Capítulo 6 – Vitélio entrega aos judeus a guarda das vestes sacerdotais do sumo sacerdote. Trata em nome de Tibério com Artabano, rei dos partos. Causa de seu ódio por Herodes, o tetrarca. Filipe, tetrarca de Traconites, da Galautida e da Batanéia, morre sem filhos. Seus territórios são anexados à Síria.

Vitélio foi a Jerusalém, pela festa da Páscoa, sendo recebido com grandes honras. Ele restituiu aos habitantes o direito que tinham sobre os frutos vendidos e permitiu aos sacerdotes que guardassem eles mesmos, como outrora, o éfode e os outros ornamentos sacerdotais, que estavam então na fortaleza Antônia, onde eles haviam sido postos pelo motivo que passo a dizer.

O sumo sacerdote Hircano, primeiro desse nome, tendo feito construir uma torre perto do Templo, ali ficava quase sempre. E, como somente ele podia reves­tir-se dessa veste sagrada, entregue à sua guarda, deixava-o ali quando retomava as suas vestes ordinárias. Seus sucessores nesse cargo procederam do mesmo modo. Mas Herodes, subindo ao trono e achando a situação dessa torre muito vantajosa, mandou fortificá-la bastante. Chamou-a Antônia, por causa de Antô­nio, que era seu grande amigo, e lá deixou a veste sacerdotal, tal como a encon­trara, na convicção de que serviria para tornar-lhe o povo ainda mais submisso.

Arquelau, seu filho e sucessor, não fez nisso modificação alguma. Depois que o reino foi reduzido à província e os romanos dele tomaram posse, continuaram a guardar a veste sacerdotal e, para conservá-la, mandaram fazer um armário, que era selado com o selo dos sacerdotes e dos guardas do tesouro do Templo. O governador da torre fazia continuamente acender uma lâmpada diante do armário e, sete dias antes de cada uma das três grandes festas do ano, que era tempo de jejum, entregava a veste sagrada ao sumo sacerdote, o qual, depois de limpá-lo bem, dele se revestia para iniciar o ofício divino. No dia seguinte à festa, tornava a entregá-lo e colocá-lo no mesmo armário.

Vitélio, para reverenciar a nossa nação, entregou-o, como acabo de dizer, aos sacerdotes e dispensou o governo de toda responsabilidade na sua conservação. Tirou também depois o sumo sacerdócio de Caifás para dá-lo a Jônatas, filho de Anano, o qual também havia sido sumo sacerdote, e partiu de regresso a Antioquia.

Tibério, receoso de que Artabano, que se tornara senhor da Armênia, lhe pesasse como um perigoso inimigo do Império Romano, enviou Vitélio para fazer uma aliança, sob a condição de que Artabano lhe entregasse al­guns reféns e o seu próprio filho, se fosse possível. Vitélio, depois de receber essa ordem, ofereceu grandes somas aos reis dos iberos e dos alanos, para induzi-los a declarar guerra a Artabano. Os iberos não quiseram tomar as armas. Contentaram-se em dar passagem aos alanos e lhes abrir as portas dos montes Cáspios. Assim, eles entraram na Armênia, devastaram-na completa­mente, apoderaram-se de tudo e, levando a guerra além, passaram ao territó­rio dos partos e mataram a maior parte da nobreza, inclusive o filho de Artabano. Esse príncipe, então, sabendo que Vitélio subornara com dinheiro alguns de seus parentes e amigos para que o matassem e que assim não podia confiar naquela gente, que passara para o lado do inimigo e sob pre­texto de amizade procurava por todos os meios fazê-lo morrer, fugiu e sal­vou-se nas províncias superiores. Ali não somente encontrou segurança, mas reuniu um grande exército de danianos e sacianos, com o qual começou uma guerra, venceu-a e reconquistou o seu reino.

Depois desse infeliz resultado, Tibério mostrou-se desejoso de fazer aliança com ele, e Artabano estava disposto a isso, tanto que, acompanhados por seus guardas, ele e Vitélio dirigiram-se a uma ponte construída sobre o Eufrates. Quando lá concluíram as condições do tratado, Herodes, o tetrarca, deu-lhes um grande banquete sob um grande pavilhão que mandara erguer no meio do rio, com grandes despesas. Pouco tempo depois, Artabano enviou Dário, seu filho, como refém a Tibério, com grandes presentes, entre os quais estava um judeu de nome Eleazar, que era um gigante de sete côvados de altura. Vitélio regressou logo a Antioquia, e Artabano, à Babilônia.

Herodes, querendo por primeiro dar a Tibério a notícia dos reféns que havia conseguido de Artabano, mandou-lhe um emissário com urgência e informou-o tão particularmente de tudo que Vitélio nada mais pôde dizer que ele não soubesse. Assim, Tibério não deu outra resposta a Vitélio senão a de que nada dizia de novo, o que causou a este grande ódio contra Herodes. Mas ele o dissimulou até o reinado de Caio.

Filipe, irmão de Herodes, morreu nesse tempo, no vigésimo ano do reinado de Tibério, depois de usufruir durante trinta e sete anos as tetrarquias de Traconites, Gaulanites e Batanea. Era um príncipe muito moderado. Amava a paz e a tranqüilidade e sempre ficou em seu território. Nas suas idas constantes ao campo, levava consigo apenas um pequeno número de amigos mais íntimos e uma cadeira, que era uma espécie de trono, para sentar-se e administrar a justiça, pois era seu costume deter-se quando alguém o pedia e, depois de ouvir todas as queixas, condenava imediatamente o culpado ou o absolvia, se o julgasse ino­cente. Morreu em Julíada. Os seus funerais foram imponentes, e enterraram-no num soberbo túmulo que ele havia mandado construir. Como ele não deixou filhos, Tibério anexou os seus territórios à Síria, sob a condição de que o dinheiro dos rendimentos permanecesse no seu país.

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