Capítulo 14 – Herodes reconstrói inteiramente o Templo em Jerusalém, para torná-lo ainda mais belo.

Depois de tantas e tão grandes realizações e de tão soberbos edifícios feitos por Herodes, ele imaginou, no décimo oitavo ano de seu reinado, um empreendimento que sobrepujava em muito todos os outros: construir um Tem­plo a Deus, maior e mais alto que o que já existia, porque julgava, e com razão, que tudo o que fizera até então, por maior e mais brilhante que fosse, estava de tal modo abaixo de tão alta empresa que nada poderia contribuir mais para tornar a sua memória imortal.

Como temia que o povo, espantado pela dificuldade de tal obra, tivesse dificuldade em iniciá-la, reuniu-o e falou: “Seria inútil falar-vos de todas as coisas que fiz após a minha ascensão ao trono, pois sendo mais úteis a vós que a mim mesmo, não poderieis ignorá-las. Sabeis que nas calamidades públicas esqueci os meus próprios interesses para vos ajudar, e não teríeis dificuldade em reconhecer que as muitas obras grandiosas que empreendi e concluí, com a ajuda de Deus, e nas quais não visava tanto a minha satisfação particular quanto as vantagens que disso poderieis receber elevaram a nossa nação a um grau de estima nunca antes alcançado. Seria inútil, pois, falar-vos das cidades que construí e das que embelezei na judéia e nas províncias que nos são tributárias. Mas quero propor-vos uma iniciativa muito maior e mais importante que todas as outras, pois se refere à nossa religião e ao culto que devemos prestar a Deus. Sabeis que o Templo que os nossos antepassados construíram depois de seu regresso do cativeiro da Babilônia mede em altura sessenta côvados a menos que o construído por Salomão, mas não devemos culpá-los, pois desejavam torná-lo mais suntuoso que o primeiro, porém, es­tando então sujeitos aos persas è depois aos macedônios, foram obrigados a seguir as medidas que lhes deram os reis Ciro e Dario, filho de Histapes. Agora que sou devedor a Deus da coroa que possuo e uso sobre minha cabeça, da paz de que desfrutamos, das riquezas que acumulei e, o mais importante, da amizade dos romanos, que hoje são senhores do mundo, esforçar-me-ei por demonstrar o meu reconhecimento por tantos favores, dando a essa obra a maior perfeição”.

As palavras de Herodes surpreenderam a todos de modo extraordiná­rio. A grandeza da idéia a fazia parecer inexeqüível. E, mesmo que não o fosse, eles temiam que, depois de demolido o Templo, não o pudessem re­construir inteiramente, e assim achavam a empresa muito perigosa. Mas ele os tranqüilizou, prometendo não tocar no antigo edifício antes de preparar tudo o que fosse necessário para a construção do novo, e os fatos seguiram-se às palavras. Ele empregou mil carretas para trazer as pedras, reuniu todo o material, escolheu dez mil operários dos melhores e sobre eles constituiu mil sacerdotes, vestidos à sua custa, inteligentes e práticos nos trabalhos de pe­dreiro e de carpinteiro.

Depois que tudo estava preparado, mandou demolir os antigos alicerces, para serem reconstruídos, e sobre eles ergueu-se o Templo, que media cem côvados de comprimento e cento e vinte de altura. Porém mais tarde os alicerces cederam, e essa altura ficou reduzida a cem côvados. Nossos antepassados quiseram, no rei­nado de Nero, levantar o Templo, para recuperar esses vinte côvados de rebaixa­mento. Esse trabalho foi realizado com pedras duras e muito brancas que mediam vinte e cinco côvados de comprimento por oito de altura e doze de largura.

A frente desse soberbo edifício parecia a de um palácio real. As duas extremida­des de cada frente eram mais baixas que o centro, e esse centro era tão alto que os que estavam em frente do Templo ou que para lá se dirigiam podiam vê-lo, ainda que estivessem muito longe, mesmo a vários estádios de distância. A arquitetura dos pórticos era quase semelhante ao resto. Viam-se estendidas tapeçarias de diversas cores adornadas com flores de púrpura, com colunas entre elas, nas cornijas, das quais pendiam ramos de videira feitos de ouro, com os cachos e as folhas tão bem trabalhados que nessas obras, tão ricas, a arte nada ficava a dever à natureza.

Herodes mandou fazer galerias ao redor do Templo, tão largas e tão altas que correspondiam à magnificência de todo o resto, sobrepujando em beleza todas as que antes haviam sido vistas, de sorte que parecia que ninguém mais a não ser esse príncipe havia trabalhado para adornar o Templo. Duas dessas galerias eram sustentadas por muralhas fortes e espessas, e nada fora visto até então de mais belo que essa obra.

Havia um outeiro pedregoso muito áspero e inclinado, mas que pendia em descida, mais suave, em direção a cidade, do lado do oriente, e Salomão foi o primeiro, por ordem de Deus, a rodear o seu vértice com muralhas. Herodes fez rodear com outro muro todo o sopé desse montículo, abaixo do qual, do lado sul, há um profundo vale. Esse muro, construído com grandes pedras ligadas com chumbo, ia até a extremidade embaixo do montículo e o rodeava por inteiro. Era de forma quadrangular e tão alto e forte que não se podia contemplá-lo sem admiração. As pedras, de tamanho extraordinário, faziam frente para fora e estavam ligadas entre si com ferro, por dentro, para que pudessem resistir a todas as injúrias do tempo. Depois que esse muro foi erguido, tão alto quanto o vértice do montículo, encheu-se todo o vazio que havia dentro dele. Formou-se assim uma plataforma, cujo perímetro era de quatro estádios, pois cada uma das frentes tinha um estádio de comprimento, e havia um grande pórtico, colocado no meio dos dois ângulos.

Fez-se nesse quadrado um outro muro, também de pedra, para rodear o vértice do montículo, cujo lado, oposto ao oriente, tinha um duplo pórtico, que estava em frente à entrada do Templo, a qual estava construída no meio, e vários de nossos reis adornaram e enriqueceram muito essa entrada. Todo o perímetro do Templo estava cheio de despojos, obtidos sobre os nossos inimigos, e Herodes consagrou-os de novo, depois de acrescentar-lhes os troféus conquistados aos árabes.

Do lado do norte, havia uma torre bastante forte e bem municiada, que fora construída pelos reis da família dos asmoneus, os quais detinham ao mesmo tempo a soberana autoridade e o sumo sacerdócio. Eles haviam dado a essa torre o nome de Baris, porque aí se conservava o veste de que o sumo sacerdote se revestia somente quando oferecia sacrifícios a Deus, e Herodes ordenou que ali se colocasse essa vestimenta sagrada.

Depois da morte de Herodes, os romanos tiveram-no em seu poder até os tempos do imperador Tibério. Mas quando, durante o seu reinado, Vitélio veio tomar posse do governo da Síria, os habitantes de Jerusalém o receberam com tanta honra que este, para lhes demonstrar a sua satisfação, obteve de Tibério para eles, ante os reiterados pedidos que lhe faziam, outra vez a guarda desse santo depósito. Eles desfrutaram essa graça até depois da morte do rei Agripa, o Grande. Então Cássio Longino, governador da Síria, e Cúspio Fado, governador da Judéia, ordenaram aos judeus que o colocassem na torre Antônia, a fim de niiP pIp firassp ramo antes, em Dosse dos romanos. Os judeus, a esse respeito, enviaram embaixadores ao imperador Cláudio. Mas o jovem rei Agripa, que estava em Roma, pediu para ter a posse dele, o que lhe foi concedido, sendo a ordem comunicada a Vitélio.

Era assim que se fazia outrora: a preciosa veste era guardada sob o selo do sumo sacerdote e dos tesoureiros do Templo. Na vigília das festas solenes, eles iam procurar o comandante na torre dos romanos, onde, após a confirmação de que o selo estava intacto, recebiam de suas mãos essa veste e a devolviam, selada como antes, depois de terminada a festa. Essa torre já era forte, mas Herodes a fortificou muito mais ainda, a fim de fortalecer também o Templo, e a chamou Antônia, para honrar a memória de Antônio, que lhe havia demonstrado tanta amizade.

Do lado do ocidente, havia quatro portas. Por uma delas, ia-se ao palácio real, atravessando-se um vale que estava entre eles. Pelas outras duas, ia-se aos arrabaldes e, pela quarta, à cidade. Mas era preciso, para isso, descer vários degraus até o fundo do vale e tornar a subir por outros tantos, pois a cidade, em forma de circo, está situada em frente ao Templo e termina naquele vale do lado do sul. E, desse mesmo lado, à frente do quadrado, havia no meio uma outra porta igualmente distante dos dois ângulos e uma tríplice e soberba galeria, que se estendia desde o vale que estava do lado do oriente até o que estava do lado do ocidente. Essa galeria não podia ser mais longa porque compreendia todo esse espaço.

Tal obra era uma das mais admiráveis que o sol jamais iluminou. O vale era tão profundo e tão alta a cúpula elevada acima da galeria que não se podia contemplá-la do fundo do vale, porque a vista não alcançava tão longe sem se obscurecer e turbar. Essas galerias eram sustentadas por quatro séries de colunas igualmente distantes, e um muro de pedra preenchia os espaços entre as colunas da quarta fileira. Essas colunas eram tão grossas que eram necessários três homens para abraçar uma delas. Tinham vinte e sete pés de circunferência, e a sua base media o dobro. Havia ao todo cento e sessenta e duas. Eram de estilo coríntio e tão artisticamente trabalhadas que causavam admiração. Entre essas quatro fileiras de colunas, estavam três galerias, cada uma medindo trinta pés de largura, mais de cinqüenta pés de altura e um estádio de comprimento. Mas a do meio era uma vez e meia mais larga e duas vezes mais alta que as outras. Viam-se nos forros dessas galerias diversas figuras, muito bem talhadas. A arcada da galeria do meio, que superava as outras, apoiava-se sobre cornijas de pedra, tão bem talhadas e entremeadas de colunas e feitas com tanta arte que as junturas não eram percebidas a olho nu — poder-se-ia pensar que toda a obra era feita de um único bloco de pedra.

Assim estava construído esse primeiro recinto. Havia um segundo, feito com um muro de pedra e que estava a pouca distância. A ele se subia por alguns degraus, e havia uma inscrição que proibia aos estrangeiros lá entrar, sob pena de morte. Esse recinto interior tinha três portas do lado do sul e três do lado norte, igualmente distantes, e uma grande do lado do oriente, pela qual os que estavam purificados entravam com as suas mulheres, mas a estas era proibido transpô-la.

Somente os sacerdotes podiam adentrar o espaço que ficava entre esses dois recintos, porque ali estava construído o Templo, e era onde também se localizava o altar sobre o qual se ofereciam os sacrifícios a Deus. Assim, nem mesmo Herodes ousava entrar ali, porque não era sacerdote. Por isso deixou aos sacerdotes o cuidado dessa obra. Eles a concluíram em dezoito meses. Para tudo o mais, havi­am-se empregado oito anos.

Não se pode descrever a alegria do povo ao ver tão grandiosa obra terminada em tão pouco tempo. Começaram por dar ações de graças a Deus e em seguida fizeram também elogios ao rei, pois o seu zelo bem os merecia. Depois, promo­veram uma grande festa para celebrar a memória da nova construção. Herodes ofereceu a Deus trezentos bois como sacrifício, e os outros também ofereceram vítimas, segundo as suas posses. O número delas foi tão grande que se pode dizer incalculável, e a festa realizou-se no mesmo dia do início do reinado de Herodes e que ele solenizava todos os anos com grande pompa. Esse grande príncipe mandou fazer um subterrâneo, que ia desde a torre Antônia até a porta oriental do Templo, perto da qual mandou construir outra torre, a fim de que ele e os outros reis lá pudessem refugiar-se em caso de rebelião.

Diz-se que durante todo o tempo em que se trabalhou para a reconstrução do Templo choveu somente à noite, para que os trabalhos dessa santa obra não fos­sem retardados. Esse pormenor veio por tradição de nossos antepassados até nós, mas não devemos ter dificuldade em lhe prestar fé, quando se apresentam aos nossos olhos tantas graças e favores recebidos da mão liberal e onipotente de Deus.

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