Capítulo 4 – Sisaque, rei do Egito, sitia a cidade de Jerusalém. Roboão a entrega covardemente. Sisaque saqueia o Templo e leva todos os tesouros deixados por Salomão. Morte de Roboão. Abião, seu filho, sucede-o. Jeroboão manda a mulher consultar o profeta Atas a respeito da doença de Obimés, seu filho. O profeta diz que ele morrerá e prediz a ruína do rei e de toda a sua família, por causa da impiedade.

Deus, para aplicar a sua justa vingança sobre Roboão, serviu-se de Sisaque, rei do Egito. (Heródoto engana-se quando atribui esse fato a Sosester.) Esse sobe­rano, Sisaque, entrou no país no quinto ano do reinado de Roboão, com um exército de mil e duzentos carros, sessenta mil cavaleiros e quatrocentos mil soldados de infantaria, composto na maior parte por líbios e etíopes. Depois de colocar guarnições nas várias cidades que se entregaram a ele, sitiou Jerusalém. Roboão, que lá estava encerrado, recorreu a Deus, mas Ele não ouviu a sua ora­ção. O profeta Semaías advertiu-o, dizendo que, assim como ele e o povo havi­am abandonado a Deus, Ele também os abandonara.

O soberano e os súditos, vendo-se sem esperança de auxílio, humilharam-se e confessaram que era com muita justiça que recebiam aquele castigo, devido à sua impiedade e aos seus crimes. Deus, tocado pelo arrependimento deles, man­dou dizer-lhes pelo seu profeta que não os exterminaria inteiramente, porém os sujeitaria aos egípcios, para fazê-los experimentar a diferença entre estar sujeito a Deus somente e aos homens. Roboão, desse modo, perdeu o ânimo e entre­gou Jerusalém a Sisaque, que lhe faltou à palavra, pois saqueou o Templo e levou todos os tesouros consagrados a Deus. Levou também os tesouros de Roboão, os escudos de ouro que Salomão mandara fazer e as aljavas de ouro dos sofonianos que Davi oferecera a Deus. Voltou ao seu país carregado com tantas riquezas e despojos que perfaziam uma soma incalculável.

Heródoto faz menção a essa guerra e engana-se somente no nome do rei do Egito, quando diz que ele, depois de atravessar várias províncias, subjugou a Síria da Palestina, cujos povos se entregaram a ele sem combate, o que mostra clara­mente que é de nossa nação que ele está falando, e faz ver com isso que ela foi dominada pelos egípcios. Ele acrescenta que esse príncipe mandou elevar colunas nos lugares que se haviam rendido a ele sem se defender, sobre as quais, para reprovar-lhes a covardia, estavam gravados sinais do sexo das mulheres, o que se referia sem dúvida a Roboão, pois foi o único de nossos reis a entregar Jerusalém sem combater. Esse mesmo historiador diz que os etíopes aprenderam dos egípcios a circuncisão, e os fenícios e os sírios da Palestina confirmam que receberam tam­bém dos egípcios esse costume, pois é sabido que não há outros povos na Palesti­na que se circuncidem. Mas deixo a cada qual opinar sobre isso o que quiser.

Depois que o rei Sisaque voltou ao Egito, Roboão, para substituir os escu­dos de ouro que ele havia levado, mandou fazer outros, em igual número, de cobre, os quais entregou aos guardas. Ele passou o resto de sua vida sem fazer ação alguma digna de memória, porque o medo que tinha de Jeroboão, seu irre-conciliável inimigo, não lhe permitia tomar qualquer iniciativa. Morreu na idade de cinqüenta e sete anos, dos quais reinou dezessete. Seu Espírito fraco e sua arrogância fizeram-no perder, como dissemos, a maior parte do reino, por não seguir o conselho dos amigos do rei Salomão, seu pai. Abião, seu filho, de apenas dezoito anos, sucedeu-o, e Jeroboão reinava ainda sobre as outras dez tribos.

1 Reis 14. Depois de termos dito qual o fim de Roboão, devemos dizer também qual foi o de Jeroboão. Tão detestável monarca continuou a ofender a Deus cada vez mais, com horríveis atos de impiedade. Fazia continuamente er­guer altares sobre os lugares mais elevados das florestas e escolhia para sacerdo­tes pessoas de baixa condição moral. Mas Deus não tardou muito a castigá-lo com uma justa vingança por tanta abominação, vindo o castigo sobre ele e sobre toda a sua posteridade.

Obimés, seu filho, estava muito doente, e ele disse à rainha sua esposa que tomasse as vestes de uma pessoa do povo e fosse falar com o profeta Aías, homem admirável, o mesmo que outrora previra que ele seria rei. Ela devia fingir-se estran­geira e perguntar se o filho ficaria bom daquela enfermidade. Ela partiu logo, mas quando se aproximava da casa de Aías, Deus apareceu ao profeta, tão acabado pela velhice que quase nada mais enxergava, e revelou-lhe que a mulher de Jeroboão viria falar com ele. Deus disse-lhe também o que devia responder a ela.

Quando ela chegou à porta fingindo ser uma pobre forasteira, o profeta ex­clamou: “Entrai, mulher de Jeroboão, sem dissimular que sois vós mesma. Deus me revelou tudo, e já me disse o que vos devo responder: Voltai para junto de vosso marido e dizei-lhe da parte de Deus: Quando não gozáveis ainda de ne­nhum prestígio, eu dividi o reino, que devia pertencer ao sucessor de Davi, para dar-vos uma parte, mas a vossa horrível ingratidão vos fez esquecer todos os meus benefícios. Abandonastes o meu culto para adorar ídolos feitos por vossas mãos. Por isso exterminarei toda a vossa descendência. Darei o vosso corpo aos cães e às aves, para que o devorem, e constituirei rei sobre Israel um homem que não poupará nenhum de vossos descendentes. E o povo, que vos é submisso, não ficará isento desse castigo. Serão expulsos desta terra tão abundante que agora possuem e serão impelidos para além do Eufrates, porque imitaram a vos­sa impiedade e deixaram de me render a devida honra para prestar um culto sacrílego a falsos deuses, que são obra das mãos dos homens”.

Disse em seguida o profeta: “Apressai-vos e ide levar essa resposta a vosso marido. Quanto ao vosso filho, ele morrerá no mesmo instante em que entrardes na cidade. Enterrá-lo-ão com honra, e todo o povo chorará, por ser o único de toda a descendência de Jeroboão a ter piedade e virtude”. A princesa, cheia de dor por causa dessa resposta e já considerando morto o filho, voltou debulhada em lágrimas para falar com o rei. Apressando-se, apressava também a morte do filho, que iria expirar quando ela chegasse à cidade, e assim ela não poderia encontrá-lo com vida. Achou-o morto, conforme a predição do profeta, e referiu a Jeroboão tudo o que ele lhe dissera.

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