Capítulo 32 – Espantosa miséria em que se achava Jerusalém e invencível teimosia dos rebeldes. Tito faz erguer quatro novas plataformas.

Os judeus, vendo-se então inteiramente cercados na cidade, deses­peravam-se de uma vez de sua salvação. A fome que sempre aumentava, devorava famílias inteiras. As casas estavam cheias de cadáveres de mulheres e de crianças, e as ruas, de corpos de anciãos. Os moços, inchados e camba­leando pelas ruas, mais pareciam espectros do que seres vivos e o menor obstáculo os fazia cair. Assim, não tinham forças para enterrar os mortos e quando mesmo as tivessem, não teriam podido fazê-lo, quer por seu número muito elevado, quer porque eles mesmos não sabiam quanto tempo ainda lhes restaria de vida. Se alguém se esforçava por prestar esse dever de pieda­de, morria também quase sempre de fazê-lo; outros arrastavam-se como po­diam até o lugar de sua sepultura, para ali esperar o momento da morte, que estava próxima. No meio de tão espantosa miséria não se ouviam choros nem lamentos, não se escutavam gemidos, porque aquela fome horrível com que a alma estava inteiramente ocupada afogava todos os outros sentimentos. Os que ainda viviam, contemplavam os mortos com olhos enxutos, e seus lábios inchados e lívidos lhes faziam ver a morte esculpida no rosto. O silêncio era tão grande em toda a cidade, como se ela tivesse sido sepultada numa noite profunda ou que lá não vivesse mais um ser humano. Em tal contingência aqueles celerados, que de tudo eram a causa principal, mais cruéis que a mesma fome e que os animais ferozes, entravam naquelas casas que eram mais sepulcros que lares, e despojavam os mortos, tiravam-lhes até as vestes, e acrescentando ainda a zombaria a tão espantosa desumanidade feriam com golpes os que ainda respiravam para experimentar se suas espadas ainda ti­nham gume. Mas ao mesmo tempo, por uma crueldade contrária, recusa­vam-se a matar, com desprezo, àqueles que lhos pediam, ou ainda empres­tar-lhes a espada para que eles mesmos se matassem, a fim de se libertar dos males que a fome os fazia sofrer. Os moribundos, ao entregar a alma, volta­vam os olhos para o Templo, tinham o coração partido de dor por deixar ainda com vida aqueles celerados, que o profanavam de maneira tão horrível. Aqueles monstros de impiedade, no começo, enterravam os mortos à custa do poder público, para se livrar do mau cheiro. Mas não podendo mais fazê-lo, jogavam-nos por cima do muro, ao fundo dos vales. O horror que Tito sentiu por vê-los, quando deu a volta a toda a praça e o estranho fedor do apodrecimento dos cadáveres, fê-lo soltar um profundo suspiro; ele elevou suas mãos para o céu e tomou a Deus por testemunha de que não era culpa­do de tudo aquilo. Este é o estado mais que deplorável de tão infeliz e miserá­vel cidade.

Como os romanos não temiam mais os ataques dos judeus, que o desâni­mo, bem como a fome, mantinha dentro de seus muros, viviam tranqüilos e nada faltava ao seu exército, porque traziam da Síria e das províncias vizinhas trigo e todas as outras provisões de que podiam ter necessidade. Eles os expu­nham à vista dos judeus e tão grande abundância de alimentos incitava-lhes ainda mais a fome, aumentando neles o pavor de sua miséria. Nada, porém, era capaz de mover os rebeldes. Tito para salvar, pelo menos, tomando a cida­de o mais depressa possível, o restante desse pobre povo, de que ele sentia compaixão, mandou erguer novas plataformas, embora tivessem de fazê-lo com grandes dificuldades, pela falta de materiais, porque haviam empregado toda a madeira naquelas que haviam sido destruídas pelo fogo, e os soldados deviam ir buscar novos troncos de árvores a noventa estádios da cidade. Começaram perto da fortaleza Antônia a erguer quatro plataformas, maiores que as prece­dentes, e Tito estava continuamente a cavalo, para apressar aquele estafante trabalho, que devia tirar todas as últimas esperanças dos rebeldes; mas eles eram incapazes de se arrepender. Parece que tinham o corpo e a alma comple­tamente isolados sem se comunicarem entre si, tão pouco ou nada se comovi­am com o que muito os deveria impressionar e seus corpos eram insensíveis à dor. Eles estraçalhavam como cães os cadáveres daquele pobre povo, e enchi­am as prisões com os que ainda respiravam.

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