Capítulo 11 – Os judeus, que roubavam nos campos, lançam-se sobre Jerusalém. Horrível crueldade e impiedade que lá praticam. O sumo sacerdote Anano subleva o povo contra eles.

Em tal miséria, as guarnições das cidades, pensando somente em viver, segundo sua vontade, sem se incomodar com a pátria, não cuidavam em defen­der os oprimidos; os chefes dos ladrões depois de se terem unido e organizado, dirigiram-se para Jerusalém. Não encontraram obstáculo, quer porque ninguém tinha autoridade, quer porque a entrada estava sempre aberta para todos os judeus segundo o costume dos nossos antepassados, e naquele tempo, mais que nunca, porque se pensava que para lá se ia, levado apenas pelo afeto e pelo desejo de servir à cidade, naquela guerra. Daí nasceu um grande mal, que, mes­mo que não tivesse havido divisão, naquela grande cidade, teria sozinho causa­do sua ruína, porque uma parte dos víveres que seria suficiente para alimentar os que eram capazes de a defender foi consumida inutilmente por aquela grande multidão de homens inúteis, mas também foi causa de revoltas que vieram de­pois da carestia.

Outros ladrões deixaram os campos para lançar-se sobre Jerusalém, unin­do-se aos primeiros, que eram ainda piores do que eles. Não se contentavam de roubar e de assaltar; sua crueldade chegava ao assassínio; sua ousadia era tal que o cometiam à luz do dia, sem poupar nem mesmo às pessoas de condição. Co­meçaram por prender Antipas, que era de família real e ao qual estava confiada a guarda do tesouro público, como o primeiro de todos, em dignidade. Trataram do mesmo modo Levias e Sophas, filho de Raguel, que também eram de família real e outras pessoas muito importantes. Essa horrível insolència, lançou tal terror no espírito do povo, que como se a cidade já tivesse sido tomada, todos só pensavam em fugir.

Aqueles celerados foram ainda além. Julgaram que haveria perigo para eles, se retivessem por mais tempo na prisão, homens tão ilustres e que outras pessoas que os visitavam, poderiam querer vingar a afronta que se lhes fazia e havia mesmo motivo de temer que o povo se sublevasse. Resolveram então fazê-los morrer e mandaram um deles, de nome João, ou melhor, Dorcas, com outros dez matá-los na prisão. Para dar a essa ação um pretexto, mandaram divulgar que eles haviam prometido aos romanos, introduzi-los na cidade, e que por isso não deviam ser considerados como cidadãos, mas como traidores. Sua ousadia levou-os mesmo a se vangloriarem de ter conservado, com sua morte, a liberdade da pátria.

No temor e no abatimento em que o povo se encontrava, a presunção e o poder desses rebeldes chegou a tal excesso que eles ousaram mesmo dispor do sumo sacerdócio. Afastavam as famílias que segundo a tradição a possuíam, su­cessivamente, e constituíam nessa alta dignidade, pessoas sem nome, nem des­cendência ilustre, a fim de torná-las cúmplices de seus crimes; homens indignos de tão grande honra não podiam recusar-se a obedecer aos que os haviam eleva­do àquele cargo. Por outro lado, não havia estratagemas e calúnias de que eles não se servissem para atacar as pessoas de condição, que eles tinham motivo de temer, a fim de ter vantagem de sua inteligência e de sua divisão. Mas ainda não era muito para esses malvados manifestar aos homens tantos efeitos de seu fa­vor; sua horrível impiedade levou-os a ofender a Deus, entrando com os pés manchados e armas criminosas no Santuário. O povo, então, sublevou-se contra eles, a conselho do sumo sacerdote Anano, não menos venerável por sua idade, do que por sua grande sabedoria e pela elevação da sua dignidade, e que teria sido capaz de impedir a ruína de Jerusalém, se não tivesse caído na cilada que aqueles celerados lhe armaram.

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