Capítulo 35 – Todos os que defendiam Massada, persuadidos pelas palavras de Eleazar, matam-se como ele, com suas mulheres e filhos, e o que ficou por último, antes de se matar, pôs fogo na fortaleza.
Eleazar queria continuar a falar, mas suas palavras causaram tal impressão nos espíritos, que todos o interromperam para lhe dizer que queriam começar logo a executar a sua proposta. Estavam tão furiosos que só pensavam em se antecipar uns aos outros. A morte de suas esposas, de seus filhos e a sua própria parecia-lhes coisa não somente a mais generosa do mundo, porém a mais desejável e seu único temor era que algum deles viesse a sobreviver. Tão violento entusiasmo não esmoreceu, mas continuou com o mesmo ardor até o fim, porque estavam persuadidos de que era a maior demonstração de afeto que podiam dar às pessoas que mais eles amavam. Abraçaram as esposas e filhos, disseram-lhes, banhados de lágrimas, o último adeus, beijaram-nos pela última vez e como se tivessem então tomado mãos estranhas, executaram aquela funesta resolução, fazendo-lhes ver a necessidade que os obrigava a arrancar assim o coração do próprio peito, tirando-lhes a vida, para livrá-los dos ultrajes que os mesmos inimigos os teriam feito sofrer. Não houve um só que se sentisse fraco, num momento tão trágico; todos mataram as esposas e filhos, certos de que o estado a que estavam reduzidos, a isso os obrigava; consideravam ainda essa horrível matança como o menor dos males que deveriam temer. Mas apenas o haviam terminado, a dor de se terem visto obrigados a fazê-lo foi enorme. Julgaram não poder, sem faltar ao respeito a pessoas tão queridas, sobreviver-lhes, por um momento sequer; por isso reuniram tudo o que possuíam de bens e o queimaram; tiraram depois a sorte, e escolheram dez entre eles, que tiveram a incumbência de os matar, juntaram-se então, aos cadáveres de suas esposas e filhos e abraçan-do-os foram mortos, uns pelos outros, primeiro por aqueles que tiveram a espantosa missão de eliminá-los. Assim morreram, sem demonstrar o menor horror; tiraram ainda uma vez a sorte, para ver quem mataria os outros nove, que se portaram com a mesma firmeza dos precedentes. O que ficou por último, depois de ter observado e examinado os mortos, se ainda alguém tinha necessidade de seu auxílio, para se libertar do que lhe restava de vida, constatou que todos tinham morrido, incendiou o palácio e aproximando-se dos corpos de seus parentes terminou com um golpe de espada que deu em si mesmo esta sangrenta tragédia. Assim pereceram, certos de que nenhum deles cairia sob o poder dos romanos. Mas uma velha e uma prima de Eleazar, que era muito sábia e muito hábil, havia se escondido com cinco crianças nos aquedutos; o número dos mortos entre homens, mulheres e crianças foi de novecentos e sessenta. Esse fato aconteceu a quinze de abril.
No dia seguinte, ao despontar do dia, os romanos fizeram pontes com escadas para dar o assalto; ninguém apareceu. Ouvia-se unicamente o crepitar do fogo, devorando o castelo; eles não podiam imaginar a causa do silêncio. Fizeram trabalhar o aríete e soltaram grandes gritos para ver se alguém responderia. Aquelas duas mulheres saíram dos aquedutos e lhes contaram o que se havia passado. Custou-lhes muito acreditar, tanto esse ato, tão heróico, lhes parecia inacreditável; trabalharam depois para apagar o fogo e chegaram até o palácio. Vendo então aquela grande quantidade de cadáveres, em vez de se rejubilarem, considerando-os como inimigos, não se cansavam de admirar, como por um tão grande desprezo da morte, tantas pessoas tinham tomado e executado tão estranha resolução.
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