Capítulo 21 – Grande divergência entre os judeus da Galiléia e os samaritanos que Cumano, governador da Judéia, favorece. Quadrato, governador da Síria, manda-o a Roma com vários outros para se justificar diante do imperador Cláudio e tnanda matar alguns. O imperador manda Cumano para o exílio, confia a Félix o governo da fudéia e dá a Agripa, em vez do reino da Cálcida, a tetrarquia que tinha sido de Filipe e vários outros territórios. Morte de Cláudio. Nero o substitui no império. *

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* Este registro também se encontra no Livro Vigésimo, capítulo 5, Antigüidades Judai­cas, Parte I.

Aconteceu nesse mesmo tempo uma grande divergência entre os judeus da Galiléia e os samaritanos, pelo fato que vou narrar. Vários judeus vieram a Jerusalém para participar da festa, e um deles, que era galileu, foi morto na aldeia de German, que está situada na grande planície da Samaria. Por esse motivo, os da Galiléia reuniram-se para se vingar dos samaritanos, pelas armas, e os princi­pais foram procurar Cumano, para lhe pedir a sua intervenção, antes que o mal aumentasse e que castigasse os culpados daquele assassínio. Mas Cumano os despediu sem lhes dar satisfação.

A notícia desse assassinato chegou até Jerusalém e o povo se revoltou de tal modo, que abandonou as solenidades da festa, não quis escutar os magistrados e partiu para atacar os samaritanos, sob o comando de Eleazar, filho de Dineu, e de Alexandre, que eram grandes ladrões. Chegaram às fronteiras de Lacrabatana, onde, sem distinção de idade, fizeram grande matança e incendiaram as aldeias.

Cumano, logo que soube disso, tomou a cavalaria de Sebaste, para ir em socorro daquela província, e matou e prendeu vários daqueles que seguiam a Eleazar. Os magistrados, então, e os principais de Jerusalém, vestidos de saco e com a cabeça coberta de cinza, foram procurar os outros judeus que se prepara­vam para fazer guerra aos samaritanos, para lhes pedir que não o fizessem. Disse­ram-lhes que era estranho deixar-se levar de tal modo pelo desejo de se vingar, e, irritando os romanos, causariam a perda de Jerusalém, e que a morte de um galileu não lhes devia ser tão importante que, exigindo satisfação por isso, eles ficassem insensíveis à ruína da própria pátria, de suas mulheres, de seus filhos e de seu Templo. Essas considerações tiveram tanta força que persuadiram-lhes a se retirar. Mas, como a ociosidade faz surdos homens insolentes, vários, naquele mesmo tempo, entregaram-se à vida de ladrões; havia roubos e assaltos por toda parte e os mais ousados oprimiam os mais fracos.

Os samaritanos, então, foram procurar, em Tiro, Numídio Quadrato, governador da Síria, para pedir-lhe que fizesse justiça contra os que devastavam o país. Os chefes de Jerusalém e os principais dos judeus foram também para lá e Jônatas, sumo sacer­dote, filho de Anano, disse-lhe que os samaritanos tinham dado o primeiro motivo àquela agitação, pela morte de um galileu, e Cumano o tinha mantido, recusando-se castigá-los. Quadrato, depois de os ter ouvido, deixou para resolver esta questão quando estivesse na Judéia e se tivesse inteirado completamente da verdade. Algum tempo depois, ele foi a Cesaréia, onde mandou matar todos os que Cumano tinha por prisio­neiros; passou à Lídia onde ouviu os samaritanos, uma segunda vez, e mandou cortar a cabeça a dezoito dos principais judeus que soube terem mais contribuído para aque­la revolta e agitação. Mandou Jônatas a Roma e Ananias também, dois dos principais sacerdotes, Anano, filho de Ananias e alguns outros mais ilustres dos judeus, como também os mais influentes dos samaritanos; ordenou a Cumano e a um mestre de campo, chamado Celer, que também fossem se justificar perante o imperador; depois de assim ter cuidado de tudo, partiu para a Lídia, a fim de ir a Jerusalém, onde, tendo visto que o povo celebrava a Páscoa em grande paz, regressou à Antioquia.

Todos os que Quadrato tinha mandado à Roma, lá chegaram; Agripa, que lá esta­va, tomou com grande afeto a defesa dos judeus e Cumano foi também ajudado por pessoas muito influentes. Cláudio, depois de os ter ouvido a todos, condenou os samaritanos; mandou matar três dos principais; enviou Cumano para o exílio e deter­minou que se reconduzisse Celer a Jerusalém para entregá-lo nas mãos dos judeus, e depois de ter ele sido arrastado pelas ruas da cidade, cortaram-lhe a cabeça.

Em seguida, o príncipe constituiu Félix governador da Judéia, da Samaria e da Galiléia. Este era irmão de Pallas e para obsequiar a Agripa, deu-lhe, em vez do reino da Cálcida, que antes ele possuía, todos os Estados que estavam compreendidos na tetrarquia que Filipe tinha, a saber, a Traconítida, a Batanéia e a Galaunita, à qual ele acrescentou ainda o reino de Lisânias e a tetrarquia de que Varo tinha sido governador.

Este imperador, depois de ter reinado treze anos, oito meses e vinte dias, deixou, por morte, como sucessor a Nero, filho de Agripina, sua mulher, que ela havia persuadido a adotar como filho, embora ele tivesse de Messalina, sua pri­meira mulher, um filho de nome Britânico e uma filha chamada Otávia, que ele deu como esposa a Nero.

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