Capítulo 12 – Tito faz aplainar o espaço que ia até os muros de Jerusalém. Os facciosos, fingindo querer entregar-se aos romanos, fazem que vários soldados se empenhem temerariamente em um combate. Tito perdoa-lhes e estabelece seus quartéis para completar o cerco.

Tito, entretanto, querendo fazer suas tropas avançar para Jerusalém, as quais estavam em Scopos, determinou quanto julgava necessário para se opor às incursões dos inimigos; com outros soldados aplainou o espaço que se estendia até os muros da cidade. Mandou derrubar todas as cercas e todas as sebes que rodeavam os jardins e as propriedades; cortou todas as árvores, sem mesmo excetuar as que produziam frutos; encheu os lugares fundos e vazios, as fossas e os vales; rebentou as rochas, aplainou, enfim, toda a região que ia de Scopos até o sepulcro de Herodes e o tanque das serpentes, antigamente chamado Betara.

Por seu lado os judeus organizaram um plano para atacar os romanos. Os mais corajosos dentre eles foram, além das torres, chamadas as torres das mulhe­res, dizendo que os partidários da paz os haviam expulsado da cidade e eles se haviam retirado àquele lugar para se esconder, com medo dos inimigos. Outros do seu partido, fingindo serem da cidade, gritavam do alto das defesas, que deseja­vam a paz com os romanos e a pediam; diziam estar prontos a lhes abrir as portas e os convidavam a vir. Para melhor conseguir enganá-los lançavam pedras contra alguns, que fingiam querer impedi-los de sair e depois de aparentemente ter feito passagem à força, vieram ter com os romanos e mostraram-se ao voltar, muito temerosos. Os soldados, enganados por esse ardil, julgavam-se já donos da praça; queriam invadir a cidade e vingar-se dos inimigos; mas sua proposta era suspeita a Tito, que nela não viu fundamento algum, porque, tendo no dia precedente, por meio de Josefo, feito sua proposta aos judeus, para um acordo, não os havia en­contrado dispostos a aceitá-la. Por isso ordenou aos soldados que não abandonas­sem seus postos. Mas alguns deles, que estavam encarregados de adiantar o traba­lho, tendo já tomado as armas, correram para as portas da cidade. Os judeus que fingiam ter sido expulsos, deixaram-nos passar; quando eles chegaram às torres, perto da porta, atacaram-nos por trás; nesse mesmo tempo os que estavam nas muralhas e nas defesas os cobriram com uma chuva de pedras e de dardos. Assim conseguiram matar muitos, ferindo também vários outros, porque não lhes era fácil se retirar uma vez que eram também atacados por trás, além de que a vergo­nha de ter desobedecido a seu general e o temor do castigo os faziam persistir na falta. Por fim, depois de um grande combate e de terem por sua vez causado muitas baixas entre os inimigos, mas também terem perdido muitos homens, con­seguiram abrir caminho entre os que lhes cortavam a retirada. Os judeus não dei­xaram de os perseguir sob uma chuva de dardos, até o sepulcro de Helena e sua insolência levou-os a cobrirem-nos de injúrias e a zombar deles, por se terem dei­xado enganar, elevando para o alto seus escudos, a fim de fazê-los brilhar, dançan­do, pulando e soltando gritos de alegria.

Os oficiais ameaçaram os soldados e Tito disse encolerizado: “Que é isso? Os judeus, embora reduzidos à desesperação, não deixam de agir com prudência, de usar de estratagemas, de nos armar emboscadas e a sorte os auxilia, porque eles obedecem aos seus chefes e unem-se contra nós. E os romanos, que a sorte sentia prazer em ajudar, pela excelente disciplina e perfeita obediência, não te­mem, combatendo sem chefes e sem ordem, por sua única culpa, a vergonha de que deve enchê-los ainda mais de confusão, na presença mesmo do filho do imperador. Que dirá meu pai quando souber desse fato, ele, que durante toda a vida, passada na guerra, jamais viu algo semelhante? E que grande castigo nos­sas leis poderão impor a tropas inteiras, que assim sacudiram o jugo da discipli­na, elas, que não determinam penas menores do que a morte, para faltas mais leves? Aqueles que tiveram a ousadia de desprezer o seu dever, aprenderão bem depressa pelo castigo, que a mesma vitória é um crime, entre os romanos, quan­do se ousa combater sem ordem daqueles que comandam.”

Esse excelente príncipe assim falou aos oficiais e não se duvidou de que ele estava resolvido a agir com extrema dureza e rigor. Todos os soldados que ti­nham falado julgaram-se perdidos e se preparavam para receber a morte que não podiam negar de ter merecido com justiça. Então os oficiais das legiões suplicaram que tivesse compaixão daqueles culpados e concedesse o perdão da desobediência de um pequeno número ante a obediência de todos os outros e ao seu desejo de apagar, por seus grandes préstimos, a recordação de sua falta, de modo que ele não teria tristeza em lhes ter perdoado. Tais rogos, unidos ao interesse do império que obrigava a usar de clemência, acalmaram Tito, porque ele sabia que tanto é necessário ser inflexível, quando o castigo se refere a apenas um indivíduo, como é necessário, outrossim, ser indulgente, quando os culpa­dos são de grande número. Assim, concedeu a graça aos soldados, com a condi­ção de serem mais prudentes para o futuro, e só pensou, então, em se vingar da esperteza dos judeus.

Depois que o grande príncipe fez aplainar em quatro dias todo o espaço que havia até os muros da cidade, mandou avançar suas melhores tropas para perto das defesas, entre o norte e o poente, dispôs a infantaria em sete batalhões, a cavalaria em três esquadrões, colocou entre eles os que estavam armados de arcos e de flechas e tirando com tantas forças aos judeus os meios de atacar, man­dou avançar a bagagem das três legiões, os servos e o restante de seus homens.

Acampou a três estádios da cidade, em frente à torre de Psefinos, onde o circuito das muralhas daquele lado atrai o vento do norte para o lado do oci­dente. A outra parte do exército estava acampada do lado da torre de Hípicos, na mesma distância de dois estádios da cidade e tinha cercado o acampamento com um muro. Quanto à décima legião, ficou no monte das Oliveiras.

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