Capítulo 6 – Grande vitória do rei Saul sobre Naás, rei dos amonitas. Samuel consagra a Saul segunda vez como rei e outra vez censura fortemente o povo por ter mudado a forma de governo.

Desejando Saul obrigar o povo a tomar as armas naquele mesmo momento para começar a guerra pelo temor do castigo, cortou os jarretes dos bois com que trabalhava e declarou que faria o mesmo a qualquer que deixasse de compa­recer com armas no dia seguinte a um lugar próximo do Jordão para seguir Samuel e ele aonde os queriam levar. A ameaça surtiu tanto efeito que todos obedeceram. Feita a revista, contaram setecentos mil homens, sem incluir a tribo de Judá, que levou sozinha setenta mil.

Saul em seguida passou o Jordão, marchando a noite toda, e chegou perto do campo dos inimigos antes do amanhecer. Dividiu o exército em três e atacou-os quando menos eles esperavam. Mataram um grande número deles, e Naás, seu rei, estava entre os mortos. Essa vitória não somente granjeou grande fama a Saul entre os israelitas, que não se cansavam de admirar-lhe o valor e de publicar as suas benemerências, como, por uma mudança repentina, entre aqueles que antes o desprezavam, sendo estes agora os que mais honra lhe prestavam, dizen­do em alta voz que nenhum outro se podia comparar a ele. Saul julgou, no entanto, que não era bastante ter salvo os jabesenses e entrou no país dos amonitas, devastando-o completamente e enriquecendo o exército. Voltou a Gibeá coroado de glória e carregado com os despojos dos inimigos.

O povo, eufórico por tão grande feito, agradecia a si mesmo por ter tão ar­dentemente desejado um rei. Não se contentando em perguntar por gracejo onde estavam todos os que achavam inútil ter um soberano, convenceram-se de que era necessário aplicar-lhes um castigo exemplar e passaram a desejar a todo custo que fossem mortos. Tão insolente é a multidão na prosperidade que fácilmente se deixa levar contra os que a contradizem. Saul, todavia, louvou-lhes o afeto, mas afirmou com juramento que não permitiria que a alegria daquela jornada fosse perturbada pela morte ou suplício de algum israelita, pois não ha­via razão para se manchar com o sangue dos próprios irmãos uma vitória que deviam unicamente a Deus. Seria melhor, ao contrário, renunciar toda inimiza­de, a fim de nada impedir que o regozijo fosse geral. O povo reuniu-se a seguir em Gilgal, por ordem de Samuel, para confirmar a eleição de Saul, e o profeta consagrou-o rei uma segunda vez, na presença de todos, derramando-lhe um pouco de óleo santo sobre a cabeça.

Eis como a República foi mudada em reino. Durante o governo de Moisés e de Josué, seu sucessor e general do exército, a forma de governo era a teocracia. Após a morte de Josué, entretanto, ninguém teve poder soberano, e passaram-se dezoito anos em anarquia. Voltou-se em seguida à primeira forma de gover­no e dava-se a suprema autoridade, sob o nome de juiz, àquele que pela cora­gem e capacidade na guerra se tornasse o mais digno dessa honra. Os reis sucederam aos juizes.

1 Samuel 12. Antes que se dissolvesse a assembléia, Samuel falou-lhes: “Conjuro-vos, na presença do Todo-poderoso, que para libertar nossos antepas­sados da servidão dos egípcios mandou-lhes Moisés e Arão, dois admiráveis ir­mãos, que digais, corajosa e livremente, sem que qualquer consideração vo-lo impeça, se eu alguma vez, por interesse ou por favor, fiz algo contra a justiça; se alguma vez recebi de qualquer um de vós um vitelo, uma ovelha ou qualquer outra coisa, embora pareça permitido receber essas coisas que consumimos to­dos os dias quando oferecidas voluntariamente, ou se alguma vez servi-me de cavalos ou de outra coisa qualquer que pertença a algum de vós. Declarai-vos, eu vos peço, ainda na presença do vosso rei”.

Todos exclamaram que ele nada fizera de semelhante, mas que, ao contrá­rio, sempre governara santa e justamente. Então o profeta continuou: “Já que estais de acordo em que nada existe a censurar sobre o meu procedimento, permiti que eu diga agora sem temor que, pedindo um rei, cometestes ofensa muito grave contra Deus, pois devíeis antes lembrar que depois de a carestia obrigar Jacó, nosso pai, a ir para o Egito com setenta pessoas somente, a sua posteridade multiplicou-se e tornou-se oprimida pelo peso de uma cruel escra­vidão. Deus, comovido pelas orações de seu povo, não se serviu de um rei para tirá-lo de tão extrema miséria, mas enviou a eles Moisés e Arão, que os conduziram à terra que agora possuis. E, quando por castigo dos vossos pecados e de vossa ingratidão fostes vencidos por várias nações, também não foi por inter­médio de reis que Ele vos libertou, e sim sob o comando de Jefté e de Gideão, em milagrosos combates, triunfando dos assírios, dos amonitas, dos moabitas e por fim dos filisteus. Que loucura então vos levou agora a sacudir o jugo de Deus para vos submeterdes ao de um homem? Eu, no entanto, vos segui no vosso desvario e apontei-vos aquele que Deus havia escolhido para reinar sobre vós. Mas, para que não duvideis de que essa mudança lhe é assaz desagradável e não o tenha irritado fortemente contra vós, vos darei uma prova disso, e bem clara, pedindo-lhe que neste momento, em pleno verão, vos mande uma tem­pestade tal como nunca se viu neste país”.

Mal acabou Samuel de proferir essas palavras, Deus as confirmou como ver­dadeiras, com um trovão tão forte, relâmpagos sucessivos e uma chuva de grani­zo tão espessa que o povo, assustado com esse grande milagre, se julgou inteira­mente perdido, confessou a sua culpa e conjurou o profeta a pedir a Deus, pela paterna afeição deste para com ele, o perdão daquela falta que haviam cometi­do, por ignorância, tal como já lhes havia perdoado tantas outras. Ele prometeu-o, exortando-os ao mesmo tempo a viver na piedade e na justiça, a lembrar-se dos males suportados quando dEle se afastavam, a jamais esquecer tantos mila­gres feitos por Deus em favor deles e a ter sempre diante dos olhos as leis que Ele lhes dera por intermédio de Moisés, para observá-las fielmente. Era esse o único meio de serem felizes e de atrair bênçãos sobre os seus reis. Porque se falhassem Deus exerceria sobre eles terrível vingança. Depois que Samuel pela segunda vez confirmou a realeza de Saul, dissolveu-se a assembléia.

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