dizem-se coisas incríveis desse sumo sacerdote. Afirma-se que o próprio Deus lhe falava e que, estando sozinho no Templo, onde oferecia incenso, no mesmo dia em que os filhos se empenhavam numa batalha contra Antíoco Cizicênio, ele ouviu uma voz dizer-lhe que seria vitorioso. Saiu imediatamente para dar essa grande notícia ao povo, e os fatos provaram que aquela revelação era verdadeira.

Todavia, não era somente em Jerusalém, na Judéia, que os judeus esta­vam em franco progresso. Eles também eram poderosos em Alexandria, no Egito, e na ilha de Chipre. A rainha Cleopatra, estando incompatibilizada com Ptoiomeu Latur, deu o comando de seu exército a Chelcias e a Ananias, filho de Onias que, como vimos, construiu no território de Heliópolis um templo semelhante ao de Jerusalém. A princesa nada fazia sem o conselho deles, como refere Estrabão da Capadócia, com estas palavras: “Vários daqueles que tinham vindo conosco a Chipre e dos que para lá foram enviados depois pela rainha Cleopatra abandona­ram o seu partido para seguir o de Ptoiomeu. Somente os judeus, que conser­vam o afeto a Onias, mantiveram-se fiéis à princesa, por causa da confiança que ela depositava em Chelcias e em Ananias, seus compatriotas”.

A felicidade de Hircano despertou a inveja dos judeus, particularmente entre os que pertenciam à seita dos fariseus, de que falamos há pouco, os quais desfrutam tal prestígio perante o povo, que este acolhe os seus sentimentos, ainda que contrários aos dos reis e dos sumo sacerdotes. Hircano, que fora um discípulo muito amado por eles, deu-lhes um grande banquete. Quando viu que todos estavam bem alegres, disse-lhes que, conhecendo os sentimentos dele, sabiam que não tinha maior desejo que não fosse trilhar sempre o cami­nho da justiça e nada fazer que fosse desagradável a Deus, e por isso estavam obrigados a avisá-lo quando julgassem que ele falhava em alguma coisa, a fim de corrigi-lo.

Os convidados, por esse motivo, elogiaram-no muito, e ele com isso mostrou-se bastante satisfeito. Porém um deles, de nome Eleazar, homem muito mau, to­mou a palavra e disse: “Se desejais, como dizeis, que vos falemos com franqueza e segundo a verdade, dai-nos uma prova de vossa virtude, renunciando o sumo sacerdócio e contentando-vos em ser apenas príncipe do povo”. Hircano pergun­tou-lhe o que o levava a fazer tal proposta, e ele respondeu: “É porque soubemos de nossos antepassados que a vossa mãe foi escrava durante o reinado do rei Antíoco Epifânio”. Como esse boato era falso, Hircano ficou muito ofendido com tais palavras, e os outros fariseus mostraram-se também tão ultrajados quanto ele.

Então Jônatas, o mais íntimo dos amigos de Hircano, que era da seita dos saduceus, inteiramente contrária à dos fariseus, disse-lhe saber que fora com o consentimento deles que Eleazar lhe fizera tão grande ultraje e que era fácil desco­bri-lo: perguntando-lhes como ele devia ser castigado. Hircano perguntou em se­guida qual era a opinião deles, e, como não são muito severos no castigo dos crimes, responderam que ele merecia apenas a prisão e o azorrague, pois achavam que só a maledicência torna um homem réu de morte. Essa resposta deu a enten­der a Hircano que eles mesmos haviam induzido Eleazar àquela grande injúria. Ele ficou muito irritado, e Jônatas aumentou-lhe a irritação, de modo que ele não somente renunciou à seita dos fariseus, para abraçar a dos saduceus, como aboliu todos os seus estatutos e mandou castigar os que continuavam a observá-los. Isso tornou ele e os filhos odiosos a todo o povo, como veremos a seu tempo.

Contentar-me-ei agora em dizer que os fariseus, que receberam essas constitui­ções pela tradição de seus antepassados, as ensinaram ao povo. Os saduceus, po­rém, as rejeitavam, porque elas não estão compreendidas entre as leis dadas por Moisés, que estes afirmam serem as únicas que são obrigados a observar. Isso fez surgir entre eles uma grande divergência, que deu origem a diversos partidos. As pessoas de classe mais elevada abraçaram o dos saduceus, e o povo alinhou-se com os fariseus. Mas já falamos amplamente, no segundo livro da Guerra dos Judeus, sobre essas duas seitas e sobre uma terceira, que é a dos essênios.

Hircano, depois de pacificar todas as divergências e conservar o poder e o principado entre os judeus durante trinta e um anos, bem como o sumo sacer­dócio, terminou honrosamente a sua vida. Ele deixou cinco filhos. Deus julgou-o digno de desfrutar três maravilhosas honras, a saber: o principado de sua nação, o sumo sacerdócio e o dom da profecia. Pois Deus mesmo se dignava falar-lhe e dava-lhe tal conhecimento das coisas futuras que ele predisse que seus filhos mais velhos não usufruiriam por muito tempo a autoridade que lhes deixava. Isso nos obriga a relatar o seu fim, para melhor conhecermos a graça que Deus lhe havia concedido de penetrar as coisas futuras.

 

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