Capítulo 10 – Herodes muda seu testamento e declara Arquelau seu sucessor. Morre cinco dias depois de Antípatro. Soberbos funerais feito por Arquelau a Herodes. Grandes aclamações do povo em favor de Arquelau.

Herodes mudou imediatamente o seu testamento. Em lugar do prece­dente, em que tinha nomeado Antipas, seu sucessor, contentou-se neste em nomeá-lo, tetrarca da Galiléia e da Peréia; deu o reino a Arquelau; a Filipe seu irmão, a Traconítida, a Gaulanita e a Batanéia, que erigiu em tetrarquia; a Salomé, sua irmã, jamnia, Azoto e Fazaelite, com cinqüenta mil peças de prata. Deu ainda grandes presentes a todos os outros parentes, quer em dinheiro quer em rendi­mentos anuais: deu a Augusto, além de sua baixela de ouro e de prata, grande quantidade de móveis e objetos preciosos, dez milhões de peças de prata e cinco milhões idênticas, à imperatriz e a alguns de seus amigos. Ele sobreviveu a Antipatro, apenas cinco dias, e morreu trinta e quatro anos depois de ter expulso Antígono do reino e trinta e sete, depois de ter sido declarado rei, em Roma. Não houve jamais príncipe mais colérico, mais injusto, mais cruel e mais favorecido pela sorte. Pois, tendo nascido em condição humilde, chegou a subir ao trono, venceu perigos sem conta e viveu muitos anos. Quanto aos seus dissabores do­mésticos, embora as tentativas de seus filhos contra ele o tivessem tornado mui­to infeliz, segundo meu parecer, ele foi mesmo feliz nisso, segundo o juízo que disso ele fazia, porque não os considerando mais como seus filhos, mas como inimigos, ele os castigou e vingou-se deles.

Antes que a notícia de sua morte fosse divulgada, Salomé e Alexas puseram em liberdade todos aqueles judeus ilustres que estavam encerrados no hipódromo e disseram que o faziam por ordem do rei e nisto merecem os agradecimentos de nossa nação; quando a morte de Herodes se tornou conhe­cida, eles fizeram reunir no anfiteatro de jerico todos os soldados, para entre­gar-lhes uma carta que o príncipe lhes havia escrito. Ela foi lida publicamente e dizia que lhes agradecia o afeto e a fidelidade que sempre lhe haviam demons­trado e rogava que continuassem a servir a Arquelau, que ele tinha nomeado seu sucessor no reino. Ptolomeu, a quem ele tinha confiado o seu selo, leu também seu testamento que dizia expressamente que isso só se poderia fazer, depois de Augusto o tivesse confirmado. Ouviu-se então um clamor, enchendo os ares: “Viva o rei Arquelau!” Os soldados e os chefes prometeram servi-lo com a mesma fidelidade com que tinham servido ao rei, seu pai, e desejavam-lhe um longo e feliz reinado.

O novo príncipe pensou então em organizar soberbos funerais para o rei, seu pai, e quis mesmo estar presente à cerimônia. O corpo adornado com as insíg­nias reais tinha uma coroa de ouro na cabeça e um cetro na mão, era levado numa liteira de ouro, enriquecida com pedras preciosas. Os filhos do falecido e seus parentes próximos seguiam a liteira, todos os soldados marchavam perto, separa­dos por nações. Os trácios, os alemães e os gauleses vinham na frente; os outros, seguiam-nos; todos com seus comandantes, armados como para um combate. Quinhentos oficiais domésticos do falecido rei traziam perfumes e encerravam o magnífico cortejo. Marcharam nessa ordem, por oito estádios, desde jerico até o castelo de Herodiom, onde o enterraram, como ele tinha determinado.

Depois que o novo rei celebrou, segundo o costume do país, o luto de seu pai, deu um banquete ao povo e subiu ao Templo. Clamava-se viva o rei, por toda parte por onde ele passava e depois que ele se sentou sobre o trono de ouro, os clamores aumentaram, com votos pela prosperidade do seu reinado. Ele a todos recebeu com muita bondade e testemunhou-lhes sua gratidão, por nada ter diminu­ído de seu afeto por ele, com a recordação da severidade com que seu pai os havia tratado; afirmou-lhes que lhes daria provas do seu reconhecimento, disse-lhes que não tomaria ainda o nome de rei, até que Augusto tivesse confirmado o testamento de seu pai e que ele tinha recusado, por essa mesma razão, receber o diadema que todo o exército lhe havia oferecido em jerico. Mas logo que o tivesse recebido de Augusto, que somente tinha o poder de dar-lho, ele mostraria por suas ações, que tinham razão de amá-lo e esforçar-se-ia para torná-los mais felizes do que haviam sido durante o reinado de seu pai. Como é costume do povo, persuadir-se de que os príncipes, ao seu advento ao trono agem com muita sinceridade, estas palavras de Arquelau que lhe eram tão favoráveis, fez redobrar as aclamações: acrescentaram ainda outros louvores, maiores e mais entusiastas e tomaram a liberdade de lhe pedir diversas graças: uns, a diminuição dos tributos, outros, a libertação de vários prisio­neiros, que o rei, seu pai, havia feito meter na prisão, muitos das quais já lá estavam há muito tempo; outros ainda, a abolição do direito de peagem e dos impostos sobre mercadorias. O novo soberano que pensava em firmar cada vez mais o seu poder, julgou nada lhes poder recusar; depois de terminados os sacrifícios, ele deu um banquete aos seus amigos.

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