Capítulo 21 – Os oficiais das tropas romanas insistem com Vespasiano, para atacar Jerusalém, aproveitando a divisão dos judeus. Sábia resposta que ele lhes dá para mostrar que a prudência o obrigava a diferi-la.
No entanto, os oficiais das tropas romanas, que tinham os olhos abertos a tudo o que se passava em Jerusalém, julgando que se devia aproveitar de uma divisão tão favorável para eles, insistiam com Vespasiano, seu general, que não a deixasse escapar. Diziam-lhe eles que aquilo acontecia por uma especial providência e auxílio de Deus que seus inimigos voltassem assim suas armas contra si mesmos e que os momentos eram preciosos, pois se os deixassem escapar, os judeus poderiam num instante reunirem-se, quer pelo excesso de males que sofriam, quer por se arrependerem de ter tão imprudentemente permitido a cisão entre eles. O grande general respondeu-lhes que aquele ardor em enfrentar o perigo, sem considerar o que era mais útil, era uma prova de sua coragem; mas que a prudência o obrigava a dela usar de outro modo, “porque”, acrescentou ele, “que se nos apressarmos em atacá-los, nós os obrigaremos a se reunirem para voltar contra nós todas as forças, que são ainda muito fortes; ao passo que se nós o diferirmos, elas continuarão a se enfraquecer por meio dessa guerra doméstica, que já começou a diminuí-las. Não vedes que Deus, que luta por nós, quer que lhe sejamos devedores dessa vitória sem que nos faça correr perigo algum? Quando uma guerra civil que é o maior de todos os males leva os inimigos até esse excesso de furor, a se degolarem reciprocamente, que temos nós a fazer senão continuar como espectadores de tão sangrenta tragédia e por que nos expormos ao perigo para combatermos pessoas que já se destróem a si mesmas? Se alguém imagina que uma vitória obtida sem combater não deve ser tida como gloriosa, aprenda que as vicissitudes da guerra, sendo incertas, a verdadeira glória consiste em se servir das vantagens que podem fazer obter o intento pelo qual se tomaram as armas; e assim a prudência não é menos louvável do que o valor, quando produz o mesmo efeito. Enquanto nossos inimigos enfra-quecer-se-ão uns pelos outros, nossos soldados refazer-se-ão, no descanso, de todas as suas fadigas passadas e colocar-se-ão em condições de suportar ainda outras maiores, com um novo vigor. Contudo, mesmo que buscássemos o brilho de uma vitória obtida por meio de grandes combates, não seria agora o tempo para isso, pois os judeus não pensam nem em mandar forjar armas, nem em fortificar suas praças, nem em se garantir com algum outro auxílio, e o encarniçamento com que se consomem a si mesmos os reduz a tal estado, que eles encontrariam alívio na escravidão. Assim, quer consideremos a prudência, quer consideremos a glória, não temos outra coisa a fazer que deixar que eles acabem de se destruir, pois se agora nos apoderássemos dessa grande cidade isso não seria atribuído ao nosso valor, mas ao fato de terem eles mesmos causado sua ruína”. Estas razões, de um chefe tão prudente, persuadiram a todos os oficiais e os fizeram estimar ainda mais sua admirável sabedoria.
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