Capítulo 30 – João destrói com uma mina as plataformas feitas pelos romanos que estavam do seu lado, e Simão, com os seus, incendeia os aríetes, que batiam nos muros que ele defendia e ataca os romanos até no seu acampamento. Tito vem em seu auxílio. Põe os judeus em fuga.

Embora os romanos tivessem começado a doze de maio as quatro plata­formas sem interrupção, puderam terminá-las em vinte e sete do mesmo mês, tendo então empregado nessa obra, dezessete dias, porque elas eram muito grandes. A que estava do lado da fortaleza Antônia, para o meio da piscina de Stroutium, fora construída pela quinta legião. A décima segunda legião cons­truiu uma outra distante vinte côvados dali. A décima legião, que era a mais apreciada de todas, construiu a que estava ao norte, onde existe a piscina de Amigdalom. A décima quinta legião havia construído a que está perto do sepul-cro do sumo sacerdote João, distante da outra trinta côvados. As obras estavam terminadas e as máquinas, colocadas em cima das mesmas; João, porém, fez minar até a plataforma que estava em frente à fortaleza Antônia, sustentou a terra com estacas e trouxe uma grande quantidade de madeira, embebida em resina de piche e betume e pôs-lhe fogo. Tendo os suportes sido rapidamente consumidos, a plataforma ruiu por terra, com grande estrondo. Tal destruição quase abafou o fogo; viu-se a princípio sair da terra uma grande nuvem de fuma­ça misturada com poeira, mas depois que o fogo reduziu a cinzas a matéria que lhe embargava a passagem, as chamas começaram a aparecer. Tão grande aci­dente sucedido aos romanos, que já julgavam prestes o momento de tomar a praça, encheu-os de pasmo e esfriou-lhes a esperança. Julgaram mesmo inútil continuar a trabalhar para extinguir o fogo, porque não poderiam impedir a destruição da plataforma.

Dois dias depois Simão com os seus atacou as outras plataformas sobre as quais os romanos tinham colocado seus aríetes e começavam a bater no muro. Um certo Tefté, de Garsi, na Galiléia, Megazaro, que tinha sido pajem da rainha Mariana, e um tal Adibeniano, filho de Nabateu, cognominado o Coxo, corre­ram com fachos na mão para as máquinas e jamais em toda aquela guerra houve três homens mais decididos e mais temíveis. Lançaram-se pelo meio dos inimigos, como se nada tivessem que temer, quer dos dardos, quer das espadas, e só se retiraram depois de ter incendiado aquelas máquinas.

Quando as chamas começaram a se erguer, os romanos correram do acam­pamento para vir em auxílio dos seus. Mas os judeus os repeliram a dardos e desprezando o perigo travaram luta com aqueles que avançavam para apagar o fogo. Os romanos procuravam retirar os aríetes, cujos abrigos haviam sido quei­mados, e os judeus, para impedi-lo, permaneciam no meio das chamas sem se afastar, embora o ferro, com que aqueles aríetes estavam armados, se tivesse queimado todo. O incêndio passou dali para os terraços, sem que os romanos pudessem impedi-lo. Vendo-se assim rodeados pelo fogo de todos os lados e perdendo a esperança de conservar os seus trabalhos, retiraram-se para o acam­pamento. Essa retirada aumentou a ousadia dos judeus e seu número crescia sempre, porque outros vinham da cidade juntar-se a eles e então não duvidaram de que venceriam os romanos e foram com imprudente impetuosidade atacar o seu corpo de guardas. É ordem inviolável entre os romanos, que há sempre quem se ajude reciprocamente, para que, sob pena de morte, ninguém abandone o companheiro, seja qual for o motivo. Mas numa ocasião tão importante os que esta ordem obrigava a não deixá-los, preferindo uma morte horrível ao castigo que lhes poderiam fazer sofrer, saíram para deter o ímpeto dos judeus, e vários dos que fugiam comovidos pelo perigo em que os viam e também de vergonha, voltaram as costas e repeliram com suas máquinas aquela grande multidão que saía em desordem da cidade. Aqueles homens desesperados não atacavam so­mente os romanos que encontravam, mas lançavam-se como animais ferozes à ponta de suas lanças e os derrubavam com o corpo. Assim, sua ousadia procedia mais de brutalidade do que de verdadeiro valor e os romanos recuavam, por um sábio estratagema, para lhes deixar passar a fúria.

Entretanto, Tito, que tinha ido à fortaleza Antônia, para escolher lugares apropriados, a fim de levantar outras plataformas, voltou ao acampamento e repreendeu severamente os soldados, porque depois de se terem apoderado dos principais muros dos inimigos e de tê-los encerrado no último, como numa pri­são, deixavam-se surpreender por eles mesmo em seu próprio acampamento. Atacou, depois, os judeus pelos flancos, com algumas das suas melhores tropas e eles retrocederam, mas defenderam-se corajosamente. O combate acendeu-se com enorme entusiasmo de lado a lado, ergueu-se então uma grande nuvem de poeira e ressoaram tão grandes gritos, que os olhos ofuscados e os ouvidos aturdidos não podiam distinguir os amigos, dos inimigos. Os judeus permaneciam sempre firmes e mais por desespero do que por confiança em suas forças, e os romanos estavam tão animados pela vergonha de não poder conservar a glória de suas armas e pelo perigo em que viam seu general, que não duvido de que eles não teriam dizimado a todos os judeus, se eles não tivessem evitado seu furor, retirando-se para a cidade. Assim os romanos não encontraram mais inimi­gos pela frente; mas não se podiam consolar de ter, pela destruição de suas obras, perdido numa hora, o que lhes havia custado tanto tempo e tantas dificul­dades; vários, mesmo, vendo suas máquinas despedaçadas, perdiam a esperan­ça de tomar aquela praça.

 

Comentários

Tão vazio aqui... deixe um comentário!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Barra lateral