Capítulo 13 – Descrição da cidade de Jerusalém.

A cidade de Jerusalém estava cercada por um tríplice muro, exceto do lado dos vales, onde havia somente um, porque ali eles são inacessíveis. Estava construída sobre dois montes opostos e separados por um vale cheio de casas. O monte sobre o qual a cidade alta estava situada era muito mais elevado e mais íngreme que o outro e, por conseguinte, de posição mais forte; o rei Davi, pai de Salomão, que construiu o Templo, escolheu-o para ali erguer uma fortaleza, à qual deu seu nome. É o que chamamos hoje o alto mercado.

A cidade baixa está situada sobre o outro monte, que tem o nome de Acra, cuja inclinação é igual de todos os lados. Havia outrora ali, em frente desse mon­te, um outro mais baixo, que dele estava separado por um largo vale; mas os príncipes hasmoneus mandaram encher esse vale e arrasar o cume do monte Acra, para unir a cidade ao Templo, a fim de que ficasse mais alto que tudo, em derredor.

Quanto ao vale chamado Tiropeom, que dissemos separar a cidade alta da baixa, estendia-se até a fonte de Siloé, cuja água é excelente para se beber e a produz em abundância.

Há fora da cidade dois outros montes, que os rochedos, juntamente com os vales profundos que os rodeiam, tornam inteiramente inacessíveis.

O mais antigo dos três muros de que acabo de falar era inexpugnável, quer pela grande espessura, quer pela altura do monte sobre o qual estava construído e pela profundidade dos vales que lhe estavam aos pés; Davi, Salomão e os ou­tros reis nada haviam poupado para pô-lo naquelas condições. Começava na torre de Hípicos, continuava até a das galerias e de lá se uniria ao palácio onde o Senado se reunia e terminava no pórtico do Templo que está do lado do ociden­te. Do outro lado também, do lado do ocidente, começava naquela mesma torre e passando pelo lugar chamado Betso, continuava até a porta dos essênios. De lá, voltando-se para o sul, passava por baixo da fonte de Siloé, de onde se voltava para o oriente, para alcançar o lago de Salomão e passando pelo lugar chamado Oflam, ia terminar no pórtico do Templo, que está do lado do oriente.

O segundo muro começava na porta de Cenná que fazia parte do primeiro muro, ia até a fortaleza Antônia e só ficava do lado do norte.

O terceiro muro começava na torre de Hípicos, estendia-se do lado do vento norte até a torre Psefina, em frente ao sepulcro de Helena, rainha dos adiabenianos e mãe do rei Izate; continuava ao longo das cavernas reais, desde a torre que estava no ângulo, onde, fazendo uma curva ia até em frente ao sepulcro do pisoeiro; depois de ter alcançado o muro antigo, terminava no vale do Cedrom. Esse muro era obra do rei Agripa, que o fizera, para cercar aquela parte da cidade onde outrora não havia edifícios; mas como as casas antigas não eram suficientes para alojar uma quantidade tão grande de gente, ela se havia espalhado pouco a pouco para fora e muito se havia construído do lado setentrional do Templo, que está perto do monte.

Um quarto monte chamado Beseta, que está em frente da fortaleza Antônia, já começava também a ser habitado; fossos muito profundos, feitos em redor, que impediam que se pudesse passar a pé, da torre Antônia, acrescentavam muito à sua força e faziam parecer aquelas torres muito mais altas.

Haviam dado o nome de Beseta, isto é, cidade nova, a esta parte da cidade de que Jerusalém fora aumentada e os habitantes desejavam muito que ela se forti­ficasse ainda naquele lugar. O rei Agripa, pai do rei Agripa, começou, como vimos, por rodeá-la de uma muralha muito forte, mas temendo que tão grande obra causasse suspeitas ao imperador Cláudio e que ele o atribuísse a alguma intenção de revolta, contentou-se em lhe lançar apenas os alicerces. E se o tivesse terminado, como havia começado, Jerusalém teria sido inexpugnável; as pedras desse muro tinham vinte côvados de comprimento, por dois de largura, o que o tornava tão forte que era impossível derrubá-lo, mover-lhe os alicerces, nem mesmo abalá-lo com máquinas. Sua espessura era de dez côvados e sua altura teria correspondido à largura, se a consideração que acabo de fazer não se tives­se oposto à magnificência desse príncipe. Os judeus depois ergueram esse muro até a altura de vinte côvados com ameias, acima de dois côvados e parapeitos, que tinham três. Assim sua altura era de vinte e cinco côvados e era fortificado com torres de vinte côvados quadrados, tão solidamente construídas como o muro e cuja estrutura bem como a beleza das pedras não era inferior à do Tem­plo. As torres eram mais altas vinte côvados que os muros; lá se subia por meio de degraus muito largos; dentro estavam aposentos e reservatórios para receber a água da chuva. Havia noventa torres feitas desse modo, distantes umas das outras duzentos côvados. O muro do meio tinha só quatorze torres, o antigo, tinha sessenta e todo o perímetro da cidade era de trinta e três estádios.

Embora todo esse terceiro muro fosse tão admirável, a torre Psefina, construída no ângulo do muro que visava de um lado o norte, do outro, o ocidente, e em frente à qual Tito havia estabelecido seu acampamento, superava a todos em beleza. Sua forma era ortogonal, sua altura, de setenta côvados, e quando o sol havia despontado, de lá se podia ver a Arábia, o mar e até as fronteiras da Judéia.

Em frente dessa torre estava a de Hípicos e muito perto de lá, ainda duas outras, que o rei Herodes, o Grande, tinha também elevado sobre o muro antigo, cuja beleza e força eram tão extraordinárias que não havia outra no mundo, que com ela pudesse se comparar; porque, além da grande magnificência desse príncipe e do seu afeto por Jerusalém, ele queria por meio dessa obra maravilhosa eternizar a memória de três pessoas que lhe tinham sido tão caras: um amigo e um irmão, mortos na guerra, depois de ter praticado atos heróicos de valor, e uma mulher, que havia amado muito e que ele mesmo a tinha assassinado pelo seu excesso de paixão por ela. Assim, querendo lhes dar o nome a essas três soberbas torres, à primeira chamou Hípicos, seu amigo. Ela tinha quatro faces, de vinte e cinco côvados cada uma, de largura, e trinta de altura; era maciça, por dentro. A parte superior era feita em forma de terraço de pedras bem talhadas, todas iguais e bem unidas, com um poço no meio, de vinte côvados de profundidade, para receber a água que caía do céu. Sobre esse terraço havia um edifício de dois andares de vinte e cinco côvados de altura cada um, dividido em diversos aposentos, com ameias em redor, de dois côvados de altura, e parapeitos altos, de três côvados. Assim, toda a altura dessa torre era de oitenta e cinco côvados.

Esse grande príncipe chamou a segunda dessas torres, de Fazaela, do nome de seu irmão, Fazael. Era quadrada: cada um dos seus lados tinha quarenta côvados de comprimento e outros tantos de altura e era também maciça por dentro. Havia em cima uma espécie de vestíbulo de dez côvados de altura, sustentado por arcobotantes e rodeado de pequenas torres. Do meio desse vestíbulo eleva­va-se uma torre, na qual estavam aposentos e banheiros, tão ricos que em toda parte brilhava magnificência real; o alto da torre era também fortificado com ameias e parapeitos. Assim sua altura total era de noventa côvados. Sua forma parecia-se com a do farol de Alexandria, onde uma luz sempre acesa serve de aviso aos marinheiros, para que não batam nos rochedos que lhes poderiam causar naufrágio; mas esta era mais espaçosa que a outra; nesse soberbo aposen­to Simão tinha estabelecido a sede de seu governo tirânico.

Herodes deu à terceira torre o nome da rainha Mariana, sua mulher. Tinha vinte côvados de comprimento, outro tanto de largura e cinqüenta e cinco de altura. Por mais suntuosos que fossem os aposentos das duas outras, não se po­diam comparar com os desta, porque o soberano quis que, aquelas que tinham o nome de dois homens, fossem muito mais fortes, e esta terceira, que tinha o de uma mulher e de uma tão grande princesa, as superasse de muito em beleza e em riqueza de ornamentos.

As três torres eram muito altas, por si mesmas, mas sua posição as fazia pare­cer ainda mais altas, porque estavam construídas sobre o vértice do monte, que era mais alto trinta côvados que o antigo muro, embora esse muro fosse construído sobre um lugar muito alto. Se elas eram admiráveis pela sua forma, não o eram menos pela sua matéria; não eram pedras ordinárias e comuns que os homens podem mover, mas eram peças de mármore branco de vinte côvados de compri­mento, por dez de largura e cinco de altura, tão bem talhadas e unidas que não se notavam as ligações, e cada uma delas parecia apenas uma peça.

Do lado do norte, um palácio real unia essas torres e superava em magnificência e em beleza tudo o que se poderia dizer, tanto sua estrutura e sua suntuosidade pareciam lutar à porfia, para torná-lo mais admirável. Um muro de trinta côvados de altura rodeava-o com torres igualmente distantes e de excelente arquitetura. Seus aposentos eram tão soberbos que as salas destinadas aos banquetes podiam conter cem daqueles leitos, que se põem à mesa. A variedade dos mármores e das raridades que lá se haviam reunido era incrível. Não se podia ver sem espanto o comprimento e a grossura das vigas de madeira que sustentavam o peso de tão maravilhoso edifício. O ouro e a prata brilhavam por toda a parte, nos ornatos das paredes e na riqueza dos móveis. Havia um círculo de pórticos sustentados por colunas de rara beleza e nada poderia ser mais agradável que os espaços descober­tos que estavam entre esses pórticos, porque estavam cheios de diversas plantas, belos jardins, passeios, salões muito claros, fontes que jorravam água límpida de figuras de bronze; em derredor dessas fontes, havia viveiros de pombos e outros pássaros. Eu tentaria inutilmente descrever em toda a sua perfeição a incrível magnificência desses soberbos edifícios e de todos os detalhes que os tornavam tão deliciosos quão admiráveis. As palavras seriam insuficientes e eu não poderia, sem ter o coração ferido de dor, pensar que todos foram reduzidos a cinzas, não pelos romanos, mas pelas chamas criminosas daquele fogo aceso desde o princí­pio de nossa cisão, por celerados e traidores de sua pátria. Um outro incêndio consumou do mesmo modo tudo o que estava perto da fortaleza Antônia, passou ao palácio e queimou o teto dessas três admiráveis torres.

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