Capítulo 8 – Demetrio Nicanor, filho do rei Demetrio, entra na Cilícia com um exército. O rei Alexandre Balas dá o comando de seu exército a Apolônio, que injustamente ataca Jônatas, sumo sacerdote. Jônatas o derrota, toma Azoto e incendeia o templo de Dagom. Ptolomeu Filometer, rei do Egito, vem em auxílio do rei Alexandre, seu genro, que lhe arma emboscadas por meio de Amorno. Ptolomeu tira-lhe afilha e a dá em casamento a Demétrio. Os habitantes de Antioquia recebem Ptolomeu, e expulsam Alexandre, que retorna com um exército. Ptolomeu e Demétrio combatem e vencem Alexandre. Ptolomeu muito ferido, morre, porém antes vê a cabeça de Alexandre, enviada por um príncipe árabe, fônatas cerca a fortaleza de Jerusalém e aplaca com presentes o rei Demétrio, que concede novas graças aos judeus. Esse príncipe, vendo-se em paz, dispensa os seus antigos soldados.

No ano cento e sessenta e cinco, Demétrio, cognominado Nicanor, filho do rei Demétrio, tomou sob pagamento um grande número de soldados que Lastene, de Creta, lhe forneceu, embarcou nessa ilha e foi à Cilícia. Essa notícia deixou muito perturbado o rei Alexandre Balas, que então estava na Fenícia. Ele partiu imediata­mente para Antioquia, a fim de prevenir-se antes da chegada de Demétrio, e deu o comando de seu exército a Apolônio Davo. Esse general avançou para )amnia e mandou dizer a Jônatas, sumo sacerdote, que era estranho que ele fosse o único a viver à vontade e em paz sem prestar nenhum serviço ao rei; que não permitiria por mais tempo a censura que todos lhe moviam de não obrigá-lo ao cumprimento do dever; que ele não se iludisse na esperança de que não o poderiam atacar nos mon­tes; que, se de fato ele era valente e tinha confiança em suas forças, como queria que se pensasse, viesse então à planície para encerrar aquela questão por meio de um combate, cujo resultado haveria de mostrar qual dos dois era o mais valente; que ele estivesse avisado de que tinha os melhores soldados, recrutados em todos os lugares da terra, os quais estavam acostumados a vencer; e que aquele combate se daria num lugar onde se teria necessidade de armas, e não de pedras, e onde os vencidos não podiam esperar a salvação pela fuga.

Jônatas, irritado com tais bravatas, partiu imediatamente de Jerusalém com dez mil homens escolhidos, acompanhado por Simão, seu irmão, e foi acam­par próximo da cidade de Jope. Os habitantes fecharam-lhes as portas. Ven­do, porém, que ele se preparava para forçá-las, abriram-nas. Quando Apolônio soube que ele havia se apoderado da cidade, marchou por Azoto com oito mil soldados de infantaria e três mil de cavalaria. Em seguida, aproximou-se de Jope em marchas pequenas, sem rumor, e depois afastou-se um pouco para atacar Jônatas na planície, porque confiava na sua cavalaria. Jônatas avan­çou e o perseguiu até Azoto.

Apolônio, mal o viu na planície, mudou de idéia e mandou sair ao mesmo tempo mil cavaleiros de uma emboscada que havia preparado numa torrente a fim de atacar os judeus pela retaguarda. Jônatas, que previra o movimento, não se admi­rou. Formou um batalhão compacto, em quadrados, para poder resistir de todos os lados, e exortou os seus a mostrar toda a sua coragem naquela eventualidade.

O combate durou até a tarde. Jônatas deu o comando de uma parte do exér­cito a Simão, seu irmão, e ordenou às tropas perto dele que se cobrissem com os escudos, para receber os dardos da cavalaria inimiga. Eles fizeram assim, e a cavalaria gastou todos os seus dardos sem conseguir causar-lhes mal algum. Quando Simão viu que os inimigos estavam cansados por terem lançado tantos dardos inutilmente o dia todo, atacou-os com tanta violência, principalmente a infantaria, que os derrotou. A fuga atemorizou também a cavalaria, e assim ela foi desbaratada e fugiu desordenadamente, jônatas os perseguiu até Azoto e matou um grande número deles. O resto refugiou-se num templo de Dagom, mas ele entrou na cidade e mandou incendiá-la, fazendo o mesmo com as cida­des da vizinhança. Também não respeitou o templo e o incendiou, e assim mor­reram queimados todos os que nele se haviam refugiado.

O número dos inimigos que pereceram nesse dia, tanto pelas chamas quanto pelas armas, foi de dez mil homens. Jônatas, ao sair de Azoto, acampou próximo de Asquelom. Os habitantes ofereceram-lhe presentes. Ele os recebeu, agrade­ceu-lhes a boa vontade e retornou vitorioso a Jerusalém, com ricos despojos. O rei Alexandre Balas mostrou-se satisfeito com a derrota de Apolônio, porque este havia atacado o seu amigo e os seus confederados contra a sua vontade. E, para mostrar a Jônatas em que estima ele tinha o seu valor, mandou-lhe um broche de ouro que somente os parentes dos reis podiam usar e deu-lhe perpetuamente Acarom e seu território.

Nesse mesmo tempo, o rei Ptolomeu Filometer veio à Síria com forças de terra e de mar, em socorro de Alexandre, seu genro, por ordem de quem todas as cidades o receberam com alegria, exceto Azoto, que lhe fez grandes queixas de jônatas, por ele haver incendiado o templo de Dagom e todo o país, passando-o a ferro e fogo, ao que esse rei nada respondeu. Jônatas dirigiu-se a Jope, onde ele estava, e foi muito bem recebido. Depois de acompanhá-lo até o rio de Eleutério, voltou a Jerusalém com ricos presentes, ofertados pelo príncipe.

Enquanto Ptolomeu estava em Ptolemaida, pouco faltou que não pere­cesse numa emboscada que Alexandre lhe armara por meio de Amônio, seu amigo. Mas ele descobriu e escreveu a Alexandre, dizendo que punisse aquele traidor como merecia. Vendo que ele não fazia caso, não duvidou em pensar que fora o próprio Alexandre o autor de tão grande traição e ficou irritado contra o pérfido príncipe, que já se tornara odioso aos habitantes de Antioquia por causa desse mesmo Amônio, que lhes havia feito muito mal. O detestável ministro de tão negra ação não deixou, no entanto, de receber o castigo que merecia. Tendo se vestido de mulher, para se salvar, foi morto nessa ocasião, perdendo a vida de forma vergonhosa, como diremos mais tarde.

Ptolomeu, arrependendo-se da aliança que fizera com Alexandre e de havê-lo ajudado, tirou-lhe a filha e enviou embaixadores a Demetrio para oferecê-la a este em matrimônio, com a promessa de restaurá-la no seu reino. Ele rece­beu o oferecimento com grande alegria, e assim, nada mais restava a Ptolomeu senão persuadir os de Antioquia a receber esse jovem príncipe, contra o qual estavam indispostos, por causa da lembrança do que haviam sofrido sob o reina­do de seu pai. E eles, devido ao ódio que sentiam de Alexandre, por causa de Amônio, resolveram, sem mais, expulsá-lo da cidade.

Alexandre retirou-se para a Cilícia, e Ptolomeu Filometer entrou em Antioquia, onde foi saudado como rei pelos habitantes e pelo seu exército. Por isso foi obri­gado permitir que lhe colocassem na cabeça dois diademas: um de rei da Ásia e outro de rei do Egito. Mas ele era naturalmente justo, muito prudente, modera­do e pouco ambicioso, e não queria ofender os romanos. Por essa razão reuniu todos habitantes dessa grande cidade e os persuadiu a receber Demetrio como rei, garantindo-lhes que, por lhe dever Demetrio muitas obrigações, este esque­ceria a inimizade que houvera entre seu pai e eles. A isso ele acrescentou que o orientaria sobre a maneira de bem governar e recomendar-lhe-ia que nada fizes­se que fosse indigno de um príncipe. Quanto a ele, contentava-se com o reino do Egito. Assim, esse sábio rei os persuadiu a receber Demetrio.

Alexandre, depois de reunir um grande exército, entrou na Cilícia e na Síria, devastou-as e incendiou tudo. Ptolomeu e Demetrio, então seu genro, com­bateram-no e o venceram, obrigando-o a fugir para a Arábia. Aconteceu nessa batalha que o cavalo de Ptolomeu assustou-se com o barrido de um elefante e jogou-o por terra. Os inimigos imediatamente o rodearam de todos os lados e o teriam matado os seus guardas não o tivessem tirado daquele perigo. Mas ele recebeu tantas feridas na cabeça que ficou quatro dias sem poder falar nem compreender o que lhe diziam. No quinto dia, quando começava a voltar a si, um príncipe árabe, de nome Zabez, mandou-lhe a cabeça de Alexandre. Assim ele soube ao mesmo tempo da morte de seu inimigo e viu com os próprios olhos que a notícia era verdadeira. Mas a sua alegria não durou muito, pois logo em seguida ela também terminou, junto com a sua vida. Alexandre Balas reinou apenas cinco anos, como já dissemos.

Demetrio Nicanor, com a morte de Alexandre, entrou na posse do reino e logo deu mostras de seu mau gênio. Esquecendo-se de todas as obrigações que devia a Ptolomeu Filometer e da aliança que fizera com ele, pelo casamento com Cleópatra, tratou tão mal os seus soldados que eles se retiraram para Alexandria, detestando a sua ingratidão. Deixaram-lhe, porém, os elefantes.

Nesse mesmo tempo, Jônatas, sumo sacerdote, reuniu todas as suas forças na Judéia, para atacar a fortaleza de Jerusalém, onde havia uma guarnição de macedônios e para onde os judeus desertores da religião de seus antepassados se haviam retirado. A confiança na resistência da praça fez com que eles, no início, zombassem daquela empresa, e alguns desses judeus foram avisar Demetrio do assédio. Ele ficou tão encolerizado que partiu de Antioquia com o seu exército, para marchar contra Jônatas. Quando chegou a Ptolemaida, escreveu-lhe dizendo que viesse encontrá-lo, e jônatas foi, sem abandonar o cerco. Fez-se acompanhar por alguns sacerdotes e anciãos do povo, e levou-lhe ouro, prata, ricos vestess e grande quantidade de outros presentes, que aplacaram a sua cólera.

Ele o recebeu com grande honra, confirmou-o no sumo sacerdócio, como os reis seus predecessores haviam feito, e não somente deixou de prestar fé às acusações dos judeus trânsfugas como ainda decretou que toda a Judéia e as três províncias que a ela estavam unidas, a saber, Samaria, Jope e a Caliléia, pagariam doravante apenas trezentos talentos de tributo, no total, como se vê pelas cartas que ele fez expedir, nestes termos: “O rei Demetrio a Jônatas, seu irmão e à nação dos judeus, saudação. Mandamo-vos cópia da carta que escre­vemos a Lastenes, nosso parente, a fim de que vejais o que ela contém: O rei Demetrio, a Lastenes, nosso pai, saudação. Querendo mostrar aos judeus o quanto estamos satisfeitos pela maneira como correspondem por suas ações ao afeto que lhes dedicamos e dar-lhes provas disso, ordenamos que os três bailiados de Aferema, Lida e Ramate, com os seus territórios, sejam tirados de Samaria e anexados à Judéia e lhes restituímos tudo o que os reis nossos prede­cessores estavam habituados a receber dos que iam oferecer sacrifícios em Je­rusalém, bem como os outros tributos que deles tiravam, provenientes dos frutos da terra e das árvores. Nós os dispensamos, além disso, do imposto do direito de gabela e dos presentes que davam aos reis, sem que nada mais, por esse motivo, se exija deles para o futuro. Dai, pois, ordem para que o nosso desejo seja satisfeito e enviai uma cópia desta carta a Jônatas, para ser conser­vada num lugar muito digno do santo Templo”.

514.  Demétrio, vendo-se em paz, julgou nada mais ter a recear. Licenciou as suas tropas, das quais antes havia diminuído o soldo, e conservou somente os estrangeiros por ele trazidos de Creta e das outras ilhas. Assim, ele atraiu a ira de seus próprios soldados, os quais os reis predecessores não trataram do mesmo modo, pagando-os mesmo em tempo de paz, a fim de que eles estivessem sempre prontos para servi-los com afeto quando deles tivessem necessidade na guerra.

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