Capítulo 22 – Vários judeus entregam-se aos romanos para evitar a fúria dos zelotes. Continuam as crueldades e impiedades dos zelotes.
Muito depressa se constataram os efeitos dessa prudente ação de Vespasiano, pois muitos judeus vinham todos os dias entregar-se a ele, para evitar o furor dos zelotes, não sem grande dificuldade e sem grande perigo, porque todas as portas e avenidas de Jerusalém estavam cuidadosamente guardadas e eles matavam a todos os que por qualquer pretexto procurassem sair, quando houvesse motivo de se suspeitar que era para esse fim. O único meio de conservar a vida era resgatá-la por meio de dinheiro. Assim, os ricos escapavam e aqueles homens desnaturados não perdoavam a um só dos pobres. Os caminhos estavam cobertos de montes de cadáveres que serviam de alimento aos animais e o horror de tal espetáculo fazia que muitos que desejavam fugir, preferissem morrer na cidade, na esperança de que, pelo menos, não seriam privados da honra da sepultura. A barbárie desses monstros de crueldade recusou-lhes mesmo essa graça e chegou a tal excesso, que sem fazer distinção entre os que eram mortos dentro ou fora da cidade, não permitiam que se enterrasse nem um só. Mas era muito pouco para eles calcar aos pés as leis de seus antepassados; vangloriavam-se em violar as da natureza e em ultrajar o mesmo Deus, com suas horríveis impiedades. Não perdoavam tanto aos que enterravam os corpos dos parentes e amigos, como aos que queriam fugir para junto dos romanos; a morte era a recompensa de sua piedade e era suficiente, para ter necessidade de sepultura, tê-la dado a um outro. A compaixão, que é um dos mais louváveis de todos os sentimentos, estava inteiramente extinta no coração daqueles malvados; tudo o que poderia causá-la, redobrava-lhes o furor; sua crueldade passava dos vivos aos mortos e voltava dos mortos aos vivos.
A impressão que tantos males causavam no espírito das pessoas que os suportavam tornava-lhe a imagem tão espantosa, que aqueles que ainda viviam invejavam a felicidade dos mortos e achavam que era preferível ser privado da honra da sepultura a sofrer os tormentos pelos quais os faziam passar, na prisão. Aqueles homens animados pelos demônios não se contentavam de calcar aos pés tudo o que é mais digno de respeito; eles zombavam do mesmo Deus e tomavam como loucura e ilusão as predições dos profetas. Mas as conseqüências os fizeram ver que eram bastante verdadeiras. Aqueles celerados foram os executores da predição feita há muito tempo, de que, depois de uma grande divisão, Jerusalém seria tomada e depois que os que mais deviam respeitar o Templo de Deus, o tivessem profanado com sua impiedade, ele seria queimado e reduzido a cinzas, por aqueles aos quais as leis da guerra permitiam usar como lhes aprouvesse de sua vitória.
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